Ioga, pilates, reposição hormonal, terapia, rejuvenescimento íntimo. Práticas atividades ligadas ao bem-estar físico e mental que ganharam o público feminino há tempos estão sendo cada vez mais procuradas por homens. Alguns vão incentivados pelas parceiras; outros, por recomendação médica. E uns tantos porque decidiram apostar numa nova forma de conquistar mais qualidade de vida. O fato é que eles estão sendo mais vistos em espaços onde antes eram figuras raras.
- Ninguém aceitou acolhimento: Ação em torno da Cidade de Deus desmonta acampamentos e recolhe 5 toneladas de materiais
- Destino para São Paulo: Buser lança novo ponto de embarque na Barra da Tijuca
É o caso, por exemplo, das aulas de ioga. Professora da unidade da Bodytech do Città Office Mall, na Barra da Tijuca, Joana Passos conta que muitos chegam em busca de um objetivo específico e acabam descobrindo outros benefícios.
— Há alguns meses vejo mais homens nas minhas aulas de ioga — atesta. — Esta imagem de que a prática é só para mulher foi quebrada. Acho que hoje o mundo está olhando mais para a saúde mental. Antes, ser workaholic era legal, e agora eles estão vendo que não. As pessoas estão mais conscientes em relação ao corpo também. Muitos buscam a ioga para melhorar a performance em esportes como musculação, jiu-jítsu e surfe.
Joana lembra que na Índia a ioga originalmente era praticada majoritariamente por homens, mas se popularizou no Ocidente com uma abordagem estética que ganhou o público feminino, embora sempre ligada ao autoconhecimento e à espiritualidade. Um dos frequentadores de suas aulas é o diretor comercial José Campiti Junior, de 51 anos, que há seis anos faz ioga duas vezes por semana. Ainda hoje, ele vê outros homens tratarem a atividade como “hora perdida”, conta, mas destaca que os benefícios físicos e mentais são muito maiores do que ele podia imaginar, inclusive para o seu trabalho.
— Hoje temos muita cobrança e correria em qualquer ramo. A ioga me ajudou em tudo, a tomar decisões e a enxergar as coisas de uma maneira mais tranquila, com mais objetividade — diz ele, que pratica esportes como surfe, kitesurfe, mergulho e ciclismo e também viu melhora no seu desempenho nessas modalidades. — Ganhei principalmente mobilidade, força e alongamento.
Este momento do dia que traz tranquilidade, combinando posturas físicas, respiração e meditação, pode ser potencializado ao ar livre. Foi o que pensou, há quatro anos, o empresário Marcio Lan, de 47 anos, que viu o grupo da Esporterapia praticando ioga na Praia do Recreio, aderiu e não parou mais. Embora também veja mais homens buscando a atividade, ele reconhece que ainda há muita resistência masculina e conta que não conseguiu levar nenhum amigo que convidou para as aulas.
— A ioga é bem completa e uma atividade física puxada. Os homens estão mais atentos a isso. É um processo para a qualidade de vida. É você que escolhe como vai subir uma escada aos 65 anos, e essa escolha não é feita aos 64 — diz.
Esta preocupação também mexeu com a cabeça do diretor de marketing Carlos Marão, de 35 anos, que há seis meses passou a fazer pilates, outra prática que alia exercícios físicos à respiração. Ele não conhece outros homens que pratiquem a atividade, o que atribui à falta de informação. Marão foi convidado a experimentá-la por uma professora do Espaço Corpo e Mente, no Vogue Square, sua amiga pessoal.
— Nunca tive essa tendência para atividade física. Mas, de um ano para cá, vi necessidade — diz ele, contando que suas dores nos joelhos e na lombar desapareceram e a qualidade do sono melhorou. — O pilates me ajudou a reconhecer os sinais do corpo. Por exemplo, se um cansaço é físico ou mental ou é preguiça.
As recomendações médicas são o principal motivo que leva os homens para a prática do pilates, segundo observa o professor Marcos Braz, que montou o seu estúdio MBHealth no condomínio Argentina, no condomínio Vila do Pan, na Barra. Nas aulas, ele percebe que os alunos se impressionam com a própria evolução.
— Geralmente os homens chegam achando que o pilates não vai ajudar, que não serve para nada, que é só respirar e alongar. E quando começam o método notam a diferença e passam a ver como ele ajuda em outras atividades — avalia Braz.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/a/c/B9W51nQLa1B8kSDnmqAw/imagem-do-whatsapp-de-2025-08-26-a-s-14.37.10-0cded482.jpg)
Para além da atividade física, há também um novo contingente masculino em busca de diferentes formas de terapia. Como a reposição hormonal, que pode ser recomendada para homens na andropausa — fase que começa por volta dos 40 anos, equivalente à menopausa feminina — ou para pacientes que apresentam baixa testosterona em mais de um exame de sangue.
