O leitor que conheceu o trabalho de Natalia Timerman com o sucesso de “Copo vazio” e “As pequenas chances” agora tem a oportunidade de entrar em contato com o primeiro texto literário da escritora, “Desterros”. A obra é resultado de um projeto de mestrado em psicologia que Natalia defendeu na USP, entre 2012 e 2014, enquanto trabalhava como psiquiatra na enfermaria do Centro Hospitalar do Sistema Penitenciário de São Paulo (CHSP). “Eu queria escrever havia anos” e “o maior elogio que a banca poderia ter feito foi (…) atestar que se tratava de uma escrita literária”, revela a autora no prefácio a esta nova edição, que traz também uma apresentação inédita de Juliana Borges.
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O livro não tem qualquer sombra do vocabulário técnico, e sua força está no olhar afetuoso dirigido às dezenas de personagens reais que povoam as páginas. Como acontece nos outros trabalhos da autora, não conseguimos parar de ler. Algumas histórias, no entanto, são tão boas e instigantes que ficamos com vontade de que ocupassem mais espaço. Uma delas, por exemplo, é a de José. Condenado a mais de cem anos de prisão, é um sujeito um tanto frio e durão, líder no seu setor:
“Um dia ele me disse, os olhos quase transbordando, que sua irmã iria visitá-lo.”
“Há quanto tempo você não a vê, José?”, pergunta Natalia.
“Trinta anos”. O desenrolar dessa cena, e de muitas outras, fica por conta da imaginação do leitor.
Costurando o livro de uma ponta a outra, está a figura impressionante de Donamingo, daquelas personagens que nenhuma ficção poderia inventar e apenas uma escritora talentosa como Natalia Timerman daria conta de capturar. Imigrante angolana desterrada, detida por tráfico internacional de drogas, enquanto carregava uma mala cheia de sapatos, sonhando com a liberdade financeira, ela se descobre de repente grávida, completamente sozinha, em outro país, acusada de crime hediondo. Tem um parto prematuro de pouco mais de quatro meses, enquanto perde contato com seu companheiro e sua filha.
As cenas nas quais Donamingo reencontra o pequeno bebê prematuro, depois de três meses e três semanas numa incubadora num hospital civil, mostram a pulsão de vida prevalecendo a despeito de quaisquer prognósticos mais pessimistas: “com tal atonia muscular e falta de vigor, era como se nem tivesse se constituído. Tinha que mamar em pé porque aspirava o leite: seu corpo amolecido era incapaz de cumprir mínimas ações básicas além de respirar”. Seu déficit cognitivo-motor era grave.
O contato com a pele da mãe, no entanto, muda tudo. “Ela falava e cantava para ele na língua da sua avó, bisavó dele. (…) Pouco a pouco, os músculos de Zaki ganhavam tônus (…) ambos ganhavam peso, olhar a olhar”. A relação de Natalia e Donamingo, como leitor poderá descobrir, extrapola as páginas.
Um hospital-prisão é uma entidade que estaria nesse entrelugar ambíguo, de tensão, entre o cuidar e o punir, construindo alguns episódios absurdos.
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O transporte de um preso sedado, por exemplo. Incapaz de dizer o próprio nome, algemado no leito de uma ambulância, acompanhado de escolta com sirene ligada, avança pela contramão, atravessando cruzamentos com sinal vermelho: o motivo de todo esse aparato urgente era apenas um paciente que precisava fazer uma tomografia de rotina. E continuava ali deitado, “algemado à maca, no escuro, com medo”. Como diz Foucault, “que tudo possa servir para punir a mínima coisa.”
Com cenas como essa, “Desterros” se mostra um testemunho potente, que confronta o punitivismo do senso comum — essa crença ingênua de que o sofrimento educa e de que impor condições de vida cada vez mais degradantes poderia operar algum tipo de milagre comportamental, quando na verdade só produz mais ódio e barbárie. Perigosa e inútil, a prisão segue, como disse o pensador francês, a detestável solução da qual ainda não abrimos mão.
Marcos Vinícius Almeida é mestre em Literatura e Crítica Literária, autor de “Pesadelo tropical” (Aboio, 2023)
Autora: Natalia Timerman. Editora: Todavia. Páginas: 176. Preço: R$ 69,90.