Muitos iranianos não irão para universidades americanas em setembro, quando começa o ano letivo no Hemisfério Norte. Estudantes do Afeganistão também estão enfrentando dificuldades para chegar aos campi. Até mesmo alunos da China e da Índia, os dois maiores emissores de estudantes internacionais para os Estados Unidos, ficaram perplexos diante do labirinto de novos obstáculos criados pelo governo do presidente Donald Trump para desencorajar a entrada de estrangeiros no país.
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Entre a intensificação da checagem dos vistos estudantis pelo governo federal e a proibição de viagens decretada por Trump a diversos países, o número de novos estudantes internacionais matriculados em universidades americanas deve cair — e muito.
Havia cerca de 1 milhão de estudantes estrangeiros estudando nos Estados Unidos um ano atrás, segundo dados do Departamento de Estado. Os números atualizados não devem ser divulgados até o outono (primavera no Brasil), mas o setor de ensino superior já sente os impactos e está profundamente preocupado com as consequências.
Muitas instituições viram o número de estudantes internacionais crescer nos últimos anos. Mas uma pesquisa com mais de 500 faculdades e universidades feita pelo Institute of International Education, organização sem fins lucrativos que trabalha com governos e outros parceiros para promover a educação internacional, revelou que 35% das instituições registraram queda nas inscrições do exterior na última primavera (outono no Brasil) — o índice mais alto desde a pandemia.
Na China e na Índia, houve poucos agendamentos de entrevistas para vistos nos últimos meses, e em alguns casos nenhum, de acordo com a NAFSA, a Associação de Educadores Internacionais. Se os problemas persistirem, a matrícula de novos estudantes estrangeiros nas universidades americanas pode cair de 30% a 40% neste ano letivo, o que significaria a perda de 150 mil alunos, segundo análise da entidade.
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Alguns desistiram completamente de estudar nos EUA, receosos com o clima político no país. Outros preferem ficar longe por medo de que, mesmo conseguindo entrar, fiquem presos sem poder fazer coisas comuns a outros estudantes, como se candidatar a estágios ou viajar para casa nas férias.
Estudantes internacionais representam uma fatia importante das matrículas em universidades de elite, como a Columbia, mas também em instituições públicas como a Purdue. Na Arizona State University, uma das dez com maior número de estrangeiros, o total de alunos que começam neste outono, 14.600, caiu em cerca de 500 em relação ao ano passado, em grande parte por atrasos nos vistos, disse um porta-voz.
Muitos estudantes estrangeiros pagam a mensalidade integral e são uma fonte de receita da qual as universidades passaram a depender, inclusive para ajudar a financiar bolsas de outros alunos. Faz parte do modelo de negócios.
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Wendy Wolford, vice-reitora de assuntos internacionais da Universidade Cornell, disse que a maior perda com a queda nas matrículas é a de talento.
— Eles são literalmente alguns dos melhores do mundo — afirmou.
Wolford acrescentou que também se preocupa com a oportunidade perdida de estudantes americanos conviverem com colegas de diferentes culturas e com o fato de que, ao voltarem para seus países, esses alunos levam uma imagem positiva dos Estados Unidos.
O governo Trump passou a mirar os estudantes internacionais desde que retornou à Casa Branca, adotando uma série de medidas contra os que já estavam no país e intensificando a checagem dos que queriam ingressar.
Em um de seus primeiros atos, ameaçou deportar mais de 1.800 estrangeiros que estudavam nos EUA, muitas vezes por razões obscuras.
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O secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que estudantes estrangeiros que participaram de protestos contra a guerra na Faixa de Gaza, em especial, não eram bem-vindos.
— Nós demos a vocês um visto para vir estudar e conseguir um diploma, não para se tornarem ativistas sociais que destroem nossos campi universitários — disse.
Diversos grupos recorreram à Justiça contra o que chamaram de política de deportação ideológica. Veena Dubal, conselheira-geral da Associação Americana de Professores Universitários, disse que o governo está violando direitos constitucionais de cidadãos e não cidadãos ao deportar pessoas por opiniões protegidas pela Primeira Emenda.
Jameel Jaffer, diretor do Knight First Amendment Institute em Columbia, afirmou que a repressão é antidemocrática.
— Essa prática é algo que normalmente associaríamos aos regimes políticos mais repressivos — disse.
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Após a reação negativa, muitos dos estudantes ameaçados de deportação foram reintegrados. Mas, no geral, o Departamento de Estado informou que neste ano revogou mais de 6.000 vistos estudantis, alegando vínculos com terrorismo, permanência ilegal ou violações da lei.
Além disso, o Departamento de Estado suspendeu a emissão de novos vistos estudantis entre 27 de maio e 18 de junho, período que normalmente é o de maior procura.
Quando os vistos voltaram a ser concedidos, no fim de junho, veio a exigência de que os consulados verificassem as redes sociais dos candidatos com mais rigor. Isso tornou o processo mais lento, e muitos que ainda aguardam entrevistas correm o risco de perder o início do semestre ou até adiar a matrícula por um período inteiro.
