Gastronomia é hoje o terceiro maior impulsionador de turismo no mundo, segundo dados da Organização Mundial do Turismo (OMT): uma boa mesa representa mais de 14% das motivações principais dos visitantes. E o tamanho desse mercado é turbinado: US$ 944,6 bilhões com previsão para alcançar um tamanho de mercado equivalente a US$ 3,5 trilhões em 2032, uma taxa de crescimento de mercado equivalente a 15,2% ao ano, segundo a companhia americana International Market Analysis Research and Consulting Group (IMARC Group). França sempre fez da sua culinária a bandeira maior do país. Segue fazendo. Na América Latina, o Peru é um bom exemplo dessa receita de sucesso. De 1,6 milhão de turistas anuais, o país pulou para 3,5 milhões, tudo fruto de investimentos na boa mesa, da criação de uma identidade gastronômica e de uma série de ações que começaram com o chef Gastón Acurio. O veterano chef foi quem jogou luz nos sabores de seu pais: em 2013 despontou entre os dez melhores restaurantes do mundo com o seu Asrtid Y Gaston e La Mar, onde se come o melhor ceviche do planeta. O prato, aliás, desde 2023 virou patrimônio cultural imaterial da humanidade.
O Peru segue investindo pesado no setor. Ano passado, foi considerado o Melhor Destino Gastronômico do Mundo pelo “World Travel Awards”.
“A nossa gastronomia sempre foi maravilhosa, o que mudou foi a mentalidade do peruano. Hoje se orgulha da cozinha que tem, prestigia e torce por ela”, pondera o chef Mitsuharu Tsumura, o Micha, à frente do Maido de Lima, eleito o melhor restaurante do mundo no The World Best Restaurant de 2025.
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No ranking dos grandes restaurantes do mundo, o Peru aparece ainda com mais quatro casas: Mérito, Mayta, Kjoelle e Central, categoria “hour concourt”
“Temos ainda muito para descobrir e a explorar”, defende Virgílio Martinez, que conta com laboratórios de pesquisas em seu restaurante Central. Recentemente tive o privilégio de desfrutar dessa experiência inesquecível no restaurante de Martinez: e tive a oportunidade de provar coisas como as barrinhas de chocolate verdes, feitas a partir da folha do cacaueiro. Genial. Comer no Central é uma aula sobre biodiversidade do país. Insumos oriundos de pequenas comunidades, cultura, história, técnicas milenares, aparecem no prato, junto e misturado, lindamente apresentados. No menu degustação de 13 etapas, provamos criações com nomes como bosque andino, águas da Amazônia, extrema altura, solo do pacífico, cérebro do mar.
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O chef Jaime Pesaque reza na mesma cartilha da identidade gastronômica em seu restaurante Mayto ( entre os 10 melhores do mundo). Mayto quer dizer terra nobre. ” Exploro insumos da serra, da costa, mar, selva. Temos três tipos de selva no Peru e nossa biodiveridade é inesgotável. Só batatas, temos mais de 4 mil catalogadas e cultivados nos Andes”, diz Pesaque, que serve menu degustação com dez etapas: conchas com alcachofras; milho com flor de quinoa; enguias amazônicas com alho negro; costelas com batatas… Para harmonizar, vinhos alemães, espanhois chineses (a colônia chinesa no país é enorme) e peruanos também, feitos em Cusco.
“Temos bons exemplares com uvas criollas antigas que crescem ao sul de lima, regiões costeiras como Arequipa”, conta o chef Pedro Miguel Schiaffino, do Rosa Náutica, icônico restaurante instalado praticamente dentro do mar do Pacifico, de onde se tem uma das vistas mais bonitas da cidade. E um cardápio que mergulha fundo nesse mar farto em robalo, linguado, pargo, atum, marlim, salmões, camarões, lagostins, caranguejos, ostras, vieiras
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“Servimos o mais fresco possível, para valorizar o sabor do que vem do mar. É frescor sem frescuras” diz o simpático chef, que sabe tudo sobre insumos amazônicos. “Mas aqui é o mar que manda” . Foi a minha primeira parada no tour que fiz por Lima à convite do chef James Beckemeyer, dos restaurantes Cosme e Alma, ambos bem posicionados no cenário internacional. ” “Você não conhece o Peru? Não pode uma coisa dessas!”, me disse James. Dois meses depois lá estava eu circulando pela cidade banhada pelo Pacífico, de trânsito caótico.
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Cosme é Alma ficam no simpático bairro de Miraflores, espaço alegre, familiar, referência de um comfort food peruano. James trabalhou com Gaston Acurio, lida bem com fogo e do que vem do mar.
“Lima foi por muito tempo uma cidade passagem para quem ia conhecer Machu Picchu. O cenário hoje é outro, a gastronomia virou atração também”, diz
A casa mais premiada do país, o Maido, serve comida nikkei, mescla da japonesa com a peruana. Faz por merecer o tanto de prêmios que acumula. Numa casa de esquina, de três pisos, o salão é informal, com quipus pendentes do teto, cordões coloridos com nós usados pelos incas para se comunicar, transmitir dados. Os garçons são fluentes no português, para atender o maior público da casa: o brasileiro. Mesmo com os preços salgados praticados ali.
Além da riqueza da mesa peruana, a cidade de Lima tem um belo centro histórico, bons museus, artesanato de encher a mala, visual lindo do mar do Pacífico, pirâmides milenares por todos os lados e um dado curioso: não chove quase nunca em Lima. O último temporal foi em 1979. Não tem guarda chuvas nas lojas (chamam lá de Paraguas) e bares, restaurantes e até shoppings são abertos, porque não tem tempo ruim.
Cabe a nós bebermos nessa mesma fonte: mês que vem, o Rio será a cidade homenageada no maior evento gastronômico do mundo: o Gastronomika, em San Sebastian. Pela primeira vez na história do evento, uma cidade da América do Sul será estrela. Os holofotes de voltarão para a mesa carioca.