Submetida ao Tribunal do Júri, a pedagoga Claudia Fernanda Tavares Hoeckler, de 43 anos, foi condenada, com todas as qualificadoras, a 20 anos e 24 dias de prisão no regime fechado pelo assassinato do marido, o motorista Valdemir Hoeckler, de 52 anos. O julgamento aconteceu na Câmara de Vereadores de Capinzal, em Santa Catarina, e se estendeu por dois dias, atraindo grande público e intensa cobertura da imprensa local.
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O crime ocorreu em 21 de novembro de 2022, em Lacerdópolis. Naquela noite, Claudia dopou o marido com comprimidos de sonífero, esperou que ele adormecesse e o asfixiou com uma sacola plástica. Em seguida, arrastou o corpo até a cozinha e o escondeu em um freezer doméstico. No dia seguinte, foi até a delegacia para registrar o desaparecimento do marido, tentando sustentar uma versão que não resistiria à investigação. O cadáver ficou congelado por cinco dias, até ser descoberto.
A sessão de julgamento começou às 9h da manhã da quinta-feira, 28 de agosto, e avançou até a madrugada, somando mais de 11 horas apenas para a fase de testemunhas. Nove pessoas foram ouvidas, entre elas a filha do casal, que depôs no fim da noite. Duas testemunhas não compareceram. O interrogatório da ré foi conduzido pela juíza Jéssica Evelyn Campos Figueredo Neves.
Claudia admitiu o crime, mas tentou se justificar dizendo que sofria constantes agressões e vivia sob pressão. Durante a fala, passou mal e precisou ser retirada por policiais, interrompendo a sessão. No dia seguinte, já recuperada, voltou a responder às perguntas, e os trabalhos seguiram com os debates entre defesa e acusação.
Na defesa, atuaram Matheus Molin, Gabriela Bemfica, Jader Marques, conhecido por sua participação no caso da Boate Kiss, além de Casseano Barbosa, Tiago de Azevedo Lima, Eduardo Rebonatto e Guilherme Pittaluga Hoffmeister. Eles tentaram convencer os jurados de que Claudia havia sido vítima de violência doméstica ao longo de duas décadas e que o homicídio não fora planejado.
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Do outro lado, os promotores de Justiça Rafael Baltazar Gomes dos Santos e Diego Bertoldi, ao lado do advogado Álvaro Alexandre Xavier, assistente de acusação, sustentaram a tese de homicídio duplamente qualificado, por meio cruel e com recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
Claudia foi presa logo após confessar o crime, em 2022. Um ano depois, obteve o direito de responder em liberdade, mas voltou a ser detida em 2025, quando o Superior Tribunal de Justiça cassou a decisão que a mantinha solta e determinou sua prisão preventiva. Enquanto aguardava o júri, ainda tentou receber pensão por viuvez do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Protocolou dois pedidos, alegando ser a única dependente habilitada, mas ambos foram negados. A lei previdenciária impede que um condenado pelo homicídio do segurado receba qualquer benefício decorrente da morte.
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A história de Claudia é marcada por traumas. Filha de uma prostituta, foi entregue a um orfanato ainda bebê. Na adolescência, voltou a viver com a mãe, mas passou a sofrer abusos do padrasto. Aos 17 anos, casou-se com Valdemir, que, segundo ela, a estuprava e a ameaçava de morte. Do relacionamento nasceu uma filha, mas Claudia relatava ter sido afastada da convivência com a jovem.
O caso ficou conhecido como o da “mulher do freezer” e escancarou os limites entre vítima e algoz. A trajetória de Claudia, marcada por abandono e abusos, ajuda a entender o contexto. Para os jurados, a violência sofrida não justificava o ato planejado e cruel. A condenação encerra um capítulo sombrio no interior catarinense, em que o drama familiar e a brutalidade do crime se misturaram diante dos olhos da sociedade.
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