Uma preocupação tem tirado o sono de quem vive em Piracicaba, no interior de São Paulo. Do instrutor de autoescola ao empresário que vende veículos zero quilômetro, passando pelo dono de um restaurante na famosa Rua do Porto, todo mundo só pensa no efeito que o tarifaço de Donald Trump sobre produtos brasileiros exportados para os EUA terá na economia da cidade de 425 mil habitantes, a 160 quilômetros da capital paulista.
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O que aflige é o medo do desemprego na indústria metal-mecânica da cidade, que exporta 74% da produção (peças, máquinas agrícolas e de construção) para os EUA e não entrou na lista de exceções da sobretaxa total de 50% atribuída ao Brasil por Trump com uma estranha mistura de razões políticas e comerciais infundadas. Se nada mudar, o temor é de perda de renda dos metalúrgicos, respingando no comércio e nos serviços do município e da região, uma das mais desenvolvidas do país.
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Piracicaba é a quarta maior exportadora brasileira para os EUA. No ano passado, as vendas americanas despejaram US$ 1,3 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões) na economia local. Só perde para Rio de Janeiro, Duque de Caxias (RJ) e São José dos Campos (SP), que exportam petróleo e aviões, categorias que vão pagar só os 10% da alíquota mínima imposta por Trump como “tarifa recíproca”.
Isso significa que Piracicaba pode ser a cidade brasileira mais ferida na guerra tarifária. Segundo Cristiane Feltre, professora da Escola de Negócios da PUC de Campinas e pesquisadora do Observatório da Região Metropolitana de Piracicaba, quase 50% dos empregos formais gerados na indústria local vêm do segmento de metalurgia e mecânica.
— O grosso do que é exportado são as máquinas de construção civil. Na região de Piracicaba, que engloba 24 cidades, a indústria tem peso muito forte na geração de empregos formais. No estado de São Paulo e no Brasil, o índice fica entre 16%, 18%. Naquela região, é 36% — ela explica.
Os primeiros efeitos do que moradores veem como um tsunami já começaram a aparecer, como o cancelamento de pedidos. Na Tecparts do Brasil, empresa de peças para tratores que exporta para os EUA e fornece para fabricantes de máquinas aqui, com 350 funcionários, já foram congelados todos os novos projetos para exportação voltada aos EUA, conta André Simioni, diretor da empresa.
Isso representa cerca de 10% do total em curso. O empresário diz que procurar outros mercados e construir uma nova carteira de clientes leva tempo:
— Existe tempo de acomodação, tempo de procurar outro mercado, até de mudar de setor e fabricar outras coisas. Mas tudo o que vem abrupto desse jeito causa estresse.
O presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas e Mecânicas de Piracicaba e Região (Simespi), Erick Gomes, que representa 1.200 empresas e 30 mil metalúrgicos da região, acredita que, se nada mudar, a segunda onda desse tsunami virá entre setembro e outubro, com férias coletivas, lay-offs e, depois, demissões.
O cálculo do sindicato é que entre 3,5 mil e 5 mil empregos podem ser afetados. Seria uma perda de renda entre R$ 180 milhões a R$ 242 milhões na cidade.
— Na hora que começar a cortar renda, afetando o comércio e os serviços, aí é que o pessoal vai acordar para o que realmente está acontecendo — afirma Gomes.
A cidade não está parada. Na semana passada, uma delegação de autoridades, empresários e sindicalistas piracicabanos foi a Brasília por uma reunião de uma hora e meia com o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Geraldo Alckmin, que está à frente das negociações do governo com os EUA, mas tem dificuldades de interlocução.
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Além do pacote de ajuda divulgado pelo governo e pelo BNDES, que prevê até R$ 40 bilhões em crédito para empresas, a delegação de Piracicaba levou outras sugestões, como desoneração da folha de pagamentos, especialmente para empresas menores, linhas diferenciadas de crédito com prazos mais longos de pagamento e até um pedido para que o governo crie um mecanismo de defesa comercial, com barreiras de entrada para alguns produtos concorrentes.
Na reunião, Alckmin anunciou que Trump havia estendido a mesma tarifa de 50% que já havia estabelecido para aço e alumínio de qualquer país para peças feitas desses materiais, como adiantou a colunista do GLOBO Míriam Leitão.
