Morto no domingo, aos 93 anos, Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, terá suas cinzas espalhadas pelos bares que frequentava no Rio e em São Paulo. O corpo do icônico cartunista, um dos fundadores do Pasquim, foi velado e cremado ontem, no Memorial do Carmo, zona portuária do Rio.
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Jaguar deixou o destino das cinzas determinado em cartório – e também em um capítulo de seu livro “Confesso que Bebi – Memórias de Um Amnésico Alcoólico”, publicado em 2001. “Se acharem que é muito bar para pouca cinza basta incinerar um pangaré velho para inteirar.
Evidentemente é trabalho (e porre) para vários dias, páreo duro com a morte de Quincas Berro D’Água, que Jorge Amado descreveu na sua obra-prima”, escreveu.
Alguns dos estabelecimentos caros ao cartunista já não existem mais, como o Bar Luiz, do centro do Rio, ou ainda o Piratininga, na Vila Madalena, em São Paulo. Entre as paradas já garantidas estão o Bracarense e o Jobi, ambos no Leblon, Zona Sul do Rio.
– A ideia é separar as cinzas em diferentes saquinhos e ir levando de bar em bar – explica Eliana Caruso, amiga da família.
No velório, velhos companheiros de copo de Jaguar vieram se despedir do cartunista e brincaram com a fama de boêmio do cartunista. Ao abrir uma garrafa de água mineral gelada, o ator Otávio Augusto, 80 anos, exclamou:
– Desculpe, Jaguar! – disse ele, antes de ser lembrado por Eliana que o próprio cartunista já havia abandonado o álcool por razões médicas. – Jaguar era um ser, um espírito top. Só queria que ele voltasse por alguns minutos para dizer como é o lado de lá. Certeza que ele ia dizer: “pode vir que aqui tá bom”.
O também ator Stepan Nercessian lembrou que Jaguar era “duro na queda” em relação à bebida.
– Tomamos muito chope junto – diz o presidente do Sindicato dos Artistas. – O Jaguar mesmo quando estava de mau humor era bem humorado.
Antes de morrer, Jaguar também proibiu que seus órgãos fossem doados.
– Ele dizia que ninguém ia querer o cérebro de um amnésico e o fígado de um bebum – brincou Eliana Caruso.
Junto com Claudius Sylvius Petrus Ceccon, o Claudius, Jaguar era o último expoente de uma importantíssima geração de cartunistas brasileiros, que teve ainda Millor Fernandes (1923-2012), Ziraldo Alves Pinto (1932-2024) e Henfil (1944-1988), todos com passagem pelo Pasquim. Jaguar trabalhou por 21 anos no jornal satírico, que marcou época e foi censurado pela ditadura militar.
Nascido em 1949, Chico Caruso não chegou a trabalhar no Pasquim, mas manteve uma longa amizade com o Jaguar.
– Eu cheguei um pouco depois dessa geração – lembra Chico. – Cada um ali tinha o seu estilo. O Jaguar era o Jaguar, era único, você reconhecia de cara.
Para os humoristas do Casseta & Planeta, Marcelo Madureira, Hubert, Reinaldo e Hélio de la Peña, todos presentes no velório, Jaguar foi uma espécie de “influencer” antes do termo existir.
– O Jaguar era um ótimo patrão, ele não ensinava nada, mas estava sempre ali contando histórias pra gente – diz o ator, roteirista e cartunista Hubert, que trabalhou com ele no Pasquim. – Era uma pessoa muito autêntica e simples. Aquela figura do cara que não saía bar não era performance, não era personagem, ele era daquele jeito mesmo. Eu comecei como cartunista e, para mim, aquele livro dele, “Átila, você é bárbaro” (1968), é a melhor publicação de cartum.
Já que a minha vida é uma bagunça sem remédio, pelo menos resolvi planejar direito a minha morte. Para começar, decidi ser cremado. Sem choro, nem vela, sem velório nem enterro, coisa medieval, massacrante, um sofrimento insuportável para a família e os amigos, menos, evidentemente, para o defunto, que não está nem aí, para ele tanto faz ser enterrado, explodido ou catapultado para o espaço. Par délicatesse, para poupar os que ficam, escolhi a cremação.
Mas atenção, para ser cremado, não basta querer. É preciso preencher um formulário que se apanha na Santa Casa, detalhando por escrito o destino que deve ser dado às cinzas e depois registrar em cartório, com três testemunhas.
No meu caso, determinei que as cinzas sejam espalhadas pelos bares que bebi. “Vai faltar cinza”, foi o comentário de Chico OPF, encarregado com Albino Pinheiro – que já tirou o corpo da missão – Ferdy Carneiro, Machadão e Célia, minha mulher, de executar meu desejo.
Ruy Espinheira Filho, vate de estro rápido e certeiro, lá de Salvador mandou-se o poema que batizou de “A vontade”:
“Jaguar que também é Sérgio
fez registrar em cartório
e as cinzas distribuídas
da vontade – Célia, a própria
Pois, não sendo seu marido
tão amplo de carnes quão
vasto em deveres etílicos,
essa vontade : que as cinzas
jamais serão suficientes
não mais do que um quinhão
à quantidade de um grão”.
Irrelevante preocupação, retruco. Se acharem que é muito bar para pouca cinza basta incinerar um pangaré velho para inteirar.
Evidentemente é trabalho (e porre) para vários dias, páreo duro com a morte de Quincas Berro D’Água, que Jorge Amado descreveu na sua obra-prima. Albino Pinheiro e eu que, juntos, organizamos festas memoráveis, não merecíamos perder essa pândega.
Eis que aparece um idiota lá de Brasília, que resolveu atrapalhar a minha vida, digo, minha morte, inventando uma lei que obriga todo cidadão a doar seus orgãos, a menos que conste expressamente no seu documento de identidade que não deseja fazê-lo. Impossível imaginar algo mais invasivo, prepotente e fascista.
Quando acabar essa crônica, vou encarar uma fila no IFP para tirar nova identidade com a cláusula impeditiva. Mesmo porque coitado do cara que ganhar meu fígado para transplante. Ou meu olho míope. Meus ouvidos moucos. Cérebro amnésico. Coração com disritmia. Países-baixos vasectomizados.
Tudo caindo aos pedaços, com prazo de validade vencido. Mas para mim tem um valor afetivo, afinal, estão comigo desde o começo. Aqui, ó, que vão me lotear. Vou torrar tudo.