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‘Ficar em casa sentindo luto da forma mais melancólica possível, não é que o meu pai gostaria’

BRCOM by BRCOM
setembro 14, 2025
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Arlindinho e Arlindo Cruz, em 2014 — Foto: Marcelo Martins

Uma semana após a morte do pai, no último dia 8 de agosto, Arlindinho Cruz, de 33 anos, tinha feito um show na quadra do Salgueiro. Justo ali, caiu a ficha em relação à perda da sua maior referência, o sambista perfeito, que passou oito anos com sequelas neurológicas severas, incluindo a perda de movimentos e da fala, após sofrer um AVC. Este domingo, Arlindo Cruz completaria 67 anos de idade.

— Quando ele estava vivo, apesar de acamado e tal, eu sempre falava dele no presente. E aí, no Salgueiro, pela primeira vez eu falei: “Não, meu pai foi um grande homem…” Fiz um texto assim, de improviso, e ao sair dali, me bateu uma coisa: “Caraca, meu pai morreu, sabe?” — comove-se Arlindinho. — Mas eu não encaro com tristeza não. Óbvio que a gente sente falta, às vezes fica um pouco mais caladinho, mais quietinho num canto. Aí vem um amigo, conta uma história, você se emociona, ri, chora, e lembra de muita coisa, com muita alegria.

Logo da morte do pai, aos amigos, de fato, foram abraçando Arlindinho, tentando tirá-lo de casa e levá-lo para o samba.

— Eu me enchi de coisa para fazer, a verdade é essa. Fiz samba-enredo para caramba, gravei, fiz show, acho que quis ocupar muito a mente para não ficar pensando muito. Procurei aumentar a minha rotina de trabalho para cansar o corpo e chegar em casa já para dormir — revela o sambista. — Confesso até que tenho dormido um pouco menos que o normal, mas estou aliviado, porque Deus levou meu pai para descansar, para ter conforto e muita luz.

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Assim, ele não teve nem dúvidas de que, no dia seguinte ao enterro, comandaria o seu tradicional pagode do Beco do Rato das segundas-feiras (“ficar em casa sentindo luto da forma mais melancólica possível, não é que o meu pai gostaria, e acho que eu nem mereço ficar sofrendo assim”).

E, alguns dias depois, aceitou o convite de O GLOBO para uma entrevista, na sede do Cacique de Ramos, ali onde tudo começou para o pai, com o grupo Fundo de Quintal. Foi em uma tarde de sol, sob a tamarineira cujos frutos indiretamente o alimentaram (eram o desejo de grávida da mãe, Babi). Arlindinho logo se recordou da cena do documentário “Andança” em que Arlindo aponta para a barriga de Babi e diz para Beth Carvalho: “Te apresento o mais novo sambista do país!”

— Que responsa né? Imagina se eu fosse roqueiro, se eu gostasse de outro gênero ou não trabalhasse com música? — elucubra ele, que esta terça faz show na quadra da Império Serrano, cantando o pai, ao lado de Xande de Pilares e Marcelo D2.

Este ano, Arlindinho Cruz gravou um audiovisual numa segunda-feira, com 6 mil pessoas, numa roda de samba na Marina da Glória, com participações de Jorge Aragão, Diogo Nogueira, Teresa Cristina, Salgadinho, Bom Gosto e D2. E está preparando um álbum de estúdio, “comandado por um grande sambista, só que num papel diferente, de produtor”. Um disco em homenagem ao Arlindo?

— Também. Vai ser um disco em homenagem a uma parceria. Com arranjos de Jota Moraes, Rildo Hora e Prateado e produção do Pretinho da Serrinha com esse outro sambista — adianta, “mas sem dar spoiler”.

Ciente de que faz parte de uma dinastia do samba, ele diz se lembrar do avô Arlindo.

— Ele era um policial mais linha dura, da antiga, mas também sambista. Lembro de ver ele tocando, me passando alguns acordes. Era um cara de muita disciplina, eu gosto de todas as frutas porque ele me fez provar todas. E ele falava muito de estudo, achava que de repente eu poderia ser policial. Imagina eu, policial? (risos). Ele queria algo com que eu pudesse me sustentar — conta. — Já meu pai me deixava mais à vontade, mas ele queria que eu estudasse, sempre.

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Arlindo, por sinal, rodou a baiana quando a diretora do colégio em que Arlindinho estudava, alertando para as suas notas baixas, disse que o destino do menino poderia ser o de virar um “pagodeirinho”.

— Foi um ano muito difícil, um ano de mudança, a gente tinha acabado de se mudar pro Recreio. A gente estudou para caramba aquele ano, meu pai arrancou meu couro e eu consegui passar de ano, direto aí. Aquilo foi uma coisa que ofendeu muito a ele, o fato de ela ligar o samba à falta de estudo. E lembro também que eu sofri racismo no nosso condomínio, foi uma coisa horrível — diz. — As crianças estavam brincando na pracinha e uma vizinha meio que chamou todo mundo para ir tomar banho na piscina dela. Eu fui, e ela falou: “Uma pessoa da sua cor não vai entrar na minha piscina, vai sujar minha água.” Eu não tinha nem entendido que aquilo era racismo, tinha 11 anos, fiquei só assustado. Fui para casa chorando, minha mãe veio perguntar o que tinha acontecido e eu contei. Meu irmão, foi uma confusão! Foi brabo.

Arlindinho acha que demorou a demonstrar seu talento, embora aos 15 tenha feito seu primeiro samba-enredo para “uma escola adulta” (a União da Ilha).

