A ONG americana Global Thinkers Now (GTN) está sendo acusada de construir uma “mansão” para seus gestores em um terreno doado por moradores para a construção de uma escola. A denúncia está sendo feita pelos próprios integrantes da comunidade Santo Antônio, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro, no interior do estado do Amazonas, onde a casa foi erguida. A Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) informou que apura o caso.
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A organização possui caráter missionário. Ela foi fundada nos Estados Unidos em 2015 e atua no Brasil desde 2017, e os fundadores são o casal de adventistas formado pelo americano Robert Ritzenthaler e pela brasileira Beatriz Augusta Ritzenthaler. A RDS abriga povos tradicionais e, por lei, é uma área ambiental protegida.
Os moradores afirmam que autorizaram a construção das duas residências na comunidade, conforme informações divulgadas pelo UOL nesta segunda-feira. A segunda casa, no entanto, passou a servir como a moradia do casal responsável pela GTN, enquanto a promessa seria a implementação de uma escola.
Em junho deste ano, a Secretaria de Meio Ambiente do Amazonas (Sema) constatou que as residências “foram construídas sem licenciamento, com danos à vegetação nativa”. Devido às irregularidades, a organização foi multada em R$ 56,6 mil pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam).
Ao GLOBO, o Ipaam informou que também havia uma ordem de interdição e desocupação dos dois imóveis por conta da construção “sem autorização do órgão ambiental competente”, além do ordenamento da retirada de todos os pertences. A entidade recorreu, no entanto, e permanece no local.
Já a DPE-AM destacou, em nota enviada ao GLOBO, que os moradores também denunciam “a exploração irregular de turismo na área, sem consulta prévia à população e sem autorização dos órgãos competentes, além de possíveis danos ambientais provocados pela supressão de vegetação nativa”. Uma comitiva com membros da Defensoria esteve na comunidade.
“Foram desrespeitados direitos fundamentais como o território e a consulta prévia, livre e informada. As evidências sugerem que as construções e atividades desenvolvidas atendem a interesses particulares da organização, contrariando os interesses comunitários”, ressaltou a Defensora Pública Daniele Fernandes.
A DPE-AM afirmou, ainda, que “seguirá acompanhando o caso e adotando medidas necessárias para garantir os direitos das famílias de Santo Antônio, incluindo o respeito ao modo de vida tradicional e a preservação da RDS Rio Negro”. De acordo com a nota, as denúncias também indicam prejuízos à fauna e flora da reserva.
Presidente da Associação de Produtores Agrícolas da Comunidade do Santo Antônio, Mariete Miranda Pontes reconheceu que os moradores autorizaram a presença da entidade na comunidade, mas ressaltou a quebra do acordo: “eu sei que nós autorizamos a presença, mas eles não fizeram a escola. Fizeram foi uma mansão para o casal dono da ONG. Não posso deixar que um erro lá atrás prossiga, por isso procurei as autoridades”, explicou, em entrevista concedida ao UOL.
Segundo Mariete, a ONG parou de prestar serviços à comunidade após as construções, que foram cercadas. Ainda de acordo com a líder comunitária, a organização recebeu “80 americanos” na reserva sem comunicar os moradores. “Eles ainda usam fotos da gente na internet para pedir recursos”, disse.
Procurada pelo GLOBO, a Igreja Adventista afirmou não possuir vínculo com a ONG Global Thinkers Now, que se trata de uma “iniciativa independente”. De acordo com a denominação, as atividades da entidade “não são desenvolvidas nem geridas” com a autorização da administração da Igreja.
“No Acre, Amazonas, Rondônia e Roraima, os projetos e missões oficiais são organizados e geridos pelo Instituto de Missões Noroeste, com sede em Manaus/AM. Reafirmamos nosso compromisso com a missão de levar esperança e servir à comunidade, sempre em conformidade com as leis e com os princípios éticos que orientam nossa atuação”, diz outro trecho da nota.
Beatriz Ritzenthaler, uma das fundadoras da entidade, afirma que a casa construída não conta com salas de aula, mas ressalta que a comunidade sabia que o local também serviria como moradia. A construção foi autorizada pelos moradores em março de 2023 e o casal americano se mudou em definitivo para a reserva em agosto do mesmo ano.
Ela afirma que os desentendimentos passaram a ocorrer após o ex-presidente da Associação ser afastado de um cargo na ONG por suspeita de ingerência. A verdade é que, a partir dali, passamos a ser alvo de uma campanha difamatória dele e de familiares. Nós chegamos a prestar um boletim de ocorrência contra ele por isso. Ele representa uma parte da comunidade, mas uma outra parte nos apoia”, disse Beatriz ao UOL.