Pequim recomendou que empresas locais evitem o uso dos processadores H20 da Nvidia, especialmente para fins ligados ao governo, dificultando ainda mais os esforços da fabricante de chips para recuperar bilhões em receita perdida na China após o governo de Donald Trump reverter uma proibição efetiva dos Estados Unidos sobre tais vendas.
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Nas últimas semanas, autoridades chinesas enviaram comunicados a diversas empresas desencorajando o uso desses chips menos avançados, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, que pediram anonimato. A orientação foi particularmente enfática contra o uso dos H20 em qualquer trabalho relacionado ao governo chinês ou à segurança nacional por parte de empresas estatais ou privadas, disseram as fontes.
As cartas, no entanto, não configuraram uma proibição total do uso dos H20, de acordo com essas pessoas. Analistas do setor concordam amplamente que empresas chinesas ainda desejam esses chips, que têm bom desempenho em certas aplicações cruciais de inteligência artificial.
A Nvidia e a Advanced Micro Devices (AMD) obtiveram recentemente a aprovação de Washington para retomar as vendas de chips de IA de baixo desempenho à China, sob a condição controversa e juridicamente questionável de que paguem ao governo americano 15% da receita obtida com a venda desses semicondutores.
Mas mesmo com a equipe de Trump favorável, as duas empresas enfrentam o desafio de que seus clientes chineses estão sob pressão de Pequim para comprarem chips nacionais.
O movimento mais amplo de Pequim afeta aceleradores de IA da AMD, além do chip H20 da Nvidia, lançado em 2023 para cumprir as restrições de exportação impostas na era Biden, segundo uma das fontes, embora não esteja claro se algum comunicado mencionou especificamente o chip MI308 da AMD.
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Na noite de segunda-feira, Trump afirmou que o processador H20 da Nvidia — que ele chamou de “obsoleto” — “ainda tem mercado” no país asiático. No entanto, após confirmar que havia “negociado um pequeno acordo” com o CEO da Nvidia, Jensen Huang, para dar aos EUA uma ”parte da receita” da fabricante de chips no país, o presidente americano contou que planeja discutir um novo acordo com Huang para permitir que a Nvidia venda à China chips baseados em sua mais recente e avançada plataforma, a Blackwell.
A aprovação liberaria bilhões de dólares em vendas para a Nvidia, após a pressão de Huang por acesso ao mercado chinês, apesar das preocupações de segurança em Washington. Vale ressaltar que o desempenho dos chips H20 vendidos para a China é limitado em comparação aos disponíveis para clientes dos EUA.
A posição de Pequim com relação ao uso dos chips H20, no entanto, pode limitar a capacidade de Trump de transformar sua guinada nas regras de controle de exportações em um grande ganho para os cofres do governo — um acordo que destacou a abordagem de seu governo para políticas de segurança nacional que, por muito tempo, foram tratadas como inegociáveis.
Ainda assim, as empresas chinesas podem não estar prontas para abandonar os semicondutores locais.
— Os chips de fabricantes domésticos estão melhorando dramaticamente em qualidade, mas talvez não sejam tão versáteis para determinadas cargas de trabalho nas quais a indústria de IA da China espera se concentrar — , disse Homin Lee, estrategista macro sênior da Lombard Odier em Cingapura.
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Lee acrescentou que prevê uma demanda “forte” pelos chips que o governo Trump está permitindo que Nvidia e AMD vendam.
Segundo uma das fontes, Pequim questionou empresas sobre essa dinâmica em algumas de suas cartas, fazendo perguntas como por que elas compram chips H20 da Nvidia em vez de alternativas locais, se essa é realmente uma escolha necessária diante das opções domésticas e se encontraram algum problema de segurança no hardware da Nvidia.
Os comunicados coincidem com reportagens da mídia estatal que colocam em dúvida a segurança e a confiabilidade dos processadores H20. Reguladores chineses levantaram essas preocupações diretamente com a Nvidia, que negou repetidas vezes que seus chips contenham tais vulnerabilidades.
Atualmente, segundo as fontes, a orientação mais rígida da China para chips está limitada a aplicações sensíveis — situação semelhante à forma como Pequim restringiu veículos da Tesla e iPhones da Apple em determinadas instituições e locais por questões de segurança. O governo chinês também, em determinado momento, proibiu o uso de chips da Micron Technology em infraestrutura crítica.
É possível que Pequim amplie suas diretrizes mais restritivas para Nvidia e AMD a um número maior de contextos, segundo uma pessoa com conhecimento direto das discussões, que afirmou que essas conversas ainda estão em estágios iniciais.
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A AMD se recusou a comentar sobre os comunicados de Pequim, enquanto a Nvidia afirmou em nota que “o H20 não é um produto militar nem destinado à infraestrutura governamental”. A empresa disse que a China dispõe de amplo fornecimento de chips domésticos e “não depende e nunca dependeu de chips americanos para operações do governo”.
