Uma carta manuscrita, supostamente escrita pelo auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, é tratada pelos investigadores do Ministério Público como uma espécie de confissão sobre um esquema de propinas que teria movimentado mais de R$ 1 bilhão. O material, encontrado na casa de Artur, deu força para a decisão da Justiça que decretou sua prisão preventiva, na noite desta terça-feira e figura como uma das principais evidências contra ele.
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Segundo apurou o GLOBO, para o Ministério Público, a carta reforçou a materialidade do crime, que já estava bem comprovada pela troca de e-mails do auditor com grandes varejistas envolvidas no esquema. Os promotores avaliaram que o material é “uma prova a mais” para somar entre as centenas de documentos que embasaram o pedido de prisão preventiva.
Datado de 3 de março, o documento tem três páginas escritas à mão, em caneta vermelha. No texto, o auditor manifesta insegurança sobre assinar documentos relacionados a “novas liberações de imposto” e pede orientação espiritual:
“Da outra vez eu perguntei para os guias do seu pai. Eles disseram que eu podia assinar, podia trabalhar com esse empresário. E deu esse problema imenso. Não posso mais fazer outro trabalho aqui e depois correr risco e ter que fazer trabalho espiritual de novo”, escreveu.
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O documento foi encontrado durante a Operação Ícaro, que também resultou na prisão do auditor e de executivos como Sidney Oliveira, dono da Ultrafarma, e Mário Otávio Gomes, diretor estatutário da Fast Shop. As empresas são suspeitas de pagar propinas para agilizar pedidos milionários de ressarcimento de créditos de ICMS-ST.
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O auditor fiscal emergiu como figura central da estrutura criminosa que envolvia corrupção passiva, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. A partir do crescimento “absurdo” do patrimônio da professora de 73 anos, o MP identificou um mecanismo estruturado para favorecer empresas do setor varejista em troca de vantagens tributárias indevidas.
Em 2021, a declaração de Imposto de Renda de Kimio registrava R$ 411 mil. No ano seguinte, o valor subiu para R$ 46 milhões. Em 2023, chegou a R$ 2 bilhões. No documento encontrado pelo MP, o auditor revela receio e busca algum tipo de garantia de que suas ações não serão descobertas. “Preciso ter certeza de que ninguém vai ver esses novos documentos que eu vou assinar”, registrou.
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Para os promotores, o documento não apenas confirma a participação do auditor no esquema, mas também revela a intenção de manter sigilo para viabilizar a continuidade das operações ilegais. Na decisão, o juiz concordou com a argumentação do MP, afirmando que a carta “demonstra e confirma o esquema criminoso operado por Artur”.
A decisão judicial obtida pelo GLOBO ainda ressalta a necessidade da prisão preventiva para “assegurar a aplicação da lei penal, à vista da periculosidade do agente, a partir da inequívoca gravidade dos crimes a ele imputados”. O esquema é descrito como “sofisticado e ousado”, envolvendo “grandes empresas e agentes públicos”.
Além da carta, foram apreendidos documentos, celulares e computadores, que estão sendo periciados. A decisão sobre a prisão preventiva caberá ao juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 1.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de São Paulo, responsável por autorizar a Operação Ícaro.
As investigações começaram após a constatação de uma evolução patrimonial inusitada da mãe de Silva Neto. Na sequência, uma análise de dados revelou que nos últimos anos o auditor realizou inúmeras viagens para países considerados paraísos fiscais, como Suíça, Emirados Árabes Unidos e Uruguai, o que reforçou as suspeitas de ocultação de ativos ilícitos.
Segundo documentos do MP, a mãe do auditor, identificada como Kimio Mizukami da Silva, era sócia de uma empresa chamada Smart Tax, que teria sido usada para a lavagem do dinheiro recebido das empresas.
Em 2021, o patrimônio declarado pela empresa de “prestação de serviços especializados em consultoria, assessoria e auditoria tributária” foi de R$ 411 mil. Em 2023, o patrimônio subiu para R$ 2 bilhões.
“Os dados fiscais enviados pela Receita Federal, com a quebra de sigilo da mãe, permitiram constatar evolução patrimonial absurda, em decorrência de rendimentos advindos da empresa Smart Tax”, diz o MP nos autos.