Um novo termo vem ganhando espaço nas redes sociais e provocando conversas importantes: shreking. Inspirado no personagem Shrek, o conceito se refere à escolha de se envolver com alguém considerado “menos atraente”, partindo da expectativa de que essa relação será mais estável, com menos risco de traição ou rompimentos inesperados. Na prática, é como se alguém dissesse: “eu, que sou mais bonito, escolho me relacionar com alguém menos bonito, porque assim tenho mais garantia de fidelidade e estabilidade”. Parece racional, mas é uma visão infantil das relações, uma escolha movida mais pelo controle do que pela conexão genuína.
- Marina Ruy Barbosa entrega detalhes sobre viver Suzane von Richthofen em série: ‘Manipuladora’
- ‘Minha Suzane é extremamente fria e manipuladora’, diz Marina Ruy Barbosa
Para o psicanalista Eduardo Omeltech, essa tendência reflete um cansaço coletivo. “Vejo isso com atenção. É compreensível que tanta gente esteja buscando alívio. A geração Z está saturada de swipes, ghostings, decepções e relações que duram menos que uma série no streaming. Baixar a régua estética pode ser um respiro para sair da lógica do consumo rápido de pessoas. Mas será que é só isso que precisamos? A beleza não pode ser o centro da escolha, e nem deve”, afirma.
Segundo ele, a discussão tem valor por tirar o peso da estética como único critério de amor, algo que há décadas sufoca e segrega. Quando a aparência deixa de ser prioridade, outros fatores ganham espaço. Mas parar apenas na questão estética pode ser falho, já que tanto na beleza quanto na feiura existem aspectos funcionais e disfuncionais.
O ponto central está em escolher alguém que compartilhe valores, visão de mundo e planos de futuro. Caso contrário, o que começa como pacto de segurança pode se transformar em manipulação, chantagem emocional ou ressentimento.
Omeltech alerta que relacionamentos precisam nascer da conexão, não do medo. “Quando o motor da escolha é o medo de ser traído ou abandonado, criamos vínculos frágeis. E vínculos frágeis não sustentam vida longa. Como costumo dizer aos meus pacientes: tudo aquilo que tentamos controlar pelo medo acaba virando prisão. E prisão não é amor, é cativeiro emocional.”
Para ele, quando a base é a compatibilidade de valores, estilo de vida e visão de mundo, o relacionamento flui com liberdade, leveza e parceria.
O fenômeno do shreking provoca, assim, uma reflexão sobre os motivos das escolhas afetivas. Afinal, a beleza é cultural e subjetiva. A questão que se impõe é: estamos escolhendo para evitar dor ou para viver amor? Estamos abrindo mão de desejos legítimos apenas para não reviver feridas antigas?
Talvez o próximo passo não seja apenas baixar a régua estética, mas elevar a régua emocional. Mais do que alguém que ofereça segurança, trata-se de encontrar quem caminhe ao lado, compartilhe valores e construa uma história que seja espaço de cura e crescimento, e não repetição de traumas.