— De fato parece haver uma análise mais rígida dos pedidos de visto estudantil — disse Dubal. — As redes sociais estão sendo examinadas em busca de manifestações pró-Palestina ou críticas às posições de política externa de Trump.
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Em maio, Trump assinou uma proclamação proibindo estudantes estrangeiros de frequentarem Harvard por questões de segurança, mas uma decisão judicial bloqueou a medida.
Em junho, o presidente assinou outra proclamação restringindo total ou parcialmente a entrada de pessoas de 19 países — entre eles Afeganistão, Haiti, Irã, Iêmen, Cuba, Laos e Venezuela — e aumentando a checagem para viajantes de outros lugares, para garantir que “não tenham a intenção de prejudicar os americanos ou nossos interesses nacionais”.
Embora a medida não mirasse especificamente estudantes, muitos foram atingidos pelas restrições.
— Por causa do banimento de viagens, simplesmente não é possível conseguir vistos estudantis em certos países — disse Dan Berger, advogado de imigração em Massachusetts. — Muitas mulheres afegãs haviam recebido bolsas integrais nos EUA e não conseguem vistos.
Questionado sobre os atrasos, um porta-voz do Departamento de Estado disse que o processo de checagem ficou “mais eficaz e mais eficiente”.
— Mas em todos os casos, levaremos o tempo necessário para garantir que o candidato seja elegível para o visto e não represente risco à segurança dos Estados Unidos — afirmou.
Noushin, uma estudante iraniana admitida no doutorado em engenharia química da Universidade da Carolina do Sul, foi afetada pelo banimento. Ela fez a entrevista de visto em setembro de 2024 e deveria começar em 2025, mas até hoje não recebeu resposta. Agora ajuda a organizar uma campanha para pressionar pelo fim dos atrasos e afirma que um grupo no Telegram mostra que há centenas de iranianos na mesma situação.
Noushin, que pediu para não ter o sobrenome divulgado por medo de prejudicar suas chances, disse que escolheu os EUA por acreditar que oferecem a melhor educação superior do mundo. Agora sente que está sendo punida por suposições sobre suas convicções políticas, embora defenda que, como acadêmica, está separada da política.
Michael Crow, presidente da Arizona State University, disse que se reuniu com um diplomata americano na Índia para discutir o problema e ouviu que o Departamento de Estado estava fazendo o melhor possível.
A incerteza em torno dos vistos americanos tem levado alunos a buscar alternativas. Wolford disse que já há estudantes europeus optando por universidades na Europa e asiáticos escolhendo instituições em seus próprios países.
— Nossos estudantes internacionais sempre tiveram segurança em relação às regras do jogo, mas no ano passado as regras mudaram de forma dramática — disse ela.
Não é apenas pela restrição a estudantes estrangeiros que as políticas de Trump contra as universidades americanas estão impactando o seu orçamento.
Em maio, membros do gabinete de Trump o apresentaram um possível acordo com a Universidade Columbia. Mas, em vez de dar seu aval, ele impôs uma nova exigência: a instituição deveria pagar US$ 200 milhões. A exigência repentina — relatada por seis pessoas familiarizadas com o episódio ouvidas pelo New York Times e que não havia sido divulgada antes — surpreendeu a liderança da universidade. Ainda assim, na tentativa de preservar os US$ 1,3 bilhão em financiamentos federais anuais, Columbia acabou aceitando o valor.
Desde o início do segundo mandato de Trump, sua administração mirou universidades de elite com alguns objetivos definidos: combater o antissemitismo, restaurar uma definição mais tradicional de gênero nas atividades e programas esportivos dos campi e eliminar o que considera viés liberal nas instituições de ensino. Críticos compararam os métodos de Trump à extorsão. A Casa Branca afirmou que a intenção de exigir dinheiro das universidades é fortalecer escolas técnicas, programas de aprendizagem e outros treinamentos “voltados para o mundo real”.
Agora, um pagamento robusto parece ser condição básica para qualquer acordo, inclusive com a Universidade Harvard, que o governo vê como seu maior troféu e que tem bilhões em subsídios federais em risco. O acordo em negociação com Harvard prevê que a instituição desembolse US$ 500 milhões, em razão da exigência de Trump de que a universidade pague mais que o dobro do valor aceito por Columbia.
Não está totalmente claro como Trump define os valores das penalidades financeiras, mas ele sugeriu que desafiar sua administração, como fez Harvard, eleva o preço. Em maio, observou que Columbia havia se retirado da “linha de fogo” ao negociar com o governo sem recorrer a meios jurídicos. Harvard, por sua vez, processou a administração, o que levou a semanas de atritos antes de as conversas serem retomadas.
— Cada vez que eles brigam, perdem mais US$ 250 milhões — disse Trump sobre Harvard na ocasião. — Harvard precisa entender, a última coisa que quero é prejudicá-los. Eles estão se prejudicando. Estão lutando.