A Venezuela acusou os EUA de usar Inteligência Artificial para criar um vídeo sobre o ataque a um navio no Caribe que, segundo Washington, transportava drogas e havia deixado o país caribenho em direção aos Estados Unidos. Mais cedo, o presidente Donald Trump, disse que os militares dos Estados Unidos “atiraram” em um barco que transportava drogas da Venezuela, acrescentando mais tarde que “11 terroristas” foram mortos na ação. No Telegram, o ministro das Comunicações da Venezuela, Freddy Ñáñez, afirmou que “parece” que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, que reiterou as declarações sobre o ataque, “continua mentindo para o seu presidente” e, “depois de levá-lo a um beco sem saída, agora lhe oferece um vídeo com IA como ‘prova'”.
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“Chega de Marco Rubio incentivando a guerra e tentando manchar as mãos do presidente Donald Trump com sangue. A Venezuela não é uma ameaça”, escreveu o ministro.
Segundo a imprensa venezuelana, o ministro consultou a IA da Google, Gemini, para analisar se o vídeo postado por Trump sobre o ataque era verdadeiro. Em resposta, a ferramenta afirma que é “altamente provável que tenha sido criado por IA”.
Mais cedo, Rubio classificou o ataque à embarcação como “letal”, e disse que os EUA continuarão utilizando “todo o seu poder” para “erradicar” os cartéis de drogas. As declarações ocorrem em meio à crescente tensão com o país sul-americano e a presença militar dos Estados Unidos nas águas do Caribe para combater o narcotráfico.
— Aconteceu há poucos instantes — disse Trump ao anunciar o ataque durante entrevista coletiva no Salão Oval. — E tem mais de onde isso veio. Temos muita droga entrando em nosso país, chegando há muito tempo (…) Elas vieram da Venezuela, e em grande quantidade. Muita coisa está saindo da Venezuela.
Mais tarde, Trump explicou em sua rede social, Truth Social, que o ataque ocorreu enquanto os traficantes do grupo Tren de Aragua se encontravam em águas internacionais, “transportando narcóticos ilegais com destino aos Estados Unidos”. “Que isso sirva de aviso a qualquer pessoa que sequer pense em trazer drogas para os Estados Unidos da América. Cuidado!”, escreveu.
“Como o presidente acaba de anunciar há poucos instantes, hoje as Forças Armadas dos EUA realizaram um ataque letal no sul do Caribe contra um navio de drogas que havia partido da Venezuela e era operado por uma organização designada como narcoterrorista”, postou Rubio nas redes sociais, pouco antes de embarcar para sua primeira viagem oficial ao México.
Antes de embarcar para sua primeira viagem oficial ao México para tratar de questões de segurança com a presidente Claudia Sheinbaum, Rubio disse a repórteres que “o presidente Trump deixou muito claro que vai utilizar todo o poderio dos Estados Unidos para enfrentar e erradicar esses cartéis de drogas, não importa de onde operem”.
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O vídeo divulgado por Trump e a Casa Branca mostra uma embarcação pequena sendo atingida por um ataque aéreo enquanto navegava em área internacional.
Uma autoridade do Pentágono havia confirmado ao New York Times que houve um “ataque de precisão” contra uma embarcação. O termo utilizado pelo funcionário, segundo o jornal americano, já indicava se tratar de um ataque aéreo, embora a fonte tenha se recusado a dar mais detalhes.
A manobra dos EUA nas águas do Caribe prevê o envio de cerca de 4.000 soldados para perto do território marítimo venezuelano. Também foram enviados ao menos três navios de guerra contratorpedeiros — USS Jason Dunham, USS Gravely e USS Sampson —, além do cruzador USS Lake Erie, do submarino nuclear USS Newport News e do Grupo de Prontidão Anfíbia Iwo Jima, para perto do litoral do país.
O ditador venezuelano, Nicolás Maduro — acusado pelos EUA de supostamente liderar uma organização criminosa chamada Cartel dos Soles — considera que se trata de uma ação para exercer “máxima pressão” contra ele por parte do governo do presidente Trump. Washington, cujas relações diplomáticas com Caracas estão rompidas desde 2019, aumentou para US$ 50 milhões (mais de R$ 270 milhões, na cotação atual) a recompensa por informações que levem à prisão de Maduro.
A movimentação militar americana provocou uma reação venezuelana, que colocou suas forças em prontidão e reforçou a convocação de reservistas — segundo Maduro, apenas a Milícia Nacional Bolivariana teria mobilizado um efetivo de 4,5 milhões de pessoas, número apontado como superdimensionado por especialistas.
Na segunda-feira, o líder venezuelano afirmou que está preparado para passar à “luta armada” caso seu país seja invadido, após a mobilização militar dos EUA nas águas do Caribe. O anúncio vem na esteira de uma série de declarações belicosas e nacionalistas do chavista — que tenta reforçar sua base de apoio, em um momento em que a Venezuela enfrenta mais uma crise econômica e institucional.
— Nós estamos em um período especial de preparação máxima. E em qualquer circunstância, vamos garantir o funcionamento do país — disse Maduro durante um encontro com a imprensa internacional em Caracas. — Se a Venezuela for agredida, passaria imediatamente ao período de luta armada em defesa do território nacional e da História e do povo da Venezuela.
As acusações de tráfico de drogas contra o regime venezuelano datam de anos antes de Trump chegar ao poder. Embora os relatórios anuais da ONU não classifiquem a Venezuela como um país produtor, sua condição de plataforma de distribuição do narcotráfico é destacada por especialistas.
As relações entre os dois países se deterioraram drasticamente após as eleições presidenciais do ano passado na Venezuela, que trouxeram Maduro de volta ao poder em meio a acusações de fraude da oposição e críticas ferozes da América Latina, Washington e capitais europeias.
A Venezuela expulsou a Agência Antidrogas dos EUA (DEA) em 2005, alegando interferência em seus assuntos internos. Em 2020, os EUA acusaram formalmente Maduro de “narcoterrorismo” e ofereceram US$ 15 milhões por informações que levassem à sua captura, valor que o governo Joe Biden posteriormente aumentou para US$ 25 milhões. O governo Trump aumentou o valor no mês passado.
Após a pressão, Sheinbaum afirmou que seu governo “não tinha evidências” de que Maduro estivesse ligado ao cartel de Sinaloa, um dos mais poderosos do país. Mas ações legais nos EUA têm aumentado contra o regime de Maduro e o próprio presidente.
Em dezembro de 2023, o governo Biden libertou o empresário colombiano Alex Saab, suposto testa de ferro do presidente venezuelano, em troca de 10 americanos presos na Venezuela. Saab foi acusado pelo Ministério Público dos EUA de estar diretamente envolvido em lavagem de dinheiro.
Com AFP, NYT e agências internacionais.