Namorados na adolescência e amigos da vida toda, Drica Moraes e Enrique Diaz não se encontravam no palco havia 42 anos. O jejum foi quebrado na reestreia da peça “Férias”, na semana passada. Diaz, que até então assinava exclusivamente a direção do espetáculo ao lado de Débora Lamm, agora também entra em cena. Ele encarna o papel que foi de Fábio Assunção até junho.
— Estou muito curioso para ver o que ele vai trazer para esse personagem que ele conhece tão bem — diz Fábio. — Só espero que ele faça direito, pelo menos quando eu for — brinca.
O eterno galã pode ficar tranquilo. A reação fervorosa do público nas primeiras apresentações atesta que Diaz tem dado conta do recado. “Férias” conta a história de um casal que celebra os 25 anos de casamento num cruzeiro onde vivem aventuras — muitas delas sexuais — e revisam lembranças que parecem se confundir com a vida dos próprios atores.
Enrique e Drica se conheceram nos anos 1980, quando ainda estudavam teatro no icônico Tablado, no Jardim Botânico. O namoro dos jovens de 16 e 13 anos, respectivamente, floresceu na temporada da peça “Os 12 trabalhos de Hércules”, adaptada da obra de Monteiro Lobato, dirigida por Maria Clara Machado (1921-2001) e Carlos Wilson (1950-1992).
O espetáculo reunia alguns dos jovens artistas que fariam parte de uma das gerações mais “pop” da TV e do teatro brasileiro, como Alexandre Frota, Marcelo Novaes e Paula Lavigne, entre (muitos) outros. Só que o encontro de Drica e Enrique criou laços tão fortes que os dois seguem próximos até hoje.
Não por acaso, Kiki — como Enrique é chamado pelos amigos — foi o primeiro nome pensado pela atriz e produtora para dirigir “Férias”, escrita por Jô Bilac especialmente para ela. Os atores receberam O GLOBO para um bate-papo antes do último ensaio da nova fase da peça que cumpre temporada no Teatro Claro Mais, no Rio, até o dia 21 de setembro.
Como foi o primeiro encontro cênico de vocês?
Drica Moraes: A gente namorou na temporada de “Os 12 trabalhos de Hércules”. Ele fazia o Pedrinho e eu era a Emília. Ou seja, ele pegou a boneca de pano. E assim eu vivi minha primeira fantasia sexual com Enrique Diaz… Essa entrevista não vai ter um bom nível (risos).
Enrique Diaz: Mas depois também a gente criou a Cia dos Atores, que está aí até hoje.
Drica: Tá vendo? Ele sempre leva as entrevistas para um nível intelectual alto, e eu vou pra bagaça… (risos)
Enrique: Isso é verdade (risos). Mas a gente namorou de novo, dez anos depois dessa fase adolescente.
Como foi o namoro já adultos?
Drica: Adultos, sim, mas ainda éramos jovens suculentos, né? Bem depois disso, tivemos outro encontro, muito marcante. Foi por conta da minha cura (a atriz foi diagnosticada com leucemia em 2010 e passou por um transplante de medula óssea bem-sucedido naquele ano).
Enrique: Foi quando fizemos o “À primeira vista” (espetáculo de 2013 que marcou a volta de Drica ao trabalho, com direção de Enrique).
Drica: Kiki e Mariana (Lima, então esposa do diretor e parceira de cena de Drica no espetáculo) me pegaram pela mão para ensaiar essa peça. Eu achava que nunca mais conseguiria trabalhar com força, com beleza.
Enrique: Ela estava superfrágil no começo do processo. Nos ensaios, a cor da pele dela foi mudando, a presença foi voltando. Durante a peça ela realmente ficou bem. Foi um resgate.
Drica: Acho que eu realmente voltei mais forte desse processo de quase morte.
E agora encarando uma comédia divertidíssima.
Drica: Queria uma comédia porque por meio do humor a gente fala de coisas difíceis. Do envelhecimento, da distância dos filhos, de um mundo que não te abraça mais, mas onde ainda podemos viver. A gente tem a obrigação de ser feliz e gozar.
Como é perceber que não se é mais fisicamente jovem?
Drica: Depois dos 40, você olha em volta e quase sempre é o mais velho do grupo. Aos 50, fica bem radical. Numa equipe de TV, que geralmente tem muita gente, umas cem pessoas, só uns dois ou três têm mais de 60. É muito doido.
Muda o comportamento das pessoas com vocês?
Drica: Elas param de te dar toques para melhorar. Acham que a gente não vai gostar, que vai ficar magoado. E não tem nada disso. Eu preciso de direção, eu preciso do olhar do outro.
Enrique: Existe uma certa imagem do que seria o comportamento ideal de pessoas de uma certa idade. E essa peça subverte justamente isso. O casal é dinâmico, eles são meio malucos, transbordantes.
Drica: Vou dar um spoiler: eles começam a peça presos numa delegacia na Colômbia, ligando para os filhos para que paguem a fiança. E os filhos não atendem!
O que muda na peça nessa transição do Fábio para o Enrique?
Drica: Era bonito com o Fábio porque ele é um bicho do audiovisual, tem uma certa contenção em cena. Com o Kiki é uma energia “quicante” (risos). Nós parecemos duas crianças soltas no pré-primário.
Enrique: Não pense que é fácil entrar no lugar dele só porque eu dirigi a peça. A gente fica lembrando dele o tempo todo. Ele ainda está aqui com a gente, não tem como não estar.
O público consagrou o espetáculo. As sessões continuam cheias.
Drica: Desde a estreia. Eu acho que isso não é à toa. As pessoas estão muito isoladas e o teatro é um remédio contra esse afastamento interpessoal, especialmente depois da pandemia.
Enrique: Antes de chegar aqui hoje eu pensava nisso. O ponto de partida dessa peça é o amor. O amor pela vida, pelo mundo, pelo outro, pelos filhos. O amor por estarmos juntos e vivos. O amor e todas as formas de amar.