Neste sábado (9), Nagasaki relembrou os 80 anos do bombardeio atômico que destruiu a cidade em 9 de agosto de 1945, às 11h02, com uma cerimônia marcada pelo soar do sino restaurado da catedral da Imaculada Conceição. Foi a primeira vez que o som ecoou desde a tragédia.
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Durante o evento, o prefeito Shiro Suzuki fez um apelo à comunidade internacional para que “interrompa imediatamente os conflitos armados”, alertando sobre o risco crescente de uma guerra nuclear. Representantes de mais de 100 países participaram da solenidade, incluindo Rússia e Israel, que não haviam enviado delegações nos últimos anos. O momento de silêncio e reflexão foi interrompido apenas pelo toque dos sinos, emocionando sobreviventes, autoridades e visitantes.
A catedral da Imaculada Conceição foi destruída pela explosão da bomba “Fatman” e reconstruída em 1959. Seu sino histórico foi restaurado graças a um projeto liderado por católicos norte-americanos, simbolizando a capacidade de superar antigas inimizades. Para o padre Kenichi Yamamura, o gesto traduz “a grandeza do ser humano” e a possibilidade de reconciliação. Já o morador Akio Watanabe descreveu o som dos dois sinos tocando juntos como “um símbolo de união” entre americanos, católicos e os habitantes de Nagasaki.
A iniciativa foi idealizada pelo professor de sociologia James Nolan, que arrecadou US$ 25 mil nos Estados Unidos para viabilizar o restauro. Para ele, a ação não é apenas um resgate histórico, mas também um lembrete urgente da necessidade de um mundo livre de armas nucleares.
Há 80 anos, em 6 de agosto de 1945, um bombardeiro americano B-29 lançou sobre Hiroshima, no oeste do Japão, a primeira bomba atômica direcionada contra uma área habitada na história.
Três dias depois, o pesadelo se repetiu em Nagasaki, no sudoeste do país. Esta semana, as duas cidades japonesas organizam eventos para recordar os ataques, com a presença de representantes de mais de 100 países.
Os efeitos das duas bombas nucleares foram devastadores, as únicas utilizadas até hoje em tempos de guerra: 140.000 pessoas morreram em Hiroshima e 74.000 em Nagasaki entre agosto e o final de 1945.
A primeira coisa que muitos moradores de Hiroshima viram na manhã de 6 de agosto de 1945 foi uma “intensa bola de fogo”, segundo os termos do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
“Little Boy”, a bomba atômica que explodiu quase 600 metros sobre a cidade, tinha uma potência próxima a 15.000 toneladas de TNT.
A bomba lançada sobre Nagasaki, chamada de “Fat Man”, tinha uma potência ainda maior, de 21.000 toneladas de TNT.
As análises calculam que no epicentro da bomba de Hiroshima a temperatura atingiu 7.000°C. Um forno que provocou queimaduras graves e, em muitos casos, fatais em um raio de quase três quilômetros.
O intenso clarão das explosões também provocou cegueira temporária e lesões oculares irreversíveis, segundo o CICV.
A radiação térmica que se seguiu às explosões em uma fração de segundo provocou incêndios que devastaram vários quilômetros quadrados em Hiroshima e Nagasaki, onde a maioria das construções era de madeira.
As queimaduras e os incêndios teriam sido a causa de mais da metade das mortes imediatas em Hiroshima.
“Lembro dos corpos carbonizados de crianças pequenas espalhados ao redor do hipocentro como rochas pretas”, declarou Koichi Wada, que na época tinha 18 anos e estava em Nagasaki.
Muitas pessoas também morreram ou ficaram gravemente feridas pelos destroços que foram lançados na explosão, outras pelo desabamento de edifícios ou quando foram arremessadas pelo ar.
As explosões atômicas também emitiram radiações nocivas a curto e longo prazo: a “doença da radiação” afetou muitos dos que sobreviveram à destruição imediata em Hiroshima e Nagasaki.
Os problemas causados pela “radiação aguda” – vômitos, dores de cabeça, diarreias, hemorragias, queda de cabelo – podiam levar à morte em questão de semanas ou meses.
E os “hibakusha” (os sobreviventes da bomba, em japonês) ficaram expostos durante o resto de suas vidas a um risco mais elevado de desenvolver certos tipos de câncer.
Das quase 50.000 pessoas afetadas pela radiação nas duas cidades que a fundação de pesquisa nipo-americana RERF (Radiation Effects Research Foundation) monitorou, quase 100 morreram de leucemia e 850 de cânceres relacionados à radiação.
Hiroshima e Nagasaki representaram o golpe de misericórdia no Japão, que se rendeu em 15 de agosto de 1945, o que acabou oficialmente com a Segunda Guerra Mundial.
Mas os historiadores continuam debatendo se os ataques nucleares realmente ajudaram a salvar mais vidas ao acelerar o fim do conflito.
O calvário físico e psicológico de muitos hibakusha durou toda a vida. Muitas pessoas esconderam por muito tempo seu sofrimento e enfrentaram discriminação.
Durante décadas, muitos japoneses acreditaram de maneira equivocada que a “doença dos raios” era hereditária, inclusive contagiosa, e por isso evitavam interagir com os hibakusha.
Após a guerra, o governo japonês criou a condição de “vítima oficial” das bombas atômicas, que concedia direito a atendimento médico gratuito. Mas a medida era concedida sob condições restritivas, o que excluiu milhares de vítimas.
Alguns hibakusha se tornaram ativistas da causa pacifista e antinuclear, viajando pelo mundo para compartilhar seu testemunho.
A organização Nihon Hidankyo, que reúne os sobreviventes das bombas nucleares e atua para que Estados eliminem as armas nucleares, venceu o Prêmio Nobel da Paz em 2024.
Em 2019, o papa Francisco visitou Hiroshima e Nagasaki para reiterar seu “não” às armas atômicas.
Em 2016, Barack Obama foi o primeiro presidente dos Estados Unidos no cargo a visitar Hiroshima. Ele defendeu um mundo sem armas nucleares, mas não pediu perdão em nome dos Estados Unidos, pela tragédia japonesa de agosto de 1945.