Em uma das pontas da tradicional Avenida Brigadeiro Luís Antônio, na Bela Vista, centro de São Paulo, um edifício dos anos 1950 revive com o dinamismo das artes cênicas. Trata-se do novo projeto do Instituto Brasileiro de Teatro (iBT): um centro cultural voltado para o teatro. Com 7,5 mil metros quadrados distribuídos em doze andares, o número 277 da avenida foi adquirido em 2022 pelo instituto e, depois de dois anos de reformas estruturais, abre nesta sexta-feira (29) para a população.
Por mais de dez anos, o primeiro andar do prédio comercial abrigou a casa noturna Lions Nightclub, que em seus últimos respiros acolheu não apenas a comunidade LGBTQIA+, mas também deu espaço para a cena do rap e do trap. Agora, o palco toma o lugar da pista de dança com programações voltadas tanto para companhias de teatro quanto para o público paulistano — nesse caso, todas gratuitas ou a preços populares.
— A nossa missão é popularizar e democratizar o acesso ao teatro, além de impulsionar a produção nacional. No novo prédio, que abriga não só o centro cultural mas também a sede do iBT, a ideia é que tenha teatro em tudo — explica Thiago Albanese, diretor-executivo do instituto.
Ao todo, R$ 45 milhões foram investidos no centro cultural — R$ 20 milhões para aquisição do imóvel e outros R$ 25 milhões para restauração. O modelo financeiro, que combinou aportes privados e apoio de leis federais de incentivo, como a Rouanet, visa a garantir a longevidade do espaço e não depender apenas de verbas públicas. Para Albanese, a ideia é “tornar o espaço relevante para marcas”.
Dividido em diferentes eixos curatoriais, o edifício tem desde áreas para eventos e salas de ensaio até espaços para aulas, experiências imersivas e exposições. O primeiro e o segundo andar, por exemplo, podem ser ocupados tanto por intervenções artísticas quanto por eventos particulares.
A Praça Pública, como é chamado o térreo, é aberta ao público para circulação e concentra a maioria das atividades gratuitas. Lá, será possível assistir a peças teatrais, participar de atividades infantis ou curtir apresentações musicais noturnas. O ambiente ali construído chama a atenção já do lado de fora: as portas de vidro permitem que o pedestre veja que o piso é o mesmo da calçada e que não há paredes, apenas um espaço amplo e com pé direito alto.
— (A arquitetura do térreo) é para convidar as pessoas a chegarem, para quebrar essa barreira física e mostrar que toda a cidade é bem-vinda para estar aqui dentro — diz Albanese.
Da agenda já em curso, o destaque vai para o Karaokêra Kerida, que consiste em uma programação musical participativa comandada pelo Coletivo Acuenda, de drag queens do Jardim Romano, na Zona Leste de São Paulo. Enquanto isso, o projeto Encruzas propõe um encontro (sempre único, sem repetições) entre artistas de diferentes eixos e linguagens, que resultarão em um espetáculo conjunto de cerca de uma hora. Haverá ainda o 7Arte, com exibições de filmes independentes, e o Prato do Dia, com cenas de até vinte minutos que serão apresentadas no horário do almoço.
— Um espaço como esse tem que ter tudo, tem que abraçar tudo e todos. Vamos trabalhar com diferentes eixos porque somos muitos e múltiplos… Então, (a programação) é para toda a população. Mesmo nas atividades voltadas para o público infantil, acreditamos que até os adultos vão querer participar, porque teremos desde aulas de frevo até de movimentação de perna de pau — brinca Aline Mohamad, que assina a curadoria.
O térreo conta ainda com um café-bar, disponível para os visitantes a partir da abertura na sexta. De acordo com a organização, o centro cultural ganhará também um restaurante até o final do ano. Ambos têm sob comando o chef Rodrigo Oliveira, conhecido pelo Mocotó e pelo Balaio.
Outras oito salas de ensaio são distribuídas ao longo dos doze andares do edifício. Disponíveis para uso de companhias de teatro desde 2023 (durante a reforma), podem ser alugadas ou ocupadas de maneira gratuita por meio de um edital público, que seleciona cerca de 30 grupos a cada três meses. Durante a permanência, eles participam de ações formativas, palestras e mentorias, além de realizar uma mostra ao final do período.
— Também oferecemos bolsas para uma parcela desses grupos selecionados, geralmente direcionadas para grupos periféricos. Percebemos que eles tinham uma taxa de ocupação menor do nosso espaço, então oferecemos auxílio transporte e alimentação — explica Thiago Albanese.