Investidores e analistas do mercado financeiro aguardam ansiosamente a realização de um evento anual que reúne nos Estados Unidos os presidentes dos bancos centrais de países de todo o mundo: a conferência de Jackson Hole, no estado do Wyoming.
A reunião começa amanhã e dura até sábado, mas o momento mais esperado acontece na sexta-feira: o discurso do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), Jerome Powell.
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Emissor da moeda de referência do planeta, não é de espantar que o discurso da autoridade monetária americana seja o mais esperado num evento como este, onde os analistas ficam de orelha em pé para captar qualquer tendência nas declarações de banqueiros centrais.
Mas neste ano, o discurso de sexta-feira de Powell é ainda mais esperado. Sob pressão constrante do presidente dos EUA, Donald Trump, para baixar os juros, o presidente do Fed pode dar sinais mais concretos sobre uma expectativa crescente nos mercados: a de que o Fed está perto de iniciar um ciclo de queda dos juros básicos da maior economia do mundo.
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O discurso anual do presidente do Fed em Jackson Hole pode ser uma oportunidade para sinalizar mudanças de política monetária. Powell utilizou o evento para esse propósito no ano passado, e realizou um corte significativo logo depois.
Assegurado no cargo pela autonomia do Fed, Powell deve adotar um tom “prudente” sobre o estado de saúde da economia norte-americana, já que, desde sua última intervenção, os dados se deterioraram, apontam analistas de mercado.
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Embora quase todos os analistas concordem que o Fed deveria cortar suas taxas, a questão é determinar quando. O mercado aposta em um corte de juros após a próxima reunião do Fed, marcada para os dias 16 e 17 de setembro, segundo dados da ferramenta FedWatch, da CME.
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Os investidores também estarão atentos para a publicação hoje da ata da última reunião de política monetária do Fed, realizada em julho, bem como aos discursos de vários dirigentes da instituição previstos ao longo da semana.
Powell tem a plataforma ideal na sexta-feira para dar um sinal claro de que o Federal Reserve está prestes a retomar os cortes de juros. Mas a economia não lhe oferece um sinal igualmente claro de que agora é a hora.
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Ele está sob intensa pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para começar a reduzir os juros, que estão no maior patamar em quase duas décadas para combater uma inflação persistente desde a pandemia.O problema é que nem todos os principais indicadores econômicos apontam nessa direção.
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Há algumas semanas, quando o último relatório de empregos revelou uma queda nas contratações, a justificativa para juros mais baixos parecia praticamente incontestável. Então, veio a maior alta nos preços no atacado dos EUA em três anos — o que alimentou a preocupação com a inflação impulsionada por tarifas, que tem mantido as autoridades do Fed em espera até agora neste ano.
Tudo isso aumenta o escrutínio já intenso sobre Jackson Hole. No mês passado, Powell descreveu o mercado de trabalho como sólido e a política monetária como bem posicionada.
Os investidores estarão atentos a qualquer mudança, mesmo que mínima, em qualquer uma das frentes — o que poderia abrir caminho para um corte dos juros na próxima reunião do Fed, em setembro. Mas, com mais dados econômicos previstos para antes disso, o chefe do Fed pode preferir manter a mensagem cuidadosamente calibrada.
— Embora eu espere que ele, de modo geral, aponte para taxas de juros mais baixas na próxima reunião, espero que ele condicione isso a uma mensagem muito dependente de dados — disse Jonathan Pingle, economista-chefe para EUA da UBS Securities. — Não acho que ele vá cravar isso.
Os mercados de títulos foram tentados a pensar que isso já estava garantido. Os rendimentos dos títulos do Tesouro Americano (treasuries) com vencimento em dois anos, os mais sensíveis à política do Fed, caíram este mês, à medida que operadores passaram a precificar um corte de 0,25 ponto percentual em setembro.
Estas apostas dispararam após o relatório de emprego inesperadamente ruim de julho, que também revisou para baixo os payrolls (estatística de emprego) dos meses anteriores. E as apostas só foram ligeiramente reduzidas em vista da surpresa desagradável da inflação na semana passada.
Os investidores em títulos de dívida aguardam para ver se Powell confirma esta precificação de mercado — ou se reage com um lembrete de que novos dados, a serem divulgados antes da próxima reunião de política monetária, podem mudar o cenário. Eles também buscam pistas sobre a trajetória de longo prazo dos cortes de juros pelo Fed até o próximo ano.
— Parte do debate estratégico é se é melhor começar cedo e ir devagar, ou começar mais tarde e ser mais agressivo — disse Ed Al-Hussainy, estrategista de juros da Columbia Threadneedle Investment.
Embora seja aí que o foco do mercado estará, em termos de tempo de fala, o caminho a seguir para as taxas de juros pode ocupar apenas uma pequena parte do discurso de Powell em Jackson Hole.
Será o último discurso que Powell fará no simpósio anual antes do término do mandato como presidente do Fed em maio de 2026 – e o pano de fundo é um dos períodos mais turbulentos da história recente do Fed. Trump criticou duramente a liderança de Powell e flertou com a ideia de demiti-lo, no que parece a muitos analistas do Fed um ataque ameaçador à independência do banco central.
Além de criticar a relutância do Fed em cortar os juros este ano, Trump e aliados destacaram a incapacidade do banco central de conter o aumento da inflação que se seguiu à pandemia. Isso está relacionado a outra questão que Powell abordará em Jackson Hole: a revisão em andamento da estrutura do banco central para a definição da política monetária, que deverá se basear nas lições aprendidas durante a era da Covid.
No geral, o discurso pode ter um tom de despedida.
— Há uma razão para que ex-presidentes tenham usado os últimos discursos em Jackson Hole para refletir sobre os mandatos — disse Pingle. — É a oportunidade de eles de escreverem sua história.