O governo do Líbano anunciou nesta quinta-feira a aprovação inicial de um plano apresentado pelos EUA para desarmar o Hezbollah, quase um ano após uma operação militar de Israel contra o grupo. Contudo, a organização xiita, apoiada pelo Irã e que é uma das mais poderosas forças militares não-estatais do planeta, afirma que tratará a proposta “como se ela não existisse”, abrindo caminho para uma potencialmente perigosa crise.
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Falando a jornalistas, o ministro da Informação do Líbano, Paul Morcos, afirmou que o Gabinete deu aval apenas “aos objetivos” do plano, sem entrar em detalhes sobre os prazos ou como será feito o desarmamento do grupo. Ele ainda apontou que os trechos que envolvem outros países, como Israel, dependem de compromissos de governantes dessas nações.
De acordo com a proposta original, defendida pelos EUA, o desarmamento do Hezbollah acontecerá ao longo de 120 dias, em várias etapas que incluem, além da entrega das armas, a cessação de hostilidades com Israel, o retorno do controle da fronteira ao Exército libanês e a saída completa das forças israelenses do país árabe.
Na primeira fase, prevista para durar 15 dias, Israel e Líbano, incluindo o Hezbollah, suspenderão operações militares e ataques aéreos, e as forças libanesas montarão 15 postos de vigilância ao longo da fronteira. O grupo, por sua vez, assume o compromisso com o desarmamento e dará os primeiros passos para a entrega das armas e para o desmantelamento de posições em áreas fronteiriças, sob supervisão de EUA e França.
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Na segunda fase, com 45 dias de duração, começará a entrega de fato dos armamentos, e Israel iniciará a retirada de três das cinco posições onde mantém presença na divisa com o Líbano. Os moradores da região, expulsos durante o conflito do ano passado, poderão regressar às suas casas, e uma conferência internacional para a reconstrução libanesa, orquestrada por EUA, França, Arábia Saudita e Catar, começará a ser organizada — o documento fala abertamente na “implementação da visão do presidente Donald Trump de tornar o Líbano um país próspero” como um objetivo da reunião.
Em seguida, na terceira fase, o Hezbollah abandonaria suas posições ao sul do rio Litani — pela resolução 1.701 do Conselho de Segurança da ONU, que encerrou a guerra israelense no Líbano em 2006, a região localizada entre o rio e a chamada Linha Azul, que delimita a fronteira entre os dois países só poderia ser patrulhada pelo Exército do Líbano e pela Unifil, a força das Nações Unidas para o país árabe. Contudo, o Hezbollah fincou raízes na área, uma presença que serviu de pretexto para o conflito do ano passado. Pelo plano atual, Israel deixaria as últimas duas posições militares em disputa, que seriam ocupadas pelos militares libaneses.
Por fim, na quarta e última fase, o desarmamento do Hezbollah, assim como o desmantelamento completo de sua estrutura militar (assim como de outros grupos armados locais) seriam concluídos, dando ao Estado libanês o monopólio sobre a defesa do país. Ao mesmo tempo, Líbano, Israel e Síria começariam negociações para a definição “permanente” das fronteiras, e a conferência para a reconstrução seria realizada.
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Mas o plano, cuja aprovação pelo Gabinete foi celebrada pelo embaixador americano no Líbano, Tom Barrack, tem um grande adversário: o Hezbollah.
Na véspera da aprovação, o grupo afirmou em comunicado que o plano havia sido “ditado” pelos EUA, que o governo do premier Nawaf Salam estava cometendo “um grande pecado ao retirar do Líbano as armas para resistir a Israel”, e que trataria a proposta “como se ela não existisse”. Nesta quinta-feira, os ministros do Hezbollah e do Movimento Amal, também xiita, participaram da discussão sobre o projeto, “mas se retiraram antes da votação”, segundo Paul Morcos.
Por vezes chamado de “Estado dentro de um Estado”, e principal força política do Líbano nas últimas décadas, o Hezbollah sofreu perdas consideráveis durante a ofensiva israelense do ano passado, a começar por seu longevo líder, Hassan Nasrallah, morto em um bombardeio. Boa parte de seu arsenal, composto por dezenas de milhares de mísseis e foguetes, foi obliterado, e milhares de combatentes morreram. A queda do regime de Bashar al-Assad na Síria, em dezembro do ano passado, eliminou um aliado e uma importante rota de abastecimento, especialmente militar, com o Irã.
Mesmo com o Hezbollah enfraquecido, o governo adotava um tom cauteloso, evitando um confronto político com o grupo e uma perigosa alienação de parte da população xiita do Líbano, o que poderia colocar em risco o tênue equilíbrio moldado após o fim da guerra civil, encerrada em 1990.
— O Hezbollah ainda é forte no estado por causa do monopólio [que tem] sobre a representação xiita, bem como pela nomeação de figuras-chave — afirmou à rede al-Jazeera o deputado Mark Daou, do partido Taqaddum.
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Mas na terça feira, após uma reunião de Gabinete, o premier libanês, Nawaf Salam, reafirmou o “dever do Estado de monopolizar a posse de armas”, e o presidente Michel Aoun determinou que o Exército crie um plano para que todos armamentos pesados estejam, até o fim do ano, sob controle das Forças Armadas. Para analistas, o anúncio é resultado da pressão americana por resultados imediatos — vide o plano aprovado nesta quinta-feira —, que não leva em consideração questões políticas locais.
— Este processo é muito perigoso do jeito que está se desenrolando. Na verdade, ele consolidará e empurrará setores potencialmente ainda mais amplos da parcela xiita da sociedade libanesa para o lado do Amal e do Hezbollah, em vez de para a consolidação nacional — disse ao jornal britânico Guardian Joseph Daher, autor de “Hezbollah: a Economia Política do Partido de Deus”.
Em declarações transmitidas pela TV do Hezbollah na terça-feira, o líder do grupo, Naim Qassem, reafirmou que não pretende entregar suas armas,
— A Resistência (termo usado para se referir ao grupo) está bem, forte e pronta para lutar pela soberania e independência do Líbano. O Hezbollah fez grandes sacrifícios para defender o Líbano contra a agressão israelense.