E afinal, Marco Aurélio vai ou não dar a banana para o Brasil, repetindo o gesto icônico de Reginaldo Faria na primeira versão de “Vale tudo?” Essa é a pergunta que Alexandre Nero, intérprete do personagem no remake da novela, não aguenta mais ouvir, como contou em entrevista no videocast ‘Conversa vai, conversa vem’, o ar no Youtube do GLOBO. Em entrevista à jornalista Maria Fortuna, o ator, cantor e compositor de 55 anos anos relevou que nem ele tem essa resposta. Leia trecho do bate-papo:
Que pergunta não aguenta mais ouvir sobre Marco Aurélio?
Se ele vai fazer a banana. Espero que sim. É outra novela, né? A Manuela Dias (autora) está com novidades, o que talvez seja um dos motivos do sucesso. As pessoas querem ver o que vai acontecer. Será que Odete vai morrer mesmo? Até isso eu já estou duvidando. Então, esse negócio da banana fica até pequeno. Mas o gesto é extremamente atual. O tanto de gente pilantra, bando de canalha dando banana para o Brasil o tempo inteiro… A gente fica divagando: será que Leila é quem vai dar a banana e passar a perna no Marco Aurélio? Será que ele vai escorregar na casa de banana?
Como Marco Aurélio se sente sendo o único homem que fez Leila (Carolina Dieckmmann) Gozar?
Ele se sente como em tudo. Já é, por natureza, um rei. Um cara que sabe tudo. Ele não aprende, ele sabe. Não entende sobre física quântica, mas fala: “Peraí, você está enganada, sei o que estou falando”. É um cara que deu certo, o sucesso da sociedade. Ganha dinheiro, é bem sucedido, babam o ovo dele. Não consegue compreender o mundo que não seja a seus pés. Ele vai dar uma festa para a Sarita, então, ele vai ensinar como dar festa. Ele ensina o fotógrafo a fotografar. Ele não tem dúvidas. E está na moda isso, né? Os coaches nas redes sociais… eles sabem das coisas. Marco Aurélio não sabe dizer: “Não sei, vou pesquisar”. A questão da sexualidade também não muda.
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Ele nem se surpreende, já tinha certeza que era bom de cama….
Já sabia. E se acontecer de ela não gozar, a culpa é dela, que é frígida, nunca é dele. Fico pensando que um vilão brocha seria maravilhoso. Não deixa de ser interessante para uma dramaturgia, a complexidade do personagem… Mas aí enfraquece o vilão, que tem que ter essa estirpe, másculo.
Mas você regou o Marco Aurélio de um humor que fez o público amá-lo…
Esse humor não foi colocado por mim. Fui fazer o Marco Aurélio para ser odiado, não fazer nenhuma concessão. Não ia brincar, ia fazer um vilão mesmo. Tomei um susto quando a Manuela me disse: “Preparado para ser amado pelo Brasil?” Quando comecei a ler o texto, falei: “Ele não é tão terrível quanto pensei, tem humor aqui”. Aí, me colocam (Luis) Lobianco de um lado e Karine (Teles) e Belize (Pombal) de outro… Eu não estou fazendo humor. O texto, a trilha e meus comparsas que são bem humorados. Tem grande diferença da gracinha e da graça. Eu sou galhofento, adoro fazer galhofa. Vim dessa escola, do teatro de rua, do besteirol. Adoro. É difícil fazer o mínimo possível, um humor inglês. Estou tentando fazer esse não humor, sério, quase nenhum. E aquele contexto que beira a surrealidade. Brigar com uma pessoa por causa do monocromático, vai para um lugar tão absurdo que acaba sendo cômico.
Acho legal as pessoas se divertirem e torcerem pelos vilões. Eles que fazem a roda de uma dramaturgia girar. Sem eles, não tem história. Mocinhos e mocinhas são sempre chatos, não podem sair da linha. Tanto na original como essa ‘Vale tudo’ todo mundo permeia para o mal e para o bem. E hoje, as pessoas estão mais informadas em relação ao que é uma novela. Em 1988, a senhora do elevador ainda batia o guarda-chuva na cabeça do vilão da novela. Hoje em dia, não acontece mais isso. A leitura da Manuela Dias também é mais dócil, generosa, suave do que a de 1988.
Marco Aurélio culpa a Heleninha pelo alcoolismo e também pelo fato de o filho ter caído na bebedeira…
Como sempre, é o que ele sabe fazer. Não entende isso como doença, mas vagabundagem, falta de força de vontade. Também tem a coisa da responsabilidade, do mimo… A discussão é bacana porque é relação humana. Mais que ‘rouba ou não rouba dinheiro’ e a corrupção do Brasil, sempre gostei das relações humanas das famílias, a mãe problemática, esse pai agressivo e também cuidadoso, as famílias tortas, como qualquer uma. Isso me encanta mais do que o ‘desvia dinheiro’.
Marco Aurélio tem ironia, cinismo e mau humor charmoso. Identifico tudo isso em você, pessoa física. O que tem de Nero no MA?
Tudo. Todos os personagens que faço sou eu. Não compreendo outra forma de atuar. O processo de atuar é muito particular, cada um desenvolve uma técnica, um sistema de chegar em algum objetivo. A forma que me compreendo como ator é: sou milhões de pessoas, posso ser qualquer um. Da pessoa mais agressiva à mais dócil, do panaca ao canalha, tudo está dentro de mim. O que meu personagem e o texto me pedir, é para lá que vou me encaminhando. E aí você vai aflorando, aumentando e diminuindo características.