— Antes os homens só vinham por recomendação médica; hoje, precisamos até dar uma freada e avisar que a reposição não é para todo mundo: depende do motivo da baixa hormonal — observa a endocrinologista Renata Maksoud Bussuan, que aponta perfis contraindicados para este tratamento. — Pacientes que tiveram câncer de próstata ou de mama, com aumento do hematócito no sangue, insuficiência cardíaca grave ou apneia do sono grave não devem fazer.
O tratamento pode ser feito com uma aplicação diária de gel na pele ou por injeções aplicadas na farmácia, com uma periodicidade que pode ser de 21 dias ou três meses. O custo varia de R$ 60 a R$ 200 mensais. Entre os benefícios estão a melhora do sono, do humor e da disposição no dia a dia, aumento da libido e ganho de massa muscular, explica Renata.
A busca de músculos, aliás, faz com que alguns homens ministrem a testosterona sem supervisão médica, o que é perigoso.
— Há risco de maior irritabilidade, trombose, hiperplasia prostática e aumento da musculatura cardíaca, que gera maior risco de infarto — explica Renata. — Quando fazem reposição sem supervisão médica, há caso em que eles pesam a mão e a dose é muito alta.
Os homens podem não correr para os consultórios dos psicólogos como fazem para os dos endócrinos, mas também lá têm aparecido com mais frequência. É o que atesta o psicanalista André Emerick, que mora há quase 50 anos no Recreio e atualmente atende apenas homens adultos ou casais, a pedido do marido.
— Há 15 anos, a maioria dos homens que vinha era porque a mulher fazia terapia e o colocava em xeque. Agora, já percebo já chegam por conta própria — avalia Emerick. — É um grande tabu que está se quebrando, de o homem levantar a mão e dizer que precisa de ajuda. Eles estão falando entre si sobre terapia. Um vem dando essa dica para o outro.
A busca também não está mais restrita ao pai da família. Ainda segundo o profissional, se antes o homem na faixa dos 40 anos era o que mais procurava a análise; agora, ele atende de jovens de 25 a homens de 60.
— Atribuo isso à busca por qualidade de vida. A quantidade de academias aqui na Barra e no Recreio é quase igual à de farmácias. Até por conta do acesso à informação, hoje há uma compreensão de que a qualidade de vida também está no emocional e na espiritualidade. É uma postura global de crescimento — diz o psicanalista, especializado em terapia familiar sistêmica. — Houve uma busca por fortalecimento e empoderamento feminino. Com isso, o homem se percebe mais fraco e tem reação de combate, cuida de si para também ficar forte. Mulheres fortes e homens fracos detonam os casamentos. Ele deve querer ser forte para caminhar ao lado dela, no mesmo patamar.
O rejuvenescimento íntimo, outra área desbravada primeiro pelo sexo feminino, também já atrai homens interessados em ganho estético e melhora na autoestima e na autoconfiança. A One Man Clinic, na Barra, que os sócios definem como um centro genital avançado, oferece desde atendimento para casos como disfunção erétil e ejaculação precoce até tratamentos estéticos. Entre eles estão a plástica do escroto, que pode apresentar deformações adquiridas; remoção de excesso de pele e gordura do púbis; redução do prepúcio; correção de cicatrizes; remoção de verrugas ou manchas; e correção de assimetrias penianas.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/E/j/1AVBnAQfus2UsuWJMZhQ/doutores.jpg)
Há dois anos, a clínica desenvolveu uma nova técnica cirúrgica para alongamento e engrossamento peniano, que custa a partir de R$ 30 mil. A pesquisa começou há cerca de oito anos, quando o cirurgião plástico Flavio Rezende, sócio do urologista André Cavalcanti no local, fez uma cirurgia reparadora no pênis de um paciente vítima de queimadura e, três meses depois, ouviu o homem relatar um engrossamento do órgão.
— Tem muito homem que tem um pênis de tamanho normal e quer aumentá-lo, como as mulheres fazem com o silicone. Isso tem um impacto emocional muito grande. Temos visto uma grande satisfação para o homem e seu parceiro ou sua parceira — destaca Rezende.
*Esta matéria integra o especial Saúde do GLOBO-Barra, publicado em 31/08