A ministra da Justiça da Argentina, Patricia Bullrich, afirmou nesta quarta-feira que as pessoas que participaram do ataque contra a carreata liderada pelo presidente Javier Milei. O líder argentino teve que ser retirado às pressas do ato de campanha de seu partido A Liberdade Avança (LLA, na sigla em espanhol) quando manifestantes atiraram pedras em sua direção — protesto que acontece em meio à investigação de um suposto esquema de corrupção que alcançaria a irmã e secretária da Presidência de Milei, Karina.
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“O kirchnerismo organizou um ataque ao presidente em Lomas de Zamora, colocando em risco as pessoas e as famílias que foram acompanhá-lo”, escreveu Bullrich em uma publicação nas redes sociais. “Esses caras, para recuperar algo de poder, semeiam violência e caos. Kirchnerismo nunca mais”.
A caravana eleitoral de Milei seguia por Lomas de Zamora, no sul da região metropolitana de Buenos Aires, quando opositores infiltrados entre os apoiadores arremessaram objetos contra a caminhonete que levava o presidente, Karina e o candidato José Luis Espert. Um porta-voz do governo afirmou que nenhuma das figuras públicas ficou ferido.
O Ministério da Justiça argentino disse ter começado a identificar pessoas ligadas ao ataque. Em entrevista ao jornal La Nacion, Bullrich afirmou que o secretário de segurança de Lomas de Zamora, Jorge Bonino, teria participado, incitando os manifestantes. Outras pessoas com cargo público e assessores políticos também estariam entre os identificados.
Carreata de Javier Milei é alvo de arremessos de objetos
Fontes do ministério disseram ao jornal argentino que estão trabalhando para recolher o máximo de informações possíveis para decidir sobre a apresentação de uma denúncia.
O ataque ocorreu em plena campanha eleitoral para as eleições de 7 de setembro e em um momento delicado para o governo, que enfrenta uma crise por causa de gravações de áudio atribuídas ao ex-diretor da Andis, Diego Spagnuolo, que falam de supostos subornos dentro da organização.
Pouco antes do ataque, Milei se pronunciou pela primeira vez sobre os áudios. O presidente afirmou que “tudo o que Spagnuolo diz é mentira”, acrescentando que iria processar o ex-aliado para “provar que ele mentiu”.
O caso começou com a divulgação, por um canal de streaming, de áudios que seriam de Diego Spagnuolo, ex-diretor da Andis e aliado político de Milei. Nessas gravações, ele descreve um suposto esquema de cobrança de propina liderado por Lule Menem para liberar pagamentos e contratos de fornecimento de medicamentos. Segundo os áudios, o percentual das propinas teria passado de 5% para 8%.
Quem são os principais envolvidos?
- Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, supostamente beneficiária de parte dos valores.
- Eduardo “Lule” Menem, subsecretário de Gestão, apontado como organizador do esquema; nega envolvimento e acusa o kirchnerismo de operar politicamente.
- Diego Spagnuolo, ex-diretor da Andis, destituído após os áudios; central na divulgação das supostas irregularidades.
- Emmanuel e Jonathan Kovalivker, empresários da Drogaria Suizo Argentina, acusados de intermediar propinas; Emmanuel foi detido com US$ 266 mil e Jonathan, antes foragido, entregou o celular à Justiça.
- Daniel Garbellini, ex-encarregado de compras na Andis, destituído e com bens bloqueados.
Como funcionaria o esquema?
Segundo os áudios, empresas fornecedoras da Andis pagariam um percentual adicional — até 8% — para garantir contratos com o órgão. Parte desse valor seria repassada a funcionários e autoridades, incluindo Karina Milei. A Suizo Argentina, principal fornecedora, teria intermediado a cobrança e repasse dos valores. Entre 2024 e 2025, os contratos da empresa com o Estado saltaram de US$ 3 milhões para US$ 80 milhões. Em um trecho, a voz atribuída a Spagnuolo afirma:
— A gente da Suizo liga para os outros fornecedores e diz: “Agora não é mais 5, é 8. Tem que trazer para a Suizo e nós subimos para Presidência”.
A veracidade das gravações ainda não foi confirmada pela Justiça, mas também não foi desmentida.
O que diz a investigação judicial?
A causa está sob segredo de Justiça e é conduzida pelo juiz federal Sebastián Casanello e pelo fiscal Franco Picardi. Até agora:
- Foram cumpridos 16 mandados de busca, incluindo sedes da Andis e casas de empresários.
- Houve apreensão de US$ 266 mil em espécie e cerca de 7 milhões de pesos com Emmanuel Kovalivker, quando ele tentava sair de Nordelta, além de anotações sobre pagamentos.
- Os suspeitos, incluindo Spagnuolo, Garbellini e os irmãos Kovalivker, estão proibidos de deixar o país e tiveram suas contas bloqueadas pela Justiça.
- Foram confiscados celulares, computadores e documentos; alguns aparelhos revelaram mensagens apagadas, e outros ainda estão sendo desbloqueados com ajuda de especialistas.