Após sua morte precoce, aos 43 anos, em 1978, Antonio Candeia Filho se consolidou como um ícone da cultura negra brasileira. Ele, que completaria 90 anos este domingo, tem recebido homenagens, e uma biografia sua está a caminho.
A vida do compositor se transformou com o tiro que o deixou paraplégico. Mas ainda há discussão em torno de o quanto se transformou. E ainda há divergências sobre o que aconteceu na madrugada em que foi dado o tiro, até mesmo sobre a data.
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Consagrou-se 13 de dezembro de 1965 como o dia em que Candeia foi atingido na esquina das avenidas Presidente Vargas e Marquês de Sapucaí, no Centro do Rio. Mas o jornalista e pesquisador Lucas Nobile localizou notícias da época no GLOBO e no jornal Luta Democrática apontando 12 de dezembro de 1966 como a data correta.
O sambista vinha de uma festa realizada no clube Imperial, em Madureira, e seu carro foi abalroado por um caminhão. A versão mais corrente é a de que ele, policial civil, saiu e deu tiros nos pneus do veículo. Havia dois ou três homens na boleia, e um deles disparou contra Candeia — diz-se que cinco vezes. Não está certo se, ao ser atingido, ele estava com ou sem a arma na mão. O fato é que, já no dia seguinte, os jornais afirmavam que dificilmente voltaria a andar.
O jornalista Vagner Fernandes, que está escrevendo uma biografia com previsão de lançamento para dezembro, e a filha do compositor, Selma Candeia, ressaltam que não foi após o tiro que ele se tornou um autor inspirado e um conhecedor da cultura afro-brasileira.
— A paraplegia deu a ele uma aura mística, a do personagem que superou todo o drama de estar em cima de uma cadeira de rodas para se converter num grande compositor. Mas ele já era um grande compositor — afirma Vagner. — A introspecção, o mergulho interior e a percepção do mundo a partir do episódio o tornaram diferente.
Antes de 1966, Candeia já tinha vencido cinco disputas de sambas-enredo na Portela, sendo a primeira aos 17 anos, em 1953 — ao lado de Altair Prego, mas seu parceiro mais constante na escola foi Valdir 59. E havia formado o grupo Mensageiros do Samba com outros portelenses, entre eles o também policial Arlindo, pai de Arlindo Cruz.
Vagner ainda ressalta que Candeia já era próximo desde cedo das manifestações de matriz africana.
— Não acho que ele tenha tomado consciência da cultura negra ou se envolvido na causa antirracista porque ficou paraplégico. Acho que ele foi aperfeiçoando sua visão de mundo — diz o jornalista, autor de uma biografia de Clara Nunes.
Selma Candeia, nascida em 1959, recorda que na casa do avô, o também sambista Antonio Candeia, seu pai acompanhava partido-alto, jongo e outras tradições.
— Odilon, irmão mais velho por parte de pai, era babalorixá. Meu pai foi iniciado no candomblé, filho de Oxóssi com Oxum — conta ela, segunda filha de Candeia (o mais velho é Jairo), lembrando que ele foi coroinha na infância por causa da mãe beata.
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João Baptista Vargens, professor de Letras que foi amigo do sambista e escreveu o livro “Candeia — Luz da inspiração”, lançado em 1988 e ampliado em 2008, é outro a afirmar que o compositor já era grande, mas que mudou de perfil depois de ficar paraplégico:
— Sem a possibilidade de andar, ele refletiu mais e criou outra visão não só sobre a negritude, mas sobre a vida de um modo geral. Cresceu do ponto de vista social e, também, lírico.
Em 1975, descontente com os rumos da Portela e com o que considerava a mercantilização das escolas de samba, Candeia criou o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo. Sediado em Coelho Neto, na Zona Norte, desfilava sem competir e era um centro de estudos e práticas relacionados à vida da população negra.
— Candeia foi um ativista contra o racismo no Brasil — diz o compositor e escritor Nei Lopes, colega no Quilombo. — Isso aconteceu, pelo que vi, depois da “fatalidade” que o impossibilitou fisicamente. Ele atuou, dentro de suas possibilidades, pensando a questão junto a ativistas do IPCN (Instituto de Pesquisa das Culturas Negras) e pensadores como Lélia Gonzalez. Tinha, inclusive, contato com entidades no exterior para tentar viabilizar seu projeto.
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Sempre polêmica é a atuação de Candeia como policial. Era rígido, truculento, e combatia a prostituição e a chamada vadiagem. Paulinho da Viola tomou uma dura uma vez, antes de se conhecerem na Portela. Martinho da Vila, outro futuro parceiro, não simpatizava com seu estilo.
— Sua rigidez tinha a ver com o aspecto moral, não de mostrar poder. Era pautado pela moralidade dele, mas não era um fora da lei — observa Vagner, acrescentando que não há notícia de que ele tenha matado alguém. — Não era um paramilitar, um miliciano.
Candeia morreu por complicações renais. Deixou cinco discos com o seu nome e quatro coletivos, além de um livro, “Escola de samba: árvore que perdeu a raiz”, escrito com Isnard Araújo. E deixou um legado abraçado por muita gente, como mostram as homenagens pelos 90 anos.
Este domingo, na Portelinha (Estrada do Portela 446, em Oswaldo Cruz), diversos grupos, inclusive de São Paulo, fazem uma roda de samba a partir das 13h. No próximo sábado, as Matriarcas do Samba (Selma Candeia, Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, e Vera de Jesus, neta de Clementina) cantarão músicas do compositor no Teatro Rival.
No carnaval de 2026, o sambista será enredo em São Paulo, na Lavapés, e no Rio, na Rosa de Ouro, da Série Bronze. Foi celebrado em shows feitos no sábado por dois grupos em São Paulo. E, na sexta, o cantor Leo Russo lançou sua versão de “Preciso me encontrar”, composição de Candeia gravada por Cartola e Marisa Monte.