Dori Caymmi diz que ele e sua mulher, Helena, arrancaram a antena do carro para não haver risco de ouvirem o que se toca nas rádios daqui. A história ajuda a explicar por que o artista já afirmou fazer “música extremamente brasileira”. E por que seu novo álbum se chama “Utopia”.
— Fazer o tipo de música que eu faço na atual conjuntura é utopia — afirma. — Aos 82 anos, filho de Dorival Caymmi, seguidor de Tom Jobim, João Gilberto e Baden Powell, não posso fazer outra coisa. Sou amante do Brasil. Faço música pernambucana, baiana, mineira. Não posso cantar com 12 bailarinas atrás de mim. E não vai acontecer de eu fazer uma dupla sertaneja com meu irmão Danilo.
- The Town: Anitta deverá participar de show de J Balvin no domingo
- Bad Bunny: Rapper deixou Estados Unidos de fora de turnê por causa de política anti-imigração de Donald Trump
Por causa de declarações como esta, Dori virou uma espécie de malvado favorito da MPB: alguém muito admirado como cantor, compositor, violonista e arranjador, mas considerado pouco afeito a mudanças por parte das pessoas.
— A história da minha vida não é longa. Pega a minha primeira entrevista e eu já dizia o que digo hoje. Por que eu tenho que mudar? Podem me chamar de reacionário, mas sou feliz. Com as saracuras, os jacus, na Serra, com a minha mulher — enfatiza ele, que está morando no Rocio, em Petrópolis.
Dori morou 27 anos nos Estados Unidos. Trabalhou bastante como arranjador. Também gravou discos próprios, sendo indicado para o Grammy por dois deles.
— Fiz discos lá sempre pensando no Brasil. Trabalhava com o maior percussionista que já vi tocar, Paulinho da Costa. Quando fiz música americana, também foi com a cara do Brasil — ressalta.
No novo trabalho, lançado pela Biscoito Fino, Dori conta com muitos artistas com quem está acostumado a trabalhar, a começar pelo baixista Jorge Helder na produção. Paulo Cesar Pinheiro, seu compadre e parceiro mais constante, é o letrista de sete faixas — seis das quais inéditas.
Os outros são Roberto Didio (“O nome da moça”, um dueto com Mônica Salmaso), Sergio Santos (“Pelas mãos de algum poeta”, com participação do próprio Santos) e Ivan Lins (“Isabela”, em duo com o parceiro). Os conjuntos MPB-4 e Boca Livre também estão presentes.
Entre os músicos, mais gente que, com frequência, está por perto, como Paulo Aragão (violão), Itamar Assiere (piano) e Jurim Moreira (bateria).
— São profissionais maravilhosos, meus amigos. Se for trabalhar com pessoas novas, tem que explicar tudo, é mais difícil — justifica Dori.
Ele diz já ter passado por uma situação ruim quando fez uma versão da “História dos pescadores”, de seu pai, para a Orquestra do Estado de São Paulo — ele prefere assim, por extenso, pois “Osesp é palavrão”.
— Notei que a orquestra não tinha ideia do que era aquilo. O maestro amazonense explicou para os músicos quem era Dorival Caymmi — relata.
A capa de “Utopia” é um retrato seu, criança, feito pelo pai, que também era pintor.
— Quis mostrar que meu pai era um retratista fantástico — explica ele, satisfeito ao ouvir de outros que Caymmi continua sendo lembrado. — Sei que têm falado do meu pai, têm feito filmes. Isso é muito bom. Quem sabe essas pessoas também são reacionárias…
Dori tem pronto um livro de partituras com as “canções praieiras”, de Caymmi, escritas para o seu violão baseado no do pai.
Sempre lembrando o impacto que foi perder o pai e a mãe, Stella, num intervalo de 11 dias, em agosto de 2009, Dori se despediu em maio da irmã mais velha, Nana. Não viveram próximos tanto quanto poderiam, porque Nana morou na Venezuela, quando se casou, nos anos 1960, e ele passou muito tempo nos EUA.
— Era uma relação mais de estúdio, de cantora e arranjador, do que de irmãos — destaca Dori, fã de Nana. — Ela nunca teve pretensão de ser famosa, se lixou para isso. Tenho admiração por essa cantora. Cantava com a alma como nenhuma outra cantora faz. Com útero, ovário, tudo.
Desde a morte dos pais, ele perdeu a vontade de criar melodias, segundo conta. Passou a musicar letras de outros — que, por causa disso, passaram a enviar material frequentemente. Dori, que vem lançando um álbum por ano, planeja preparar um em 2026 para lançar em 2027. Na maior parte do tempo, curte a casa no Rocio.
— Escrevo olhando a natureza. Aproveito enquanto os deputados não destroem a Mata Atlântica — avisa ele, que plantou árvores frutíferas de um lado do terreno e brasileiras, como ipê e jacarandá, do outro.