Autoridades do estado mexicano de Oaxaca acusaram a marca de roupas esportivas Adidas de apropriação cultural, após o lançamento de um modelo de sandálias que, segundo eles, é cópia de um design tradicional daquela região.
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O governo estadual e um deputado local denunciaram que o lançamento do modelo “Oaxaca Slip-On”, criado pelo designer norte-americano de raízes mexicanas Willy Chavarría em colaboração com a Adidas, não tem autorização nem reconhece seus verdadeiros criadores.
“A empresa Adidas, junto com o designer Willy Chavarría, se apropriaram de um design único dos huaraches (sandálias) tradicionais da população de Villa Hidalgo Yalalag”, afirmou nesta quarta-feira Isaías Carranza, deputado local de origem zapoteca, em sua conta no Facebook.
Salomón Jara, governador de Oaxaca, também falou sobre o caso durante uma coletiva de imprensa na terça-feira. Ele afirmou que o calçado é um “modelo de huarache reinterpretado”, mas próprio do estado, enquanto mostrava imagens das sandálias lançadas pela marca alemã. Ainda ameaçou tomar medidas legais contra Chavarría. “Este huarache é de Yalalag. Vamos também pedir aos nossos irmãos yalaltecos que trabalhemos juntos para poder apresentar uma denúncia” contra o artista, acrescentou Jara na coletiva.
Os huaraches não são apenas um design, mas estão ligados à “cultura, história e identidade do povo indígena zapoteca”, disse em uma mensagem em vídeo publicada no X na quarta-feira. Oaxaca tem uma das maiores populações indígenas do país.
Por sua vez, a Secretaria de Culturas e Artes de Oaxaca afirmou em comunicado que a adoção sem consentimento de elementos culturais dos povos originários para fins comerciais constitui “uma violação aos seus direitos coletivos”. Por isso, exigiu da Adidas “a suspensão imediata da comercialização do modelo Oaxaca Slip-On”, a abertura de um processo de “diálogo e reparação de danos” com a comunidade de Yalalag, além do reconhecimento público da origem do design.
Chavarría definiu sua colaboração com a marca alemã como uma ode à cultura chicana. “Me enche de orgulho trabalhar com uma empresa que realmente respeita e enaltece nossa cultura da forma mais autêntica”, disse em entrevista ao Sneaker News.
Chavarría, que valoriza em suas criações sua ascendência chicana, esteve no centro da polêmica no final de junho, quando o presidente salvadorenho, Nayib Bukele, o acusou de “glorificar criminosos” em um dos seus desfiles na Semana de Moda de Paris. Durante esse desfile, vários homens tatuados, vestindo camisetas e shorts brancos, se ajoelharam, o que remeteu à postura imposta aos detentos do Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), a prisão de segurança máxima criada por Bukele para prender membros de gangues.
O México denunciou nos últimos anos a apropriação cultural e o uso não autorizado da arte de seus povos originários por grandes marcas e estilistas como a chinesa Shein, a espanhola Zara e a venezuelana Carolina Herrera.
Em 2022, o país adotou uma lei federal destinada a proteger os direitos de propriedade intelectual e cultural dos povos indígenas e afromexicanos. Desde então, o uso não autorizado de suas expressões culturais pode ser punido com multas e até prisão.
Até o momento, nem a Adidas nem o designer envolvido se pronunciaram sobre a controvérsia. Não é a primeira vez que a empresa enfrenta questionamentos semelhantes: em 2022, o Ministério da Cultura do Marrocos a acusou de se apropriar de elementos culturais do país nas camisas desenhadas para a seleção da Argélia. Inicialmente, a empresa negou a acusação, mas depois admitiu que o design havia sido inspirado nos mosaicos marroquinos conhecidos como zellige.