São 57km que distanciam a residência fixa de Conceição Evaristo, em Maricá (RJ), do Morro da Conceição, região central do Rio, casa que ocupa para os compromissos na capital carioca.
— Eu diria que eu tenho um espírito cigano, dos povos nômades. Têm determinadas culturas africanas que os povos são nômades. Eu gosto muito desse trânsito de lá para cá. Ainda faço trânsito também para Belo Horizonte, onde a minha família está toda lá. E acho que em cada lugar que a gente chega, há uma sedução.
Ela é a grande homenageada na 10ª Festa Literária Internacional de Maricá que termina neste domingo (14), com uma mesa de nome que lhe é bastante peculiar, “Escrevivências” (17h30), ao lado de Bárbara Carine, Eliana Alves Cruz, Jeferson Tenório, com mediação da jornalista Flávia Oliveira.
— Eu pretendo falar um pouco sobre a escrevivência, uma temática que nasce como um conceito na área da literatura. E hoje nós vemos várias áreas do conhecimento trabalhando com o conceito de escrevivência.
A escritora é reconhecida pela “escrevivência”, um conceito literário que descreve a escrita fundamentada nas vivências das mulheres negras brasileiras, abordando temas como desigualdade racial e maternidade.
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Sem joias nem acessórios, Conceição Evaristo recebeu O GLOBO em sua casa em Maricá, de cara para uma lagoa linda, quase um “pé na areia” de tão próximo. Na frente da casa de paredes amarelas e portão marrom, insiste em crescer um pé de mulungu, que ela já contara antes ser motivo de uma conversa com suas antepassadas numa fazenda histórica em Valença. Mas isso é assunto para mais tarde, no decorrer deste texto, já que um outro assunto é mais importante para abrir os 60 minutos de entrevista. Prestes a completar 79 anos (29/11) e, antes que chegue aos 80, em 2026, ela pretende parar tudo para fazer o que mais lhe convém: escrever.
— Se eu pudesse fazer um acordo com quem rege a vida, eu ia negociar assim, me dá um tempo de vida para eu ler tudo que eu tenho. Aí ele ia dar um tempo quase eterno, né? Porque eu tenho uma biblioteca imensa. No ano que vem eu quero parar, eu tenho projetos de trabalho, inclusive com a UFF, vou fazer uma residência artística numa Universidade de São Paulo, que agora me falhou o nome, mas eu quero muito escrever, eu preciso muito escrever. O que eu mais quero é um tempo para escrever — disse Conceição, um dia depois de a – também mineira – ministra Cármen Lúcia, abrir a sua fala no julgamento do 8 de janeiro com um poema de Affonso Romano de Sant’anna.
— Um discurso que fale mais sobre a identidade de um povo é um discurso literário. Porque a literatura, como ela não tem pretensão de ser, ela acaba sendo. Uma poesia, um texto em prosa, eu acho que tanto ele fala das grandezas de um povo, como ele fala também das mazelas e do desejo de um povo.
Sua agenda até os 80 anos está agitada. Em breve, ela vai para a Inglaterra e Alemanha homenageada pela Festa Literária das Periferias (Flup). No próximo carnaval, será tema do desfile da Império Serrano.
— No momento eu estou lendo a história da Império Serrano, que é um livro de Rachel Valença. Então, entre uma escrita e outra, porque eu estou escrevendo um prefácio para a minha dissertação de mestrado que vai ser publicada, estou relendo e apontando uma dissertação que foi feita 30 anos atrás, como esse processo de estudo de autoria negra, como que ele foi sendo acrescentado ao livro ao longo do tempo.
Para ela, o céu de Maricá é diferente de todos os outros. — Se você andar a pé, não precisa olhar para cima. Você tem a impressão que o céu aqui te olha.
No Rio, Conceição vive cercada de ancestralidade, já que firmou pouso no território conhecido como Pequena África, onde apontaria alguns ativos turísticos de importância [única para a história do povo negro que habitou e ainda habita aquele CEP.
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Tem o Muhcab, que é o Museu de História e Cultura Afro-Brasileira, e o Cemitério dos Pretos Novos, que tem uma história muito bonita e triste, porque os nossos antepassados estão enterrados lá. Tem a Casa de Escrevivência, que é a nossa casa, que a gente chama de “casa de metideza”, porque ela é um espaço talvez um pouquinho maior que esse espaço aqui. Um local de memória pra gente, a gente chamaria de Campo Santo. Tem a ONG do Betinho, Ação e Cidadania, logo em frente ao Valongo, além de toda aquela área ali dos bares, incluindo o Angu do Gomes, para tudo eu adoro angu, e a Casa Porto.
Há algum tempo em Valença para ministrar um curso, Conceição Evaristo participou de um passeio por uma fazenda colonial, onde descobriu, bem próximo de onde era a senzala, o tal mulungu.
— Era uma árvore sem uma folha e só flores. Fui pesquisar, mulungu é comum até no Brasil, não é muito, mas ele dá em determinadas regiões e tem um efeito sedativo. A raiz, a casca do mulungu. Ele é bom para pressão alta. Ele provoca sono. Aí vem a ficção… (risos).