Das promessas de investimento às contratações de impacto que embalaram a inédita conquista da Libertadores e o título brasileiro de 2024, John Textor e o Botafogo pareciam viver um ciclo de euforia sem fim. Menos de um ano depois, a turbulência interna da Eagle e a batalha judicial entre o empresário e seus sócios podem colocar em xeque o futuro do projeto. O estopim veio em 17 de julho, em reuniões que marcaram a ruptura de confiança entre Textor e os demais acionistas da Eagle, que escancarou a crise na SAF alvinegra. Longe de uma definição, apesar da insistência do americano de que a disputa já não existe, a batalha nos tribunais já jogou luz sobre o funcionamento interno e os bastidores da SAF: para sustentar seus argumentos, ambas as partes anexaram aos autos documentos que até então não tinham vindo a público.
A partir desse material — atas de reuniões, trocas de correspondências e registros internos —, O GLOBO reconstituiu, passo a passo, a história do Botafogo nos últimos três anos e mostra como decisões de Textor no comando do clube pavimentaram a crise atual. A série não apenas volta no tempo para contar essa trajetória, mas também revela novidades, tanto recentes, ligadas ao desenrolar da disputa societária, quanto de anos atrás, que ajudam a compreender os rumos da SAF.
No Capítulo 1, mostramos: como estava o Botafogo antes da SAF, quem é John Textor e sua nova empreitada no Brasil, além do papel da Matix, intermediária que conduziu os primeiros movimentos através do dirigente Thairo Arruda.
Em 5 de fevereiro de 2021, a derrota do Botafogo para o Sport por 1 a 0 em casa, no Estádio Nilton Santos, decretou o rebaixamento do clube para a Série B com quatro rodadas de antecedência. A campanha no Brasileirão 2020, que havia começado no ano anterior e acabou em 2021 por conta da pandemia de Covid-19, teve apenas quatro vitórias — número menor do que o de treinadores que se sucederam no comando do time durante a temporada, cinco no total.
No entanto, a queda — terceira do Botafogo em menos de duas décadas — era reflexo de uma crise maior. Fora de campo, o clube, que não era campeão nacional desde 1995, acumulava uma dívida próxima de R$ 900 milhões, enquanto sua receita chegou a R$ 120 milhões naquele ano. A folha salarial de R$ 70 milhões não se comparava a rivais históricos que estavam no topo da Série A, alguns com gastos superiores a R$ 300 milhões. O Botafogo estava ficando para trás.
O retorno à elite foi pavimentado por um time bastante modesto. O início da campanha, sob o comando de Marcelo Chamusca, foi turbulento — e o técnico não resistiu à sequência de maus resultados. Quando Enderson Moreira assumiu, na 12ª rodada, o Botafogo estava na 15ª colocação, longe da briga pelo acesso. Nos meses seguintes, a arrancada para o título contou com protagonistas improváveis: Chay, meia contratado após se destacar na Portuguesa da Ilha do Governador durante o Campeonato Carioca, e Rafael Navarro, que começou a temporada no banco de reservas e terminou como artilheiro da equipe na competição.
No entanto, nessa temporada, foi um episódio fora das quatro linhas que ficará marcado na história do clube. Em agosto, foi aprovada e sancionada a lei 14.193/2021, que criou as Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e estabeleceu normas para a criação e gestão de clubes empresa. Mesmo antes da aprovação da lei, o Botafogo, internamente, já se preparava para migrar para o modelo de sociedade anônima desde 2019, quando o Conselho Deliberativo aprovou por unanimidade a transformação do departamento de futebol em empresa, em preparação a um novo modelo de clube-empresa. À época, inclusive, um plano de recuperação administrativa e financeira foi financiado por botafoguenses ilustres e aprovado pelo clube, mas a retração econômica causada pela pandemia acabou adiando o projeto.
A mudança na legislação, no entanto, deu maior segurança jurídica e acelerou o processo. Logo após a aprovação da lei, o clube, que na época era presidido por Durcésio Mello e tinha Jorge Braga como CEO, contratou a XP Investimentos para procurar um investidor disposto a assumir o futebol alvinegro. Na véspera de Natal, o clube divulgou a seus torcedores, por uma nota oficial, que havia recebido uma proposta pela compra da SAF pela “Eagle Holding, fundo americano liderado por John Textor”.
