Sean Wittmeyer pareceria altamente empregável. Ele tem mais de uma década de experiência em arquitetura e design de produto, habilidades impressionantes em programação e dois mestrados. Suas qualificações o tornam valioso em dois setores — tecnologia e construção — que impulsionaram o crescimento da economia dos Estados Unidos nos últimos 15 anos.
- ‘Chocada’: Ex-chefe de estatísticas de emprego dos EUA relata choque ao ser demitida por causa de dados que desagradaram Trump
- No Brasil: Desemprego cai para 5,6% em julho, menor nível da série histórica, puxado pelo emprego com carteira
Mas a atividade da construção enfraqueceu no país desde 2023, depois que o Federal Reserve (FED), o banco central americano, começou a aumentar as taxas de juros, e muitas empresas de tecnologia iniciaram demissões na mesma época.
Isso ajuda a explicar por que Wittmeyer, de 37 anos, está desempregado há um ano e meio, desde que perdeu o emprego em desenvolvimento de negócios em uma empresa que cria softwares para auxiliar projetos imobiliários. Ele tem estado tão ansioso para obter renda que chegou a se candidatar a vagas de nível de estagiário, apenas para ouvir que era qualificado demais. “Não consigo nem trabalhar na lojinha de jogos de tabuleiro aqui na rua”, disse.
Quando o governo federal dos EUA divulgou os números de mercado de trabalho de agosto em 5 de setembro, a taxa geral de desemprego ainda estava relativamente baixa, pouco acima de 4%. Mas por trás dela havia uma estatística preocupante: a parcela de desempregados que estão sem trabalho há mais de seis meses — considerada de “longo prazo” — subiu para sua maior fatia em mais de três anos, chegando a quase 26%.
A tendência alarmou alguns analistas do mercado de trabalho. “Um aumento desse tipo é inédito fora de períodos de recessão”, disseram economistas do Federal Reserve Bank de Richmond, uma das unidades regionais do banco central americano, referindo-se ao agravamento constante do desemprego de longa duração.
Economistas do Goldman Sachs também expressaram preocupação recentemente de que o colapso no número de vagas abertas “corre o risco de excluir” aqueles que já estão desempregados.
- Fed: dissidência solitária em decisão de juros mostra que BC dos EUA segue unido sob a pressão de Trump
Mas tão surpreendente quanto o aumento do desemprego de longa duração é o grupo de trabalhadores que cada vez mais o impulsiona: os com diploma universitário. A fatia dos desempregados de longa duração com ensino superior subiu de cerca de um quinto há uma década para aproximadamente um terço hoje, segundo dados do governo compilados por Matthew Notowidigdo e Jingzhou Huang, da Universidade de Chicago. O problema se agravou nos últimos dois anos, após uma melhora temporária.
Economistas citam várias razões para essa tendência. Hoje há simplesmente mais graduados universitários do que havia há dez anos, e o mercado de trabalho para pessoas sem diploma melhorou, reduzindo a participação deles entre os desempregados de longa duração.
Mas os empregadores também parecem precisar menos de trabalhadores com ensino superior, impulsionados por mudanças tecnológicas, automação e, mais recentemente, pelos cortes do presidente do país, Donald Trump, no funcionalismo e no financiamento federal, que afetaram desproporcionalmente os diplomados.
— Os dados sinalizam que há uma reestruturação em andamento — disse Andreas Mueller, especialista em desemprego de longa duração da Universidade de Zurique. — As pessoas estão perdendo empregos e não conseguem encontrar vagas em ocupações de alta qualificação.
Qualquer período de desemprego pode ser traumático, mas o impacto psicológico e financeiro do desemprego de longa duração tende a ser especialmente grave. Mais de 200 pessoas responderam a um questionário do New York Times sobre estar sem trabalho por mais de seis meses, e muitas mencionaram depressão ou ansiedade. Algumas chegaram a aludir a pensamentos suicidas.
— Eu cumpri todos os requisitos de ‘sucesso’ a vida inteira: fui para a faculdade, me formei, construí uma carreira — escreveu Katie Gallagher, ex-diretora de vendas e marketing em Portland, Oregon. Ela está sem trabalho há quase um ano e estimou já ter se candidatado a mais de 3.000 vagas.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/A/v/QBmuzRQZAgvJtszpMqxA/whatsapp-image-2025-09-17-at-20.47.23.jpeg)
— O estresse da rejeição é insuportável, junto com a ameaça iminente da insegurança financeira — continuou Gallagher, de 34 anos. — Nunca senti uma depressão como essa na minha vida.
