A tríplice coroa dos comes e bebes carioca tem três joias distintas, cada qual com sua majestade. A mais badalada delas, que reina absoluta nas redes sociais, é o Joia Comida, no Centro. Seus guiozas bem feitos, lámen com acessórios sortidos, preços baixos e atendimento excêntrico atraem curiosos e influenciadores de vídeos curtos. Esse boca a boca do algoritmo fez com que o restaurante chinês mudasse de endereço mais de uma vez, sempre para um lugar maior. Bom ver um negócio prosperar na cidade, mas carrego um certo saudosismo do ponto anterior. Quando era vizinho dos trilhos do VLT, a passagem dos vagões imprimia uma certa magia ao salão que, por alguns segundos, ficava na penumbra. Como diria Scorsese (e o meme): “Absolute cinema!”
- Mais no blog: o melhor bar do mundo não precisa de Google Maps
- De volta ao barracão: vídeo mostra como foi reencontro do Mestre Ciça com Juliana Paes, nova rainha de bateria da Viradouro; veja
Próximo das palmeiras-imperiais, em CEP nobre da cidade, o Joia Carioca é uma espécie de embaixada etílica do Jardim Botânico. É aquele lugar de cardápio extenso, que tem de tudo um pouco. Conhecendo a pessoa certa, dá até para levar uma caipirinha para viagem sem descer da bicicleta. Meu único lamento é terem acabado com a pizza sabonete, de Polenguinho, que me fez feliz durante os tempos de faculdade. Mas o filé mesmo são os habitués da casa. Há anos, um frequentador assíduo marca a bebedeira por lá como desculpa para, em algum momento, interromper o trânsito da rua movimentada e tirar uma foto com os convidados.
Só que é nos pés do Morro da Conceição que fica a peça mais valiosa e rara dessa trilogia, o Botequim do Joia. Aberto em 1909 como Café e Bar Rio Paiva, o bar fundado por João Nunes passou por poucas mudanças desde que Joaquim, o Seu Jóia, assumiu o negócio do pai, nos anos 1950. Hoje, a guardiã do tesouro invisível às lentes de celulares que buscam a perfeição é sua viúva, Dona Alayde.
Patrimônio Cultural Carioca desde 2011, o endereço tem a história da cidade entranhada nos tijolinhos aparentes da construção e no chão de ladrilho hidráulico, que até resiste bem ao tempo. Ainda que as coordenadas indiquem que o endereço fica no berço do samba, a playlist é inteirinha de música clássica. A exceção acontece às sextas, quando se revezam o Samba e o Chorinho do Aposentado.
Nas paredes, há escudos do Botafogo espalhados por toda parte, desenhos de clientes ilustres, reportagens e fotografias antigas e, até bem pouco tempo atrás, pôsteres sensuais de mulheres que deixariam muito dono de borracharia ruborizado. Talvez com medo de uma dura da patrulha do cancelamento, eles foram sumindo. Restaram apenas alguns poucos retratos levemente picantes de ícones atemporais da beleza brasileira, como os de Sônia Braga, Rose Di Primo e Magda Cotrofe.
A iguaria-assinatura da casa é o paio no feijão. O enchido vem nadando, inteiro e solitário, num prato fundo de feijão bem temperado. A couve, o arroz, a farofa e um eventual ovinho de gema mole são servidos em baixelas separadas para deixar claro quem é o protagonista. Preciosidade que só se encontra ali. Não fica bem na foto, é verdade. Mas quem liga?
Em dia de estreia, esta coluna é dedicada a Rodrigo Mendes, fundador e a alma do Costelas, que saiu de cena esta semana, deixando esposa, dois filhos e uma legião de amigos.