Quando se aproximou do Botafogo, John Textor — um empresário do ramo da tecnologia com um passado de altos e baixos no mercado financeiro — tinha um plano ambicioso: formar uma rede internacional de clubes de futebol, com pontos estratégicos em diferentes mercados. Na época, o norte-americano, então com 56 anos, já havia adquirido 40% do Crystal Palace, da Inglaterra, e o RWD Molenbeek, na Bélgica. Também tentou adquirir o Benfica, mas a negociação não foi à frente. O Brasil, recém-aberto ao capital estrangeiro com a lei da SAF, se tornava o próximo alvo natural.
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Antes de aportar no futebol, Textor — um ex-skatista que migrou para o mundo dos negócios após abrir mão da carreira no esporte ao sofrer uma lesão na cabeça — teve um histórico empresarial turbulento. Em 2006, ele surpreendeu o mercado ao adquirir a Digital Domain, um estúdio lendário de efeitos visuais fundado por James Cameron e outros parceiros e responsável por produções premiadas, como Titanic. Em seu período à frente da empresa, o estúdio ganhou o Oscar de melhores efeitos visuais em 2009, pelo filme “O curioso caso de Benjamin Button”, no qual Brad Pitt interpretava um homem que nascia idoso e rejuvenescia ao longo da trama.
Apesar de ter chegado ao negócio acompanhado de nomes de peso em Hollywood, como o diretor Michael Bay, Textor acumulou prejuízos e logo quebrou: apenas seis anos depois da aquisição, em setembro de 2012, a Digital Domain fechou as portas, demitiu 346 funcionários e, dias depois, declarou falência. Pressionado pelos sócios, Textor teve que renunciar ao cargo de CEO. Dois anos depois, ele acabou sendo processado pelo Estado da Flórida, que cobrava US$ 80 milhões por prejuízos aos cofres públicos decorrentes de incentivos econômicos concedidos à empresa em 2009 para que a Digital Domain se instalasse na cidade de Port St. Lucie. Em 2016, a ação foi encerrada por um acordo aprovado pela Justiça, e Textor recebeu a maior quantia de indenização entre as partes, US$ 8,5 milhões, além da concessão dos ativos tecnológicos da empresa.
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Por conta da falência da Digital Domain, o empresário também foi processado por fundos de investimento que afirmaram ter sido enganados por ele quando compraram ações da empresa apenas três meses antes da falência. A Corte de Nova York deu ganho de causa a Textor, alegando não haver “evidências de fraude” no caso, e ordenou que os fundos de investimento reembolsassem o empresário pelos honorários e custas judiciais. Em 2022, Textor contou ao GLOBO que a falência da Digital Domain foi o “momento mais solitário de sua vida”: segundo ele, na época, todos os “falsos amigos” que o cercavam se afastaram e ele não tinha dinheiro nem para pagar a mensalidade da escola dos filhos — as crianças só seguiram matriculadas porque ele tinha, na época da bonança, financiado a construção do colégio.
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No final de 2013, Textor se juntou a ex-funcionários da Digital Domain para fundar outra empresa de tecnologia: a Pulse Evolution Corporation, especializada em produzir hologramas ultrarrealistas. À frente da Pulse, Textor chegou a ser chamado de “guru da realidade virtual de Hollywood” pela Revista Forbes, após a empresa desenvolver uma performance holográfica de Michael Jackson, morto anos antes, para o prêmio Billboard Music Awards, em 2014.
No entanto, na Pulse, Textor também acabou sendo alvo de acusações em outro litígio judicial. Em novembro de 2017, um grupo de investidores processou o empresário no tribunal do Sul da Flórida, alegando que ele os havia “induzido fraudulentamente” a investir milhões de dólares na Pulse para, posteriormente, “desviar os valores para suas próprias contas pessoais ou transferir para empresas de sua propriedade ou controladas por eles ou por sua família”. O caso foi revelado pelo repórter Lúcio de Castro em reportagens publicadas no site “ICL Notícias”.
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Na petição, os advogados dos investidores chegaram a afirmar que a Pulse funcionava como uma “empresa de fachada”: “desde que Textor assumiu como presidente, os únicos efeitos visuais produzidos foram o desaparecimento de dezenas de milhões de dólares dos investidores”, afirma a petição. Os investidores também acusaram Textor de se beneficiar com a quebra de suas empresas. “Uma vez que Textor esvazia uma empresa de todos os seus ativos e essencialmente a torna insolvente, ele cria uma nova entidade e continuava a enriquecer”, alegaram os advogados.
