Em 1988, na Barra da Tijuca em pleno desenvolvimento, parte dos moradores chegou à conclusão de que mais valeria separá-la do Rio de Janeiro, criando um novo município, e, assim, garantir que a riqueza gerada no bairro nele fosse empregada. Uma campanha ganhou as ruas, nomes de peso passaram a apoiar a causa — como o publicitário Roberto Medina, criador do Rock in Rio — e a pressão foi tal que, no dia 3 de julho de 1988, com autorização da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), foi realizado um plebiscito para decidir o destino da região.
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A campanha que o antecedeu ganhou as ruas, com carreatas e simpatizantes da ideia distribuindo folhetos para convencer os vizinhos das vantagens de emancipar a Barra. Mas, no dia decisivo, dos 47.955 eleitores aptos a votar, apenas 6.217 compareceram às zonas eleitorais. Embora o “sim”, opção de 5.785 pessoas, tenha vencido, de nada adiantou, porque teriam sido necessários ao menos 23.978 votos para sua aprovação. A derrota naquele tempo não foi suficiente para que parte dos moradores deixasse de nutrir o sonho de ver o bairro separado do Rio. Nem a criação da nova Zona Sudoeste, sancionada ontem pelo prefeito Eduardo Paes. O grupo, que voltou a se articular no início da década, diz que sua batalha continua.
À frente da mobilização, o jornalista Roberto Monteiro de Pinho, presidente da Associação Nacional e Internacional de Imprensa, afirma que a luta não é por nomenclaturas territoriais, mas por soluções administrativas e estruturais para problemas crônicos da região.
— Não temos preocupação territorial; o foco da nossa emancipação é Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes. O robusto desenvolvimento dessas duas áreas dá respaldo suficiente para a criação de um novo município — defende.
Segundo ele, a região enfrenta desafios históricos que vão da segurança pública à mobilidade urbana, passando por questões ambientais, como a poluição das lagoas e a ausência de tratamento de esgoto. Pinho lembra, por exemplo, que, em 2016, durante os Jogos Olímpicos, a expectativa era que o metrô fosse além do Jardim Oceânico.
— O maior problema de todos é que o metrô não chega no Recreio — diz.
A criação da Zona Sudoeste é vista pelo movimento com desconfiança. Pinho questiona quais serão os benefícios práticos do novo zoneamento e alerta para impactos tributários.
— Quais os benefícios de juntar Barra, Recreio e Jacarepaguá? Pelo que vi nas planilhas de planejamento urbano, querem fazer uma simetria de IPTU. Jacarepaguá passaria a ter um imposto igual ao da Barra, que é um dos mais altos da cidade. E não houve audiência pública para ouvir a população — critica.
Autor do projeto, o vereador Dr. Gilberto (SD), no entanto, já afirmou que, em resposta a uma consulta sobre o tema feita por ele e pelo presidente da Câmara dos Vereadores, Carlo Caiado, a Secretaria municipal de Fazenda informou que não haveria modificação no valor do IPTU, pois as Áreas de Planejamento da cidade, ponto crucial no cálculo do orçamento da cidade, não seriam modificadas.
Com os defensores da emancipação já alegavam nos anos 1980, Pinho afirma que a Barra tem arrecadação para ser autossuficiente.
— Já temos espaço para uma prefeitura na região do BarraShopping, empresas prestadoras de serviço e administração regional. O que falta é gestão. A Barra tem vida própria — diz.
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Ele acredita que a emancipação poderia garantir que os recursos da região fossem reinvestidos localmente, sobretudo em infraestrutura.
— O IPTU aqui é muito alto e o custo-benefício não é bom. É como pagar um condomínio caro e encontrar tudo desorganizado. A Barra cresce em ritmo acelerado, é a segunda região com mais empreendimentos imobiliários da cidade, mas continua sofrendo com congestionamentos, poluição e falta de transporte público — pontua.
Pinho afirma que a documentação necessária para a defesa da criação de um novo município já foi encaminhada à Alerj e que o movimento seguirá buscando apoio para o projeto:
— A emancipação não é fazer política, é buscar eficiência. Já apresentamos estudos de viabilidade econômica, estrutural e um plano diretor. A Barra tem arrecadação, identidade própria e condições de caminhar sozinha.