A expectativa do governo é que as máquinas entrariam nessa categoria. Apesar da alta taxação, não seria uma punição apenas ao Brasil. Isso colocaria todos as nações concorrentes do Brasil neste setor no mesmo nível de competitividade.
Essa mudança ainda é considerada confusa porque cada peça exportada vai depender de uma análise e de, qualquer maneira, a alíquota foi mantida no maior patamar. Neste ambiente, impera a incerteza.
— Isso não muda em nada o temor de que o desemprego possa atingir a cidade — diz Gomes, do Simespi.
O Produto Interno Bruto (PIB) de Piracicaba é de pouco mais de R$ 34 bilhões, segundo dado mais recente do IBGE de 2021, o que coloca a cidade em 50º lugar no ranking nacional de 5,5 mil municípios e na 12ª posição em São Paulo.
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Um ícone da indústria de Piracicaba é a fábrica da Caterpillar, gigante americana de máquinas, que emprega cerca de 4 mil funcionários no que é considerada a sua maior fábrica fora dos EUA.
A firma movimenta um cinturão de fornecedores de peças. Com o tarifaço, surgiram boatos sobre a reação da Caterpillar, de corte de 20% da produção a fechamento da fábrica e transferência da produção para os EUA.
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A Caterpillar no Brasil exporta 80% de sua produção, sendo 50% para os EUA. Procurada, a multinacional respondeu em nota que acompanha os desdobramentos da política de tarifas de Trump, inclusive em países importantes para suas operações como Brasil e Índia, mas não deu detalhes de sua estratégia.
— Nenhuma ação urgente será tomada no momento, e estamos analisando o melhor cenário antes de definir os próximos passos. Permaneceremos flexíveis e só tomaremos medidas de longo prazo assim que houver uma maior certeza do cenário — afirmou o CEO da Caterpillar, Joe Creed, durante a apresentação dos resultados da empresa referentes ao segundo trimestre.
No comércio, Jorge Aversa, vice-presidente da Associação Comercial de Piracicaba, com 7 mil empresas afiliadas, observa que o tarifaço abalou psicologicamente os empresários. Afinal, o comércio de Piracicaba depende da renda de quem trabalha na indústria.
— O comércio já está num cenário de juro alto e concorrência do e-commerce. A notícia do tarifaço trouxe mais incerteza — afirma Aversa, que é dono de concessionárias de veículos e de motos na região.
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Na Rua do Porto, ao lado do Rio Piracicaba, onde turistas costumam lotar restaurantes em busca de um tambaqui ou pintado na brasa, o clima também é de apreensão.
Muitos desses clientes são turistas de negócios, que visitam as fábricas durante a semana e aproveitam para almoçar à beira do Rio, conta Adail Pinto, dono do restaurante Porto da Praia, com 140 lugares:
— Aqui na Rua do Porto, temos turismo de negócios durante a semana, em que as pessoas visitam as empresas e depois vêm comer peixe. Estamos apreensivos com o possível impacto desse tarifaço na atividade das empresas — diz Adail Pinto, dono do restaurante Porto da Praia, com 140 lugares.
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Instrutor de autoescola há 25 anos, José Antônio Bueno, de 60 anos, nascido na cidade, teme que, com menos renda, as pessoas deixem de lado a carteira de habilitação para focar em necessidades básicas:
— O medo é que os negócios sejam afetados se houver desemprego em Piracicaba.
A secretária de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio de Piracicaba, Thais Fornicola, lembra que a cidade exporta também açúcar, álcool e veículos para o Mercosul, já que também tem uma fábrica da Hyundai.
As vendas totais ao exterior, no ano passado, renderam US$ 3 bilhões, mas a fatia dos EUA é quase a metade da cifra. A dependência dos americanos é tão grande que as vendas para o país são mais que o dobro do orçamento anual da cidade, na casa dos R$ 3 bilhões.
— Exportações para os EUA de peças e máquinas pesadas são muito relevantes. Por isso a preocupação e a insegurança — diz ela, acrescentando que a cidade participa das discussões sobre o assunto na Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP).