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Em um pronunciamento, Soranz afirmou que não se “intimidará” com acusações e reafirmou o dado que este ano as unidades de saúde do município tiveram que fechar 516 vezes por problemas de segurança. Ele ainda afirma que enviou um levantamento sobre esses números e o mapeamento feito pela prefeitura. O documento, que o GLOBO teve acesso detalha 195 pontos de venda e uso de crack na cidade. Desses, 72 são classificados como “alto risco” e “risco extremo”, além de 7 com possibilidade de confronto.
“O que vemos hoje é o resultado de uma política de segurança desestruturada, que abandona territórios e deixa a população refém da violência. A saúde resiste, mas precisa de um Estado presente e forte. Não existe “cracolândia” sem venda de crack. Com um mínimo de inteligência investigativa, é possível identificar de onde vem a droga e interromper o abastecimento que alimenta esse cenário de degradação social”, diz trecho do pronunciamento.
O episódio, que envolveu a tentativa de execução de um paciente na unidade nesta quinta-feira, gerou um embate político entre secretários municipais e estaduais. De um lado, o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, aliado do prefeito Eduardo Paes, que é pré-candidato ao Governo do Rio. Soranz tem feito diversas críticas a política de segurança do Estado. Do outro, os secretários de Polícia Militar, Polícia Civil e de Segurança Pública. Em coletiva sobre o caso, nesta quinta-feira, o secretário de saúde foi chamado “mentiroso” e acusado de causar “insegurança à população”. O prefeito Eduardo Paes e o governador Cláudio Castro não se atacaram diretamente.
Ao comentar o caso, Eduardo Paes manteve um tom ameno, não atacou o governo do Rio e disse confiar nas polícias Civil e Militar para elucidar o caso e prestar apoio:
— É importante que a polícia esteja sempre atenta para acompanhar esses casos e discutir com a prefeitura para termos mais segurança e não termos esse tipo de situação acontecendo. Nada de mais grave aconteceu, mas tivemos homens armados invadindo uma unidade de saúde e a situação foi administrada por um acaso, por eles não terem encontrado o delinquente que estava passando pelo atendimento — disse Paes.
Logo pela manhã, Soranz afirmou que, só neste ano, as unidades de saúde precisaram interromper o funcionamento 516 vezes devido à insegurança pública. Em resposta, o secretário de Segurança Pública, Victor Cesar, disse que o secretário municipal é um “mentiroso”:
— O secretário Soranz é um mentiroso ao dizer que a segurança pública do Rio de Janeiro está um caos e que existe insegurança. Hoje nós temos os melhores números da série histórica da segurança pública do estado. Então ele está mentindo. Esse tipo de mentira causa insegurança à população. Ele afirmar ao vivo que existem 516 ocorrências de segurança pública envolvendo hospitais é uma mentira. Hoje nós temos pouco menos de 20% de ocorrências envolvendo hospitais e unidades do município. Então precisamos ter responsabilidade para levar segurança às pessoas de bem que moram naquela comunidade — disse.
Em seguida, Victor Cesar fez uma provocação ao governo municipal:
— Se a Prefeitura, de alguma maneira, quer ajudar a segurança pública, que faça isso colocando os guardas municipais nas unidades hospitalares, devolva os policiais militares cedidos à Prefeitura e pague os R$ 115 milhões que deve à Polícia Militar referentes a salários da contrapartida dos cedidos. Quer ajudar? Contribua com a segurança pública, não fazendo uma declaração irresponsável como foi a desta manhã.
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Após as críticas dos secretários de segurança e Polícia Civil, Soranz voltou a falar sobre a segurança pública do Rio.
— O secretário de segurança parece que não está vivendo no Rio de Janeiro. Ele acha que é normal invadir uma unidade de saúde com 300 pacientes internados e não ter o mínimo de inteligência na polícia para investigar o que está acontecendo. […] Se ele não vê todo dia uma unidade de saúde sendo fechada por violência, ele não está vivendo nesta cidade. É uma política que envergonha qualquer cidadão do Estado do Rio de Janeiro — disse Soranz.
De acordo com ele, a violência impacta diretamente no funcionamento das unidades de saúde.
— Como secretário de saúde, sofro o impacto do que está acontecendo. Não há um profissional de saúde que consiga trabalhar com tranquilidade numa situação como essa. Esse evento vai acontecer hoje, mas ele deixa sequelas no hospital. Ele deixa sequelas para aquelas pessoas que sofreram esse ato de violência. […] É vergonhoso o que acontece na segurança pública do nosso Estado. Basta consultar a notificação diária de cada unidade: foram 516 fechamentos de unidades de saúde em 2025 — disparou.
O secretário de saúde também disse que o secretário de Segurança Pública “passa vergonha todo dia”.
— O secretário de Segurança Pública devia ter inteligência para entender o que acontece na nossa cidade e não passar vergonha, como passa todo dia com incursões que não levam a lugar nenhum, que não se consegue aprender a quantidade de armas que estão segurando, que cada dia permite mais espaços públicos que sejam ocupados pelo tráfico, pela milícia, que não consegue minimamente garantir que o estacionamento ao lado do Pedro II não tenha extorsão de milicianos — disse ele.
A Polícia Civil, no entanto, também nega que o estacionamento seja explorado pelo crime organizado. De acordo com Curi, o responsáveis pela administração do local possuem autorização judicial para funcionar.
O secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, também criticou Soranz nesta quinta-feira. Ele chamou o secretário de “irresponsável” e afirmou que ele “cria factoides”:
— É importante enfatizar a irresponsabilidade desse secretário, ao querer jogar para a plateia e criar factoides com mentiras acerca de fatos inexistentes em hospitais. Hoje ele disse que havia 516 ocorrências de invasões ou interdições de hospitais. Isso é mentira. Ele é um mentiroso. E podemos provar: a maioria dessas ocorrências não foi registrada em nenhuma delegacia da Polícia Civil.
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Nas últimas semanas, Soranz tem sido um dos principais críticos da política de segurança. Há cerca de dez dias, ele afirmou que o Estado não tem “nenhuma estratégia policial estruturada que garanta a presença do Estado dentro dos territórios”. A declaração foi feita um dia após a Prefeitura informar que homens armados ameaçaram operários que trabalhavam na obra da Clínica da Família do Vidigal e determinaram a suspensão do projeto. A Polícia Civil, no entanto, disse que “o fato não passava de um boato, sem qualquer impedimento para a retomada da obra”.
De acordo com Curi, há uma tentativa de “politizar” a segurança pública:
— Estamos lidando com uma politização. Estão querendo jogar para a plateia, estão tentando politizar uma situação muito séria, que é a segurança pública.
Como mostrou o GLOBO no mês passado, Castro e Paes costuram um acordo de não agressão até as eleições de 2026. Um dos pedidos de aliados do prefeito é que o governador termine o mandato e não saia candidato ao Senado, evitando que Paes enfrente um candidato que tenha a máquina pública em mãos — o que poderia acontecer se Castro renunciasse.
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