A decisão anunciada em Washington ecoou até Picos, cidade do sertão piauiense a 371 km de Teresina. É no município que funciona a Central de Cooperativas Apícolas do Semiárido Brasileiro, a Casa Apis, composta por 800 famílias da região, destina 80% da sua produção de mel orgânico para os Estados Unidos e é uma das maiores exportadora do estado.
Quando a imposição da tarifa de 50% sobre produtos brasileiros foi anunciada, o susto veio rápido: um comprador cancelou, de imediato, a compra de 95 toneladas de mel. Depois do primeiro abalo, veio um respiro. Os importadores norte-americanos sinalizaram que irão honrar os contratos firmados para este ano, ainda que com aumento do imposto.
— No primeiro momento, em torno de 30 dias atrás, tivemos a notícia ruim de que os contêineres estavam retidos no porto e o embarque suspenso. Depois liberaram, os contêineres foram examinados, e essa semana voltamos a exportar para os Estados Unidos. Ontem (terça), por exemplo, saíram dois contêineres da Casa Apis, na quinta-feira outros dois, totalizando quatro recentemente. Quem está pagando a tarifa são os importadores. A responsabilidade da cooperativa vai até o porão do navio. Depois disso, é com eles — explica o diretor geral da cooperativa, Sitonho Dantas.
O caso da Casa Apis é um dos centenas de setores que foram impactados pelo aumento das tarifas de exportação. No PIB geral, os economistas calculam que o tarifaço de Trump resulte em queda de 0,3% na projeção inicial. Porém, na microeconomia, diversas empresas já estão sendo afetadas com cancelamento de contratos.
O Piauí consolidou-se como um importante produtor e exportador de mel orgânico, com 85% das exportações destinadas ao mercado norte-americano, segundo dados da Federação das Indústrias do Piauí (Fiepi). Em uma década, o estado triplicou sua produção e saltou da 6ª para a 2ª posição no ranking nacional, atrás apenas do Rio Grande do Sul. O diferencial está na técnica sustentável, que valoriza a biodiversidade local e garante a pureza do produto.
No ano passado, só a Casa Apis enviou 95 contêineres para os EUA. A dúvida é o que vai acontecer no próximo ano, quando os contratos encerrarem. Para não depender exclusivamente do mercado norte-americano, a cooperativa vai buscar novos mercados, com a participação de feiras internacionais para ampliar mercado, especialmente para a Europa, Oriente Médio e Ásia, com apoio da Apex.
— Talvez porque tenhamos descuidado do mercado externo nos últimos anos. Fomos nos acostumando a mandar todo o mel para os Estados Unidos — lamenta Sitonho.
Nos últimos quatro anos, os Estados Unidos foram os principais compradores de mel da Cooperativa Mista dos Apicultores da Microrregião de Simplício Mendes (Comapi), com 90% da produção destinada ao território norte-americano. Mas como não têm contratos fixos, não sabem como será o futuro. No momento, têm pouco produto no estoque, e que vai ser direcionado para o mercado interno.
— Os importadores ainda não se manifestaram. A gente não sabe se, com essa taxação de 50%, eles vão continuar comprando. A gente fez contatos com compradores, mas até agora não houve qualquer posicionamento, nem positivo, nem negativo — explica a gerente da cooperativa, Janete Dias.
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Além da questão comercial, a Comapi enfrentou uma crise ainda mais grave: a seca prolongada, o que deixou seus estoques bem baixos, só com condição de atender ao mercado interno. Os 292 cooperados, em sua maioria pequenos agricultores familiares, tiraram sua subsistência ao investir em outras culturas. E quem não consegue, depende do Bolsa Família, explica Janete.
No Piauí, o período chuvoso costuma começar em novembro. Se as condições forem favoráveis, a safra de mel pode acontecer a partir de janeiro. Só que sem garantias de venda.
— Se a gente tiver produção em janeiro, vai vender pra quem? Os EUA vão comprar com essa tarifa? E se comprarem, eu preciso estar com a certificação em dia. Mas será que vale a pena renovar agora, sem saber se vai ter venda? As certificações que a cooperativa mantém são internacionais e custosas, têm que ser renovadas anualmente, mas fundamentais para acessar o mercado externo — questiona Janete.