A defesa de Textor, por sua vez, alegou que a ação se baseava em “alegações infundadas” e era movida por “investidores estrangeiros frustrados por não conseguirem tomar o controle da Pulse de seus fundadores”. “Os autores apresentaram essas alegações sensacionalistas e infundadas contra a Pulse não porque realmente desejam reparação. Em vez disso, esse processo é meramente uma tentativa de usar o sistema judicial para obter vantagem nas negociações sobre o controle da Pulse”, escreveram os advogados do empresário.
Em junho de 2018, a ação foi encerrada por solicitação voluntária dos investidores de forma permanente — ou seja, sem que eles pudessem entrar na Justiça novamente com o mesmo pedido. No Judiciário norte-americano, decisões do tipo geralmente são tomadas quando as partes chegam a um acordo fora do tribunal.
A grande virada na carreira empresarial de Textor aconteceu em 2020, após ele fundir a Pulse Evolution — já rebatizada com um novo nome, Facebank Group — com a FuboTV, um serviço de streaming esportivo adquirido pelo empresário. Meses após a fusão, a nova empresa foi listada na Bolsa de Valores de Nova York, atingindo um pico de avaliação de mercado de mais de US$ 8 bilhões, tornando-se um dos IPOs (sigla para o equivalente em inglês de “Oferta Pública Inicial”, processo pelo qual uma empresa vende suas ações ao público pela primeira vez) de maior sucesso de 2020. Em alta, Textor deixou a empresa no final daquele ano e voltou sua atenção para o mundo da bola.
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A chegada de Textor ao Botafogo foi intermediada por dois jovens brasileiros que se conheceram cursando um MBA na universidade de Yale, Danilo Caixeiro e Thairo Arruda. Sócios da consultoria Matix Capital, eles viam na mudança da lei do clube empresa no Brasil a oportunidade de atrair capital estrangeiro para equipes de massa e fizeram um primeiro contato com Textor pelo Linkedin, em junho de 2021, quando leram notícias sobre o interesse do norte-americano em comprar um clube em Portugal — naquele mesmo ano, Textor já havia comprado 40% do Crystal Palace e estava em busca de outros clubes para criar uma rede. Logo, a dupla o convenceu que, com a lei das SAFs, o Brasil seria um bom local para investimentos.
Inicialmente, Textor cogitou investir no América-MG, mas foi convencido pela dupla a mudar os planos pelo potencial inexplorado do Botafogo, um clube tradicional, com torcida grande e situado no Rio de Janeiro, cidade conhecida globalmente. As negociações para aquisição da SAF do clube não duraram 30 dias: Textor desbancou um fundo de investimento que acenou com uma proposta semelhante e arrematou a SAF com a promessa de fazer investimentos de R$ 400 milhões em até três anos — sendo R$ 50 milhões imediatamente, antes mesmo da assinatura do contrato.
A SAF Botafogo foi constituída formalmente em 28 de dezembro de 2021 e, em março do ano seguinte, o controle do futebol foi oficialmente transferido a Textor. Uma de suas primeiras medidas, como presidente do Conselho de Administração, foi assinar um contrato de prestação de serviços de consultoria com a empresa de Caixeiro e Arruda — que, por sua vez, assumiu o cargo de CEO da SAF por indicação de Textor. Nas atas das reuniões do Conselho de Administração, não há informações sobre o valor do contrato.
Em julho passado, a rescisão do contrato com a Matix foi aprovada pelo Conselho de Administração, assim como o pagamento de uma multa rescisória pelo distrato. Na reunião — que teve a participação de Arruda, sócio da empresa, como secretário —, os conselheiros também decidiram que a SAF também assumiria o pagamento de um “Preço de Exercício” à empresa. A ata não menciona os valores da rescisão. Arruda, no entanto, segue no cargo de CEO.
Atualmente, a Matix briga, na Justiça, com outra SAF, a do Vasco. A empresa foi responsável por intermediar as conversas entre o clube e a 777 Partners, empresa de investimentos norte-americana que comprou 70% da SAF do Vasco em 2022 e foi afastada do controle do futebol do clube dois anos depois. Na ação, a firma de consultoria alega que tem direito a receber quase R$ 16 milhões pelo serviço prestado.