Por mais perturbador que seja o assassinato de Sther Barroso dos Santos, de 22 anos, espancada até a morte por um traficante depois de se recusar a deixar um baile funk com ele, não é a primeira vez que um crime com essa “motivação” acontece. Pesquisando no Acervo O GLOBO, é possível encontrar casos semelhantes de mulheres vítimas de violência depois de recusar investidas de homens.
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No dia 13 de abril de 1988, por exemplo, a feirante Ana Lúcia Pereira, de 30 anos, estava no ônibus a caminho do trabalho quando foi assassinada após repelir um bandido assediador. Na época, não existia debate sobre crimes de gênero no Brasil. A Lei do Feminicídio foi sancionada em 2015, mas, hoje, não há dúvida de que a morte da feirante se enquadraria nessa tipificação penal.
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Ana Lúcia, recém-divorciada, era mãe de uma menina. Naquela quarta-feira, a mulher e as duas amigas com quem ela morava e trabalhava haviam subido num ônibus da linha 907 (Pavuna-Bonsucesso) em Acari, na Zona Norte do Rio, por volta das 5h30 da manhã, com destino uma feira no bairro de Olaria, onde elas tinham uma barraca de roupas.
Como o coletivo estava cheio, as três se sentaram nos bancos do espaço que os ônibus da época tinham para que passageiros aguardassem antes de passar a roleta. Uma hora depois, já no bairro da Penha, elas se levantaram para pagar a passagem e andar até a saída, que ficava na parte da frente. Foi quando um desconhecido chegou perto de Ana Lúcia e se ofereceu para pagar a viagem dela.
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A feirante recusou e passou a roleta, pagando com seu próprio dinheiro, mas o cidadão colou o corpo no dela e ficou falando ao seu ouvido. Diante da insistência, segundo testemunhas, a mulher disse, em tom ríspido: “Qual é sua, hein?”. Então, indignado com aquela rejeição “pública”, no corredor do ônibus lotado, o sujeito respondeu em tom agressivo: “Mulher também leva tiro na cara”.
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Quando Ana Lúcia rebateu a ameaça afirmando que não tinha medo de morrer, o indivíduo sacou uma pistola calibe 6.35 diante de todos os outros passageiros, segurou a vítima pelo ombro e disparou um tiro na cabeça dela. Logo em seguida, mandou o motorista parar e fugiu correndo, sem ninguém atrás dele. O corpo da feirante ficou no meio do corredor do ônibus até a polícia chegar.
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