Não existe uma “bala de prata” para obter US$ 300 milhões por ano para o financiamento climático até 2035, compromisso firmado na COP 29, realizada ano passado em Baku, capital do Azerbaijão. Mas diversas iniciativas começam a tomar forma, envolvendo o poder público, o setor privado e a sociedade civil, seja na criação de fundos de investimento e na regulação e precificação do mercado de carbono, que sinalizam os caminhos para obter os recursos. Para que esse tipo de captação ganhe escala, a pauta climática deve ser encarada como agenda de desenvolvimento, com geração de emprego e renda e melhoria da vida das pessoas, avaliam especialistas.
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O assunto foi tema do painel “Como alcançar a marca de US$ 300 bilhões de financiamento climático por ano até 2035”, no seminário “Financiamento climático: quem paga a conta e quem recebe os recursos”, realizado pelos jornais O GLOBO e Valor, e da rádio CBN, nesta quinta-feira, em São Paulo.
O painel contou com a participação de Rafael Ramalho Dubeux, secretário-executivo adjunto do Ministério da Fazenda; Ivy Figueroa, senior investment officer da IFC; e Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). Foi o terceiro encontro para debater o tema COP 30.
Para Dubeux, não existe uma solução única na busca de recursos para preservação e recuperação de florestas degradadas, descarbonização, desenvolvimento de novos combustíveis. Por isso, o governo vem tratando esse tema, não só como uma questão ambiental, mas como uma pauta de desenvolvimento econômico, com possibilidades de geração de empregos e renda.
—A agenda climática é um vetor para gerar renda em cidades brasileiras ao mesmo tempo em que se fortalecem políticas públicas que valorizem a proteção do meio ambiente — disse.
Ele citou duas iniciativas importantes implementadas no Brasil e que fazem parte do Plano de Transformação Ecológica do governo, com potencial para atrair a comunidade internacional para a agenda de financiamento climático. A primeira são os fundos conhecidos como Tropical Forest Forever Facility (TFFF), que em vez de buscarem recursos em doações estimulam a captação via investimentos. A segunda iniciativa é o processo de implementação do mercado doméstico de carbono, com teto para emissões e precificação desse ativo.
Para Maria Netto, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (ICS), a agenda climática não deve ser tratada como custo. Ela observa que quando se fala numa cifra de US$ 1,3 trilhão, o valor parece grande, mas quando se pensa que os recursos virão fontes de financiamento globalmente, o número não é tão grande assim.
— O clima tem que ser visto como desenvolvimento. E a COP 30 deve ser o evento de implementação de projetos desenvolvidos ao longo dos últimos anos — defendeu Netto,
Para ela, o importante é que sejam criados mecanismos e instrumentos financeiros que escalem os investimentos, reduzindo a dependência dos recursos governamentais. Ela afirma que é importante dar sinais ao mercado sobre preços, como na regulação do mercado de carbono. Netto avalia que certos países deveriam ter mais responsabilidades nesse caminho, mostrando liderança e oferecendo mais recursos. Ela lembrou que algumas nações mais pobres sofrem impacto das mudanças climáticas, o que impede seu desenvolvimento.
Para Ivy Figueroa, senior investment officer da International Finance Corporation (IFC), um braço do Banco Mundial focado no setor privado de mercado emergentes, que visa promover o crescimento econômico e melhorar as condições de vida das pessoas, o desafio também é buscar escala na captação de recursos. O IFC vem participando de iniciativas de sucesso, como o caso de um banco colombiano que emitiu títulos que financiam a agricultura sustentável e ajudam a preservar a biodiversidade naquele país.
— Mas a escala das ações ainda é restrita e o setor privado deveria se engajar mais a partir da COP 30 — disse Ivy, lembrando que a IFC, além de mobilizar parceiros internacionais do setor privado, traz padrões e indicadores mensuráveis desses investimentos.
No ano fiscal de 2024, encerrado em junho passado, ela revelou que foram aplicados US$ 9 bilhões pelo IFC em projetos, mas a instituição conseguiu mobilizar o dobro desse valor para investimentos, não apenas poara iniciativas do clima.
A presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi, defendeu que o setor privado deixe sua marca na COP30, tornando-se protagonista, com iniciativas cujos impactos possam ser mensuradas e as pessoas possam entender o que isso tem a ver com a vida delas. Ela também afirmou que é preciso “escalar os investimentos em projetos sustentáveis”.
— O Brasil tem riquezas importantes, como florestas, bioeconomia. São várias soluções, mas o dinheiro não é canalizado para cá. E as pessoas têm que estar no centro dessa nova economia, que precisa trazer prosperidade a elas, com geração de emprego — afirmou.
Cenário internacional desafiador
Grossi lembrou que o cenário internacional ‘não está fácil’ e que o maior emissor de carbono , os Estados Unidos, saíram do acordo de Paris. Mas minimizou esse movimento, dizendo que na política não existe espaço vazio, e que outros países como a China, podem ocupar essa lacuna.
Grossi avaliou que a questão climática já deixou de ser uma agenda ambiental e passou a ser um diferencial econômico.
— Quando se fala de clima, é preciso entender que isso é competitividade. Hoje, 56% dos empresários dizem que atuam nessa agenda pela competitividade — destacou ela, citando uma pesquisa realizada pelo CEBDS no Brasil com mais de 300 líderres empresariais.
O projeto “COP 30 Amazônia” é uma realização dos jornais O GLOBO e Valor Econômico e da rádio CBN com o patrocínio master de Eletrobras, patrocínio de JBS, Vale e Phillip Morris Brasil, apoio do Governo do Acre, BNDES, Governo do Pará, Suzano e Vivo e parceria institucional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).