No coração dos irmãos cariocas Antônio, de 12 anos, e Henrique Avzaradel, de 9, o lugar do Flamengo está muito bem guardado. Só que ele não está sozinho. Os dois também são admiradores do Barcelona, por influência do avô materno, um catalão e torcedor culé. Mas não só por ele. O mais novo está sempre assistindo a vídeos de gols e dribles de Lamine Yamal. Já o mais velho diz ser um fã de Messi.
— Já gostei do Real (Madrid) também. Quando não joga contra o Barcelona, eu também torço por ele — confessa Antônio.
Difícil de entender? Pois no guarda-roupas o espaço é ainda mais disputado que no coração. Henrique tem camisas de Barça, Real, Paris Saint-Germain-FRA e Arsenal-ING. Já Antônio tem da dupla espanhola, do Manchester United-ING e dos franceses Lyon e Olympique de Marselha. Sem contar as do Flamengo…
Esse fenômeno foi capturado pela pesquisa O GLOBO/Ipsos-Ipec. Ela revela que 22% dos brasileiros torcem também para clubes estrangeiros. E é nas faixas etárias mais jovens que esse sentimento se faz mais presente. Influência das redes sociais, repletas de conteúdos sobre os times e os jogadores, dos games, dominados por esses clubes, e da pulverização da transmissão das ligas europeias pelas plataformas de vídeo.
Os times mais citados pelos entrevistados foram Real (9,1%), Barça (6,6%) e PSG (2,4%). Justamente três dos que mais se destacam nos últimos anos pela capacidade de reunir astros como Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar, Mbappé, Bellingham, Yamal e Vini Jr.
Referência na temática de futebol, a casa Festa e Aventura, no Rio, promove cerca de 10 aniversários infantis por mês com esse tema. Em metade, a decoração usada é a da Liga dos Campeões da Europa, com escudos dos times e imagens dos atletas.
— E, dos clubes europeus, a temática mais pedida é a do PSG — conta a proprietária Mônica Carvalho.
O clube parisiense conhece bem essa popularidade por aqui. O Brasil é o grande caso de sucesso da sua rede de escolinhas, a PSG Academy. Atualmente, são cerca de 14 mil alunos, mais que em qualquer outro país. A primeira unidade fora da França, aliás, foi aberta em 2014 no bairro de Botafogo, na Zona Sul carioca, por iniciativa de um grupo de três franceses e dois brasileiros. Naquele primeiro momento, eles tinham permissão para gerir o projeto apenas no Rio. Hoje, há 55 unidades em 16 estados das cinco regiões, além do Distrito Federal. Até o fim do ano, a previsão é chegar a 60.
O principal atrativo é a ligação direta com o clube. O PSG exige — e fiscaliza — a adoção de uma metodologia de trabalho unificada em todo o mundo. Mas a procura dos alunos evidencia que esse não é o único fator de interesse. O recorde de matriculados no Brasil foi de 15 mil, durante a presença do trio formado por Neymar, Messi e Mbappé no time.
—Nós temos dois marcos. O primeiro foi a chegada do Neymar. A molecada gosta muito dele, e houve um boom de alunos. E, depois, a chegada do Messi. Nesse momento, houve um crescimento em termos de negócio, com uma procura muito grande de franquias — relata Igor Peres, diretor técnico nacional da PSG Academy no Brasil.
Além da força dos ídolos, há um trabalho dos clubes para criar uma identidade com os brasileiros. Durante a última temporada, a La Liga promoveu em São Paulo algumas edições do Bloke Baile, voltado para amantes de camisas de times como peça principal de uma tendência de moda (em alta entre os jovens e até entre os que não acompanham futebol). O evento contava com música e exibição de jogos do Campeonato Espanhol.
Nas redes sociais, ligas e clubes europeus exibem ídolos brasileiros do passado e do presente e produzem conteúdos voltados para o público do país. Além disso, procuram interagir com torcedores dos times locais e até utilizam músicas nacionais. O mercado interno vem se abrindo. Só o PSG já tem mais de 300 produtos licenciados, de camisas a perfumes.
— Mesmo clubes que vêm despontando mais recentemente no mercado mundial ou que não têm tanto contexto de conexão com ídolos brasileiros, como Newcastle, Everton e West Ham, da Inglaterra, estão iniciando seus programas de licenciamento no país conosco — conta Bruno Koerich, CEO da Destra Licenciamento de Marcas, que trabalha com clubes como Real, Barça, PSG e Manchester City. — Pela alta taxa de adesão do esporte no país, pelo perfil de grande uso e engajamento das redes e pelo papel de influência dentro da América Latina, o mercado brasileiro é altamente cobiçado.