Em uma demonstração de poder político e bélico, a China reuniu líderes de países não alinhados ao Ocidente em Pequim nesta quarta-feira (noite de terça em Brasília) para um desfile militar pelos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Sino-japonesa. A exibição pública, que o Exército de Libertação Popular afirmou que contou apenas com armamentos de fabricação 100% chinesa, foi marcada por várias simbologias, em um momento em que o líder chinês, Xi Jinping, reforça alianças alheias ao Ocidente e molda narrativas — incluindo sobre o conflito histórico — em torno de seus objetivos geopolíticos.
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Em encontro bilateral de terça com o presidente russo, Vladimir Putin, Xi elogiou o papel da União Soviética e da China na Segunda Guerra, afirmando que os países foram os “principais vencedores” e estão determinados a preservar os frutos dessa vitória por meio de um sistema internacional “mais justo e equitativo”. Em resposta, Putin disse a Xi — a quem se referiu como “caro amigo” — que a vitória no conflito era uma prova da “disposição de ambos os países para defender a verdade histórica e a justiça”.
Além de Putin, estiveram ao lado de Xi outros notórios opositores do modelo de governança liderado pelos EUA e seus aliados da Otan (aliança militar do Ocidente). Entre outros, também foram ao evento na capital chinesa o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, e o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, usando a viagem a Pequim como um raro momento de diálogo presencial. A mídia estatal chinesa publicou conversas entre alguns deles durante encontros bilaterais, em que reafirmaram apoio mútuo.
Como anfitrião, Xi participou de várias dos conversas. A liderança comunista declarou apoio ao Irã na “defesa de sua soberania nacional”, em conversa com Pezeshkian na véspera, e fez acenos a Putin, afirmando que as relações entre Moscou e Pequim “resistiram às mudanças no cenário internacional” e classificando os russos como parceiros na “construção de um sistema de governança global mais justo e razoável”.
Mas os sinais do líder chinês não se restringiram a declarações. O desfile militar — e a campanha de promoção bancada pelo governo nos meses anteriores à realização — guardaram mensagens que moldam a narrativa histórica da participação chinesa na Segunda Guerra Mundial para respaldar os atuais interesses do regime comunista.
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Por meio de discursos oficiais, programas de televisão, filmes e propaganda, o governo da China se esforça para apresentar um papel mais forte do Partido Comunista Chinês na guerra contra o Japão na frente do Pacífico. Embora os historiadores atribuam o maior peso da resistência chinesa ao governo do então presidente Chiang Kai-shek (que fugiu para Taiwan após derrota para os comunistas na Revolução Chinesa, em 1949), a nova narrativa de Pequim enaltece guerrilhas comunistas durante o período da guerra — e mesmo o próprio Mao Tsé-tung (1949-1976).
Analistas afirmam que o revisionismo histórico tem como objetivo impulsionar pautas presentes. Por um lado, a vinculação do Partido Comunista com a vitória na Segunda Guerra Mundial reforça o poder simbólico das Forças Armadas chinesas no pós-revolução. Paralelamente, oferecem a Pequim um argumento histórico em sua reivindicação colonial sobre o território de Taiwan.
Autoridades chinesas ecoaram uma mensagem a pedido de Xi em representações diplomáticas pelo mundo, citando declarações dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial para demonstrar o direito de Pequim sobre a ilha estratégica do Pacífico. Um dos argumentos é o de que na Declaração do Cairo, de 1943, os aliados declararam que o Japão deveria devolver todos os territórios tomados da China.
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Em entrevista ao jornal americano Wall Street Journal, o historiador Rana Mitter, da Kennedy School of Government da Universidade Harvard, afirmou que a reescrita da História por Pequim vai além de um simples revisionismo. De acordo com o pesquisador especializado em China, o governo atual busca ser reconhecido como “proprietário conjunto da ordem internacional do pós-guerra”, que dita as regras da governança global.
O caso, porém, é controverso. Alguns analistas defendem que esse trecho da declaração se cumpriu logo após o pós-guerra, quando o governo nacionalista ainda estava no poder. Com a fuga de Kai-check e seus aliados para Taiwan, e a vitória da revolução comunista na China continental, o reconhecimento do novo governo não seria automático.
No plano estratégico, o apelo histórico é um dos elementos de aprofundamento das relações entre a China e a Rússia — onde o governo de Putin utiliza o passado soviético no combate aos nazistas como ferramenta de mobilização popular.
À medida que a linha retórica de Pequim indica o desejo de um papel mais proeminente na governança global, talvez com um avanço final contra o território insular — algo que tanto os EUA quanto os aliados europeus sempre tentaram evitar — as capacidades militares apresentadas ao público no desfile em Pequim soaram como mostra de que o país reúne capacidades materiais para se impor.
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As Forças Armadas chinesas anunciaram nas semanas que antecederam o evento que todo o arsenal que seria apresentado em Pequim estava “operacional” e era de fabricação 100% nacional — um aviso sobre a capacidade de produção bélica, em um momento em que os europeus enfrentam dificuldades de manter seus estoques e continuar fornecendo armas para Kiev lutar contra a Rússia.
Entre as principais inovações que percorreram o trajeto na Praça Tiananmen estão os novos mísseis da série Ying Ji (“ataque de águia”, em chinês), que analistas apontam como de uso antinavio. Ao menos parte deles deve ter capacidade hipersônica, segundo analistas, e são projetados para ser disparados a partir de navios ou aviões.
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Outros destaques do arsenal convencional apresentados durante o desfile foram o Veículo Naval Não Tripulado AJX002. Também chamado de drone naval, especialistas apontaram que o modelo mede de 18 a 20 metros de comprimento, a partir de imagens reveladas durante os ensaios para o desfile. Ambos fazem parte de uma demanda considerada de primeira ordem em Pequim, diante das tensões no Estreito de Taiwan e no Pacífico.
— É necessário que a China desenvolva uma forte capacidade de combate contra navios e porta-aviões para evitar que os EUA se tornem uma ameaça grave à segurança nacional chinesa — afirmou Song Zhongping, comentarista militar e ex-instrutor do Exército chinês, em entrevista a AFP.
Outro destaque foi o HQ-29, um dispositivo descrito por alguns analistas chineses como um “caçador de satélites”, com capacidade para interceptar mísseis a uma altitude de até 500 quilômetros, além de satélites em órbita baixa. O sistema, montado sobre um veículo com rodas, possui dois contêineres de mísseis, cada um com aproximadamente 1,5 metro de diâmetro.
Com essas características, pode ser o sistema de interceptação mais avançado já desenvolvido pela China — e um dos mais potentes do mundo. (Com NYT e AFP)