Na plateia do Teatro Suam, em Bonsucesso, a menina de 10 para 11 anos de idade, moradora de Inhaúma, assistiu pela primeira vez a um show de uma cantora negra. Os aplausos para Sandra de Sá soaram como aprovação ao programa escolhido pela mãe, Sônia, uma mulher de bom gosto musical, sem a fama como pretensão, nem a menor ideia do que estava construindo na personalidade da menina.
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A filha em questão, Isabel Fillardis, cresceu com aquele som na cabeça. Virou cantora, atriz, escritora, apresentadora, uma multiartista, como ela mesma se define. Um pouquinho de cada talento de Isabel, de 52 anos, estará no espetáculo “Pretas do Brasil”, no qual ela emprestará sua voz a músicas gravadas e imortalizadas por cantoras negras.
A turnê, com ingressos gratuitos, começa por Brasília, nos próximos dias 19 e 20, no Teatro Caixa Cultural. Em seguida, o show desembarca no Rio, no Teatro Nelson Rodrigues, em 24 e 25 de outubro. E vai até São Paulo, em 20 de novembro, no Teatro Sérgio Cardoso.
Cada canção, uma homenagem. A intérprete vai celebrar Dona Ivone Lara, Elza Soares, Zezé Motta, Mart’nália, Leci Brandão, Alcione, Ludmilla, Luedji Luna, Iza, Liniker e, claro, Sandra de Sá — “altamente orgulhosa” com a homenagem.
“É importante mostrar para as pessoas que a música da mulherada preta existe, e é fantástica. Vamos parar de correr atrás e chegar junto”, exalta Sandra.
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Com roteiro do ator e produtor cultural Well Aguiar, namorado de Isabel, o espetáculo levou um ano para ser construído. A missão exigiu uma imersão na essência de Fillardis, com quem se relaciona há 4 anos: “Foi um mergulho na alma dessa mulher que hoje chamo de meu amor. Temos outros projetos ganhando corpo pelo mundo, mas sinto que este é uma estreia, uma espécie de batismo artístico do nosso encontro”.
A ansiedade é do tamanho da saudade que Fillardis sente dos palcos de música. Ela custa a lembrar quando pisou pela última vez em um deles para cantar. Foi com a girl band As Sublimes, um grupo de música pop da qual fez parte nos anos 1990.
“Esse show é uma oportunidade para as pessoas me verem, reverem ou conhecerem. Ao longo da carreira, fiz teatro musical, mas há muito tempo não me vejo cantando sozinha, de frente, sem escudo, sem personagem”, diz ela, puxando pela memória que a conduz, com um pouco mais de esforço, ao início de tudo: uma poltrona do Teatro Suam, diante do palco, ovacionando Sandra de Sá, uma das “Pretas do Brasil”.