O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China e a Administração do Ciberespaço da China não responderam a pedidos de comentário enviados por fax sobre esta matéria, que se baseia em entrevistas com mais de meia dúzia de pessoas familiarizadas com as discussões de política de Pequim. A Casa Branca também não respondeu a um pedido de comentário fora do horário comercial.
A postura do governo chinês levanta questões sobre a explicação do governo Trump para o motivo de os EUA estarem permitindo essas exportações apenas alguns meses depois de efetivamente proibir tais vendas. Vários altos funcionários americanos afirmaram que a reversão da política foi resultado de negociações comerciais com a China, mas Pequim indicou publicamente que a retomada dos embarques de H20 não fazia parte de nenhum acordo bilateral.
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Os comunicados recentes da China para empresas sugerem que o país asiático talvez nem tenha buscado tal concessão de Washington em primeiro lugar.
As preocupações de Pequim são de duas ordens. Primeiro, autoridades chinesas temem que os chips da Nvidia possam ter recursos de rastreamento de localização e de desligamento remoto — algo que a empresa negou veementemente.
Autoridades do governo Trump estão explorando ativamente se o rastreamento de localização poderia ser usado para ajudar a coibir o suposto contrabando de componentes restritos para a China, e parlamentares apresentaram um projeto de lei que exigiria verificação de localização para chips avançados de IA.
Em segundo lugar, Pequim está fortemente focada no desenvolvimento de sua capacidade doméstica de produção de chips e quer que as empresas chinesas abandonem os chips ocidentais em favor de produtos locais. Autoridades já haviam incentivado empresas chinesas a escolher semicondutores nacionais em vez dos processadores H20 da Nvidia, conforme noticiado pela Bloomberg em setembro passado, e introduziram padrões de eficiência energética que o chip H20 não atende.
A Nvidia projetou o chip H20 especificamente para clientes chineses, a fim de cumprir anos de restrições impostas pelos EUA à venda de seu hardware mais avançado — limitações destinadas a restringir o acesso de Pequim a tecnologias de IA que pudessem beneficiar as forças armadas chinesas.
O H20 possui menos poder de computação que os principais produtos da Nvidia, mas sua alta largura de banda de memória é bastante adequada para a etapa de inferência no desenvolvimento de IA, quando os modelos reconhecem padrões e tiram conclusões.
Isso o tornou um produto desejado por empresas como Alibaba e Tencent na China, onde a campeã nacional de chips, a Huawei, enfrenta dificuldades para produzir componentes avançados suficientes para atender à demanda de mercado.
Segundo uma estimativa de autoridades do governo Biden — que cogitaram, mas não implementaram, controles sobre as vendas do H20 —, perder acesso a esse chip da Nvidia tornaria de três a seis vezes mais caro para as empresas chinesas executar inferências em modelos avançados de IA.
— Pequim parece estar usando a incerteza regulatória para criar um mercado cativo de tamanho suficiente para absorver a oferta da Huawei, ao mesmo tempo em que ainda permite a compra de H20s para atender à demanda real — disse Lennart Heim, pesquisador especializado em IA da RAND, sobre o esforço da China para que empresas evitem chips de IA americanos. — Isso sinaliza que as alternativas domésticas continuam inadequadas, mesmo com a China pressionando fornecedores estrangeiros.
Em seu discurso de segunda-feira, Trump disse que a Huawei chinesa já oferece chips comparáveis ao H20 da Nvidia, ecoando declarações anteriores de autoridades de seu governo que defenderam a decisão de retomar as exportações do H20 em parte com base nesse argumento.
Esses funcionários dizem que os EUA devem manter o ecossistema de IA chinês dependente de tecnologia americana menos avançada pelo maior tempo possível, a fim de privar a Huawei da receita e do know-how que viriam de uma base de clientes mais ampla.
Outros membros do governo se opuseram fortemente a essa lógica, segundo a Bloomberg, argumentando que retomar as exportações do H20 só encorajará os campeões tecnológicos da China e fortalecerá o poder de computação geral do país.
O secretário de Comércio, Howard Lutnick, e outros integrantes do governo Trump também afirmaram que a decisão sobre o H20 fez parte de um acordo para melhorar o acesso dos EUA aos minerais de terras-raras da China — apesar de declarações anteriores da própria equipe de Trump de que tal arranjo não estava em negociação.
— À medida que os chineses entregarem seus ímãs, então os H20 serão liberados — disse Lutnick no mês passado.
Já o secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou no fim de julho que a questão dos ímãs havia sido “resolvida”.
As primeiras licenças para o H20 da Nvidia e o MI308 da AMD chegaram pouco mais de uma semana após a declaração de Bessent — depois que o diretor-executivo da Nvidia, Jensen Huang, se reuniu com o presidente e ambas as empresas concordaram em compartilhar sua receita na China com o governo dos EUA.