— Aí fui emendando outros sambas-enredos, comecei a fazer um show aqui, outro ali, tive um tive um grupo de pagode, fui cantar por aí… acho que no projeto Dois Arlindos, quando meu pai me chama para fazer turnê, é que ele começou a ficar aliviado, porque viu que eu estava pronto, ou quase pronto — crê. — Tudo que sei foi vendo nos pagodes. Eu ia para a Tia Doca de domingo e aprendia aquelas sequências todas. Hoje, se precisar fazer um pagode de quatro horas, eu sei fazer.

Arlindinho e Arlindo Cruz, em 2014 — Foto: Marcelo Martins

O sonho do menino era ser parceiro do pai.

— Ah, eu perturbava ele para fazer música, mostrei uns 10, 12 sambas e aí ele pegou uma parte de um deles, umas cinco ou seis linhas, e fez o “Bom aprendiz”, nosso primeiro samba. O resto, ele jogou tudo fora — diverte-se. — Aí a gente virou parceiro. Logo depois que eu já tinha ganhado dois sambas-enredo, ele me chamou para fazer um com ele na Império Serrano, para Dona Ivone Lara. Só eu e ele, para me testar mesmo. Ganhamos o Estandarte de ouro, o samba é lindíssimo.

Em suas contas, ele e o pai têm mais de 50 sambas juntos. Um trabalho que deixou algumas lições.

— Quando alguém queria compor com o meu pai, eu falava: “Cara, já vai com alguma coisa, não deixa para sentar junto como ele e começar do zero, porque senão a música vai virar 95% dele e 5% tua.” O raciocínio dele é muito rápido. E eu dizia também: “Se ele te der uma primeira, já vem com a resposta pronta, porque muito provavelmente ele teu deu a primeira, mas ele já sabe o que ele quer. Então, se tu sentar para fazer a segunda com ele, aí é que tu não vai fazer nada mesmo.”

A compulsividade de Arlindo também impressionava o filho:

— Meu pai fazia música todo dia. Quando ele não fazia uma música inteira, ele começava uma ou fazia uma melodia, todo dia tinha alguma coisa do processo criativo. A gente tinha um, dois shows na noite, e se ele tinha uma ideia ele ainda compunha depois. Era assim, nos sete dias na semana, ele fazia cinco sambas, seis sambas. Às vezes, eram até 10 sambas, uma média de feitura assustadora.

Só agora Arlindinho está começando a mexer no HD de composições do pai (“já achei uma dele com o Fred Camacho, por exemplo, que eu vou gravar, uma música lindíssima”), com muitos sambas que Arlindo deixou com a própria voz. Ele chuta que tem ali umas 60 músicas, que poderão vir a se somar a um repertório de 780 músicas de Arlindo gravadas por diversos intérpretes.

— A gente consegue entender que de fato a melodia ou a letra é dele. E vamos começar a divulgar isso, mandar para alguns amigos. Também muita coisa para terminar, vou ter que mandar para uma galera — conta. — Além disso, o (produtor) Bira Havaí deve ter umas 15 músicas inéditas do meu pai e o (cantor Leandro) Sapucahy deve ter umas oito. O (produtor) Prateado me falou que tem seis músicas, uma delas até parceria do Arlindo com meu padrinho, irmão dele, o Acyr Marques. Tem um montão de músicas do meu pai espalhadas aí, vou começar a procurar.

Ele conta ter hesitado muito antes de ouvir os sambas do pai no HD.

— E eu não gostava muito, porque às vezes eu ouvia a voz dele e me dava uma certa agonia. Eu ficava triste e aí parava de ouvir. Agora não, agora eu vou ter força para ver isso, pensar em quem vai ter um pouco mais a cara do quê.

Arlindinho diz ter uma escrita “às vezes menos intelectual” que a do pai.

— E, isso, tanto em harmonia quanto em letra. Mas o sarrafo também é muito alto, né? E sou mais preguiçoso — diverte-se ele, que foi gravado mais recentemente por Alcione, Diogo Nogueira e Marcelo D2. — O samba-enredo é a minha especialidade assim, é o que eu componho melhor. Esse ano estou na disputa na Vila Isabel, Viradouro, Mocidade Independente, Unidos da Tijuca… estou com uma encomenda para Niterói e ainda fiz um lá em São Paulo para a Casa Verde.

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Há 10 anos, Arlindinho fez cirurgia bariátrica.

— Pô, mudou minha vida, fiquei bonitão (risos). Isso me ajuda como artista até, fiquei mais confiante. Hoje é mais fácil jogar um futebol, brincar com meu filho — conta ele, pai de Luís (14), Maria Helena (12) e Antonio (6), e atualmente solteiro. — Quando operei, eu estava mais pesado do que meu pai. Eu estava com 158 kg, ele, 150 kg. Lembro que o ele foi contra, porque não conhecia direito a cirurgia.

Desde então, o sambista tem tido uma alimentação mais saudável, mas gosta ainda de beber. E diz não curtir as drogas que, muitas vezes, o pai consumia em excesso e que o levaram, muitas vezes, a repreender seu comportamento:

— Ele me ouvia, isso é que era bacana. Quando conseguia, ele me ouvia.

Arlindinho sempre soube que tinha em casa um patrimônio do samba. Mas só descobriu que o pai era famoso depois que ele apareceu na MTV num clipe de D2.

— Na minha cabeça de menino ali, de 11, 12 anos, eu era eu era filho de compositor, aquela coisa mais do autoral. Logo depois, comecei a ver os shows de São Paulo ficando maiores e aí fiquei de cara com aquele pai famosão — admite. — Ali em São Paulo eu vi meu pai dar autógrafo, aquela coisa do choro de fã, galera em cima, luz, palco bonito… aí eu falei: “Cara, é isso que eu quero ser também, quero ser amado assim também pelas pessoas.” E entrei a música para isso, para ser amado, para amar, para trocar energia com a galera.

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