Em entrevista, Gallagher disse ter US$ 6.000 (cerca de R$ 31.866) em dívidas de cartão de crédito e depender de assistência alimentar suplementar. Relatou ainda que recentemente pegou emprestado cerca de US$ 4.000 do irmão para se matricular em um curso de automação em IA e começou um negócio para ajudar outras empresas a automatizar funções como vendas e integração de clientes.
A demanda por trabalhadores universitários parece ter diminuído na última década, segundo vários estudos de economistas. Mesmo antes do lançamento do ChatGPT, softwares de contabilidade e formas anteriores de inteligência artificial usadas em áreas como finanças e planejamento de mercadorias já tornavam obsoletos alguns profissionais qualificados. Dados da plataforma de empregos Indeed mostram que a proporção de anúncios exigindo diploma caiu cerca de 6% desde 2019.
- Entenda: CEO da Gap incentiva funcionários a ‘compartilhar opiniões’ sobre assassinato do líder conservador Charlie Kirk
— Houve grandes avanços em IA por volta de 2016 — disse Lawrence Katz, economista do trabalho em Harvard.
O rápido desenvolvimento da inteligência artificial só acelerou a tendência. Wittmeyer, que também vive em Portland, disse que os projetos de programação que costumava fazer — como criar uma ferramenta que calcula os tamanhos ideais de janelas para uma fachada — agora podem ser feitos por alguém bem menos qualificado.
— Qualquer pessoa com uma assinatura gratuita do Claude ou do ChatGPT poderia fazer uma boa parte do que eu fazia antes — disse.
Mueller, o especialista em desemprego de longa duração, afirmou que trabalhadores com diploma podem ter mais dificuldade para encontrar vagas em um setor em retração do que aqueles sem diploma, porque têm maior probabilidade de possuir habilidades ou conexões específicas daquele campo. Eles também podem ser excessivamente otimistas e demorarem a perceber que alguns de seus empregos tradicionais estão desaparecendo.
- Nos EUA: Congressistas levantam dúvidas sobre solução de Trump para a venda do TikTok
— Você se vê numa situação em que pensa: ‘Eu deveria ter aceitado aquele emprego antes’ — disse Mueller. — Esse mecanismo pode ser forte em um mercado em reestruturação, onde as pessoas precisam mudar de setor.
Jeremey Davis, que foi demitido como diretor sênior de engenharia na Nielsen, empresa de medição de audiência, recebeu uma oferta logo no início de sua busca, mas a recusou porque estava em entrevistas para outra vaga que preferia. Cerca de 11 meses, 1.200 candidaturas e 17 entrevistas depois de perder o emprego, ele ainda está sem trabalho.
— Apostei, e eles não me ofereceram a outra posição — disse.
Coronel da Guarda Nacional, Davis se voluntaria para turnos extras para pagar as contas. Ele afirma que o número de candidatos por vaga aumentou agora que é tão fácil se candidatar online, e teme que tenha ficado mais difícil para os candidatos se destacarem.
- Após demitir chefe de estatística: Trump apresenta dados econômicos alternativos
Emma Wiles, especialista no uso de algoritmos em recrutamento na Universidade de Boston, disse que a IA e outras ferramentas de software podem tornar o processo de contratação mais aleatório, ao criar uma enxurrada de candidaturas muito semelhantes. Isso pode prejudicar trabalhadores universitários, que antes talvez tivessem menos chance de serem ignorados.
Wittmeyer também se irrita com o que vê como uma explosão de candidaturas em sites como o LinkedIn. Ele já enviou mais de 200 e só obteve retorno de sete empresas. Enquanto isso, agradece por sua esposa ter um emprego estável e tenta transformar seu hobby — a criação de jogos de tabuleiro — em carreira.
Em 2023, ele e a esposa levantaram mais de US$ 100.000 em sites de financiamento coletivo para criar um jogo em que os jogadores simulam ser magnatas que constroem resorts de esqui, obtendo por fim um pequeno lucro. Ele está finalizando outro jogo, no qual os participantes competem para se tornar a companhia aérea mais popular em um aeroporto, e espera arrecadar fundos para ele neste outono.
— Esse será nosso terceiro jogo — disse, acrescentando com esperança: — Acho que vai dar algum dinheiro.