Nas eleições presidenciais bolivianas de 18 de dezembro de 2005, o ex-presidente Evo Morales (2006-2019) obteve uma vitória surpreendente no primeiro turno, que não fora prevista por nenhuma pesquisa à época. O então líder cocaleiro e candidato do Movimento ao Socialismo (MAS) obteve 53,74% dos votos, derrotando os candidatos mais fortes da direita, o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga, que ficou em segundo lugar com 28,59%, e o empresário Samuel Doria Medina, que ficou em terceiro, com 7,80%.
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Quase 20 anos depois, a Bolívia vive o que analistas locais ouvidos pelo GLOBO chamam de “fim de ciclo”. Com Evo foragido da Justiça — desde 2024 está vigente uma ordem de detenção por suposto abuso e tráfico de pessoas, incluindo uma suposta relação com uma adolescente de 15 anos, com quem o ex-presidente teria tido uma filha — e refugiado na região cocaleira do Chapare, o MAS, ainda no poder mas rachado e enfraquecido, abriu espaço para Quiroga e Medina, favoritos para as eleições presidenciais que serão realizadas neste domingo.
Segundo uma das últimas pesquisas divulgadas no país, realizada pela Ipsos-Ciesmori, Medina, da Aliança Unidade, está na liderança com 21,2%, um pouco acima de Quiroga, da Aliança Livre, que aparece com 20% das intenções de voto. Em terceiro está Rodrigo Paz Pereira, do Partido Democrata Cristão, com 8,3%, em quarto Manfred Reyes Villa, da aliança APB-Sumate, com 7,7%, e só em quinto Andrónico Rodríguez, ex-discípulo de Evo (foi vice-presidente do sindicato dos cocaleiros), com 5,5%. O candidato do governo do presidente Luis Arce, o ex-ministro Eduardo del Castillo, aparece em sexto lugar, com 1,5%. Somados, os dois candidatos que pertenceram ao MAS não somam 10% das intenções de voto.
As pesquisas costumam errar na Bolívia e, segundo fontes da campanha de Andrónico, o jovem presidente do Senado que se atreveu a desafiar a campanha de Evo — em campanha a favor do voto nulo — teria crescido nas últimas semanas.
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Mas, mesmo desconfiando das sondagens, a maioria dos analistas bolivianos acredita que, em um provável segundo turno, marcado para 19 de outubro, a disputa será entre uma direita moderada — para alguns uma centro-direita — representada por Medina e uma direita mais conservadora e radical, liderada por Quiroga. Os principais temas da campanha foram a crise econômica, segurança e corrupção. O ex-presidente, em todos os temas, tem uma visão mais ideológica e à direita que Medina.
Mas o que aconteceu com a grande massa de eleitores que em 2005 votaram a favor de uma mudança radical no país? A resposta mistura elementos políticos, econômicos e até mesmo sociológicos.
— Existe muito desencantamento e frustração pela maneira como o MAS utilizou e desperdiçou os recursos políticos e econômicos que teve ao seu alcance. Nenhum presidente na História da Bolívia teve tanto poder e em condições tão favoráveis para impulsionar o desenvolvimento e favorecer a democracia. Mas os resultados econômicos são muito ruins, e as pessoas percebem isso — explica Roberto Laserna, pesquisador do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social (Ceres).
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Evo e o MAS viveram anos de bonança econômica graças, entre outras razões, às exportações de gás. Os sucessivos governos do ex-presidente contaram com recursos para financiar políticas públicas e aquecer a economia, o que permitiu a emergência de uma nova classe média boliviana, que hoje sofre com uma crise que não conseguiu ser contornada pelo governo Arce. Tudo isso em meio a denúncias de corrupção, aparelhamento do Estado e uma guerra política que atingiu seu ápice quando o atual presidente se opôs ao desejo de Evo de lançar uma quarta candidatura presidencial e contou com o apoio da Justiça para impedi-lo. Com a economia mergulhada numa delicada crise, o MAS quebrou.
Hoje, o país enfrenta dramas como um déficit fiscal de 12% do PIB, uma inflação que chegou a quase 24% nos primeiros seis meses de 2025 e a queda expressiva das exportações de gás para o mercado argentino — antes um dos principais compradores do gás boliviano. Hoje, além de se autoabastecer em matéria de gás, a Argentina substituiu a Bolívia no mercado brasileiro.
— As classes emergentes favorecidas pelo MAS temem uma mudança, mas, ao mesmo tempo, querem o fim da crise, porque ela afeta seus negócios e sua renda — afirma.
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Sem o apoio popular de 2005, o MAS chega à eleição em seu pior momento. Em palavras do consultor político Ricardo Paz, “o projeto de partido único e hegemônico fracassou, assim como seu neopopulismo autoritário”.
— Embora exista rejeição aos candidatos do que chamo de campo democrático, que não são populares, um deles deve vencer. Hoje votam pelo MAS os que ainda se sentem identificados com o que o movimento representa em termos de inclusão social, de dignificação de setores por décadas esquecidos, pelo orgulho das classes abandonadas pelas elites. É o voto dos indígenas, que não querem a volta dos “brancos” ao poder — afirma.
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Paralelamente, aponta ele, muitas pessoas que sentem essa identificação não votarão por candidatos ligados ao MAS porque já não apoiam o atual modelo econômico.
— Os que estão com Andrónico são os sindicatos, que controlam as ruas e podem causar violência. Se a direita vencer, como é esperado, o cenário pós-eleitoral será complexo — prevê.
Caso vençam, tanto Medina quanto Quiroga enfrentariam uma forte resistência social e política. Nenhum dos dois conta com o apoio de movimentos sociais e sindicatos, que na Bolívia têm enorme peso e influência, diferentemente de países como a Venezuela — onde o fator chave é o militar. Evo está escondido no Chapare, mas, assegura o advogado e colunista Gonzalo Mendieta, “não pode ser considerado um cadáver político”.
— Tuto e Samuel aplicarão um forte ajuste econômico, que vai impactar as classes mais baixas. Nesse cenário, o discurso emocional e de vítima de Evo terá impacto. Os que saíram da pobreza com o MAS poderiam voltar a cair nela — diz Mendieta.
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A Bolívia, diz o advogado, “tem uma sociedade organizada, corporativista, que pode conturbar o cenário se o próximo presidente for de direita”.
— Aqui o Estado é fraco em comparação com a fortaleza da sociedade.
Álvaro Garcia Linera, ex-vice presidente de Evo, disse há alguns meses que, separado, o MAS seria derrotado. Sobre isso parece existir consenso na Bolívia. Há decepção com o MAS, mas também muitas dúvidas sobre como será a Bolívia com a legenda na oposição. A dúvida que paira é como será um provável novo ciclo político, com Evo foragido e prometendo convocar seus seguidores para as ruas, e os candidatos de direita falando em ajuste e anunciando a liberação de lideranças como Fernando Camacho, ex-governador do departamento (estado) de Santa Cruz, que desafiou Evo em 2019.
— Os que saíram da pobreza não querem mais o MAS. As ameaças de Evo, que chegou a dizer que “contaremos mais mortos do que votos” não impediram a eleição — diz Carlos Cordero, decano da Faculdade de Direito e Ciência Política da Universidade Católica de La Paz.
O voto é obrigatório no país, e as eleições serão observadas por uma missão da União Europeia (UE), entre outras. As Forças Armadas estão alinhadas com o Tribunal Supremo Eleitoral, que parece empenhado em fazer uma eleição democrática. Uma mudança de ciclo está no ar, mas o risco de violência também.