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Novo bordão nas redes, ‘capital cultural’ ensina a ostentar referências, mas distorce teoria criada por sociólogo francês

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agosto 23, 2025
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Pierre Bourdieu — Foto: DIVULGAÇÃO/ANNE SELDERS SEVIL

Quem diria, um conceito sociológico dos anos 1970 virou bordão na internet. Criado pelo pensador francês Pierre Bourdieu (1930-2002), o “capital cultural” entrou no vocabulário de influencers, produtores de conteúdo e até marcas de moda que querem dar uma roupagem mais sofisticada às suas postagens. Seu novo uso, porém, está muito longe do sentido original.

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Nos feeds das redes sociais, a expressão circula como uma espécie de recomendação vocacional e um ideal de lifestyle. Também é frequentemente apresentada como um contraponto à futilidade que domina as plataformas digitais. As postagens sobre capital cultural repetem que, se você acumular referências, frequentar exposições e ler livros com “conteúdo”, vai agregar prestígio e valor simbólico à sua persona.

Enquanto perfis de marketing anunciam que “ser inteligente é o novo hype”, empresas de luxo multiplicam ações culturais para filtrar o seu público. Um exemplo de que a intelectualidade está bombando, segundo influencers de moda, é o Miu Miu Literary Club, clube de leitura criado este ano pela marca italiana de acessórios femininos.

Pierre Bourdieu — Foto: DIVULGAÇÃO/ANNE SELDERS SEVIL

— Há um aspecto muito batido nessa apropriação do conceito de Bourdieu, que é a crítica à superficialidade das redes sociais — diz João Felipe Sauerbronn, professor da FGV Comunicação e especialista em transformação digital de mercados e cultura e consumo. — É uma forma de se distinguir por um conteúdo supostamente consistente. Muitos consumidores desses conteúdos podem até acreditar que estão acumulando algum tipo de repertório cultural, mas isso não tem nada a ver com capital cultural e mobilidade social, como Bourdieu entendia.

Capital cultural é uma teoria bem conhecida nas universidades. Bourdieu queria mostrar como determinados gostos, hábitos e conhecimentos são instrumentos de distinção e de reprodução das desigualdades. Nessa visão, cultura não é algo que se adquire de forma neutra, mas um recurso que legitima posições de poder em sociedades hierarquizadas. É condicionada por posição social e herança familiar, entre outros mecanismos.

Em sua encarnação como buzzword (palavra da vez), porém, o conceito vem sendo esvaziado, apontam especialistas. Doutora em Sociologia pela Unicamp, integrante do Grupo de Estudos em Bourdieu e pesquisadora na área de moda e luxo, Bárbara Venturini Ábil diz que o capital cultural virou uma tendência de consumo como o marrom em 2025, os sapatos metalizados em 2016 ou a cintura baixa nos anos 2000.

— Não à toa encontramos uma profusão de vídeos ensinando como “ter um repertório maior” de maneira rápida ou usar a “envergadura intelectual” como forma de se destacar no mercado e vender seus serviços. Só que, assim como todas as tendências, provavelmente, o capital cultural logo se tornará démodé. O que virá em seguida? — indaga.

O certo, segundo Ábile, é que o capital cultural ainda pode descrever os mecanismos de poder e distinção na sociedade atual. Em um vídeo publicado em julho, a tiktoker e anfitriã do podcast “Pod dar Trela”, Talita Laurino (@taliverso), afirmou que marcas de luxo estavam cansadas de influencers que divulgam jogos do tigrinho. “Sabe aquela pessoa rica que admira obras de arte, que entende de ópera? Essa pessoa que é a elite, que a Gucci, a Miu Miu e marcas de luxo querem de fato ter como consumidoras e não a Virgínia (Fonseca, influenciadora)”.

Também do Grupo de Estudos em Bourdieu, a socióloga Juliana Miraldi lembra que grupos de pesquisa pelo mundo continuam explorando a pertinência e as transformações do capital cultural. No Brasil um Projeto Temático apoiado pela Fapesp — Distinção e Práticas Culturais em São Paulo — investiga como o conceito se manifesta no contexto contemporâneo.

— O capital cultural tende a emergir com maior protagonismo em períodos de maior instabilidade nos mecanismos que asseguram a reprodução das posições sociais — observa Miraldi. — Sobretudo quando novos grupos adquirem elevado capital econômico em função de mudanças tecnológicas e do crescimento de setores produtivos.

Criador do projeto Mimetikos, voltado para divulgação de filosofia nas redes sociais, Mateus Lima dos Santos percebeu que a maioria dos vídeos sobre capital cultural na internet caía em um lugar comum: o da performance.

— Não era sobre a aquisição de um repertório para interpretar o mundo de forma crítica, era sobre criar uma persona pras redes — diz o doutorando em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos, que gravou um vídeo satirizando a tendência em seu perfil @mime.tikos. — Dizem que você precisa tirar fotos com livros clássicos, fotos em museus, vestir um determinado tipo de roupa, porque as marcas “querem isso agora”. Mas e a leitura, o estudo e o texto? Onde ficam?

A produtora de conteúdo Lauany Schultz é outra que gravou um vídeo lamentando o esvaziamento político do capital cultural. Para ela, há uma reação ao saturamento do público com vídeos curtos e futilidades.

— Há um cansaço com trends, modas passageiras e microtendências — diz a influencer. — Tudo precisa ser nomeado: comportamentos, gostos, maquiagem, decoração. O prestígio do intelecto e o incentivo aos estudos surgem como demarcador social e econômico.

Fundadora da Klavis, escola on-line para mulheres com disciplinas como História, Filosofia e Arte, Larissa Kobilic enxerga o fenômeno de forma positiva.

— Dicas e atalhos para adquirir capital cultural funcionam como uma isca, um ponto de partida para quem teve pouca ou nenhuma referência ao longo da vida — diz ela. — É saudável, desde que esteja claro que um vídeo de 90 segundos não transforma ninguém em mais inteligente. O que mais me preocupa não é o como, mas o porquê de as pessoas buscarem capital cultural.

Kobilic conta que cresceu em um meio desprivilegiado e se aponta como um exemplo de alguém movido pelo desejo de aprender. Segundo ela, as alunas da Klavis quase nunca usam o termo capital cultural:

— Sinto que entram não em busca de validação externa, mas para cultivar a curiosidade.

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  • Leituras para entender o conceito
      • Novo bordão nas redes, ‘capital cultural’ ensina a ostentar referências, mas distorce teoria criada por sociólogo francês

Leituras para entender o conceito

A origem: O termo foi cunhado por Pierre Bourdieu e Jean-Claube Passeron em “A reprodução: Elementos para uma teoria do sistema de ensino”. Mas foi explorado posteriormente em obras como “A distinção: Crítica social do julgamento”.

O escritor francês Édouard Louis, atração da Flip 2024 — Foto: Márcia Foletto
O escritor francês Édouard Louis, atração da Flip 2024 — Foto: Márcia Foletto

Antecedentes: A busca de cultura como um meio de parecer ser de outra classe move Monsieur Jourdain em “O burguês gentil-homem”, peça de Molière de 1670 em que o protagonista tenta aprender a falar e a se comportar como um aristocrata legítimo.

O criminoso: Protagonista de quatro livros de Patricia Highsmith e de vários filmes (mais uma série de TV), Tom Ripley não falsifica só pinturas, vozes e a identidade: ele mata para ascender ao mundo dos ricos sofisticados e emular seus comportamentos.

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