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a transcrição do quarto episódio

BRCOM by BRCOM
outubro 27, 2025
in News
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Capa do audio - Caso Zero
  • Entenda a acusação: Quem são e o que pesa contra médicos acusados de integrarem máfia de transplantes de órgãos
  • Produção do ‘Caso zero’: Apuração levou dois anos e traz novos detalhes e entrevistas inéditas

“Caso zero” também pode ser ouvido nas principais plataformas de áudio, como Apple e Spotify.

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  • Abaixo, a transcrição do quarto episódio:
      • a transcrição do quarto episódio

Abaixo, a transcrição do quarto episódio:

André Borges: “Caso zero” é uma série de podcast em cinco episódios. Esse é o quarto episódio. Se você ainda não escutou os primeiros, a gente recomenda que você pause aqui e ouça antes os episódios anteriores.

Cláudio Fernandes: Eu estava no meu consultório. Gozado, eu saí do meu consultório, tinha um carro da polícia embaixo. Nem me toquei e fui em direção à Unimed. Para passar por lá, eu tinha que cruzar em frente ao antigo consultório do Celso e vi outro carro da polícia lá também. Pensei: “tem alguma coisa errada”. Fui até a Unimed, fiz uma visita a um paciente que eu tinha operado e voltei para casa. Aí parei na porta de casa, aí por cima, pelo lado, desceram vários carros da polícia. Vieram falar comigo, dizendo que havia uma ordem de prisão. Aí falei com um tenente: me permite que eu avise pelo menos minha esposa do que estava acontecendo. E fui para a delegacia.

André Borges: Esse que a gente ouviu agora é o cirurgião Cláudio Fernandes. Ele foi um dos médicos que participaram da retirada de órgãos do Paulinho na Santa Casa, em fevereiro de 2014. O Cláudio e outros dois médicos — o cirurgião Celso Scafi e o anestesista Sérgio Poli — foram condenados pelo juiz Narciso Alvarenga, que estava à frente da Vara Criminal de Poços de Caldas. Naquela época, ele era um juiz de primeira instância.

Bela Megale: Os réus que são condenados numa decisão de primeira instância costumam responder em liberdade até que seus recursos sejam julgados e esgotados. Mas, nesse caso, Narciso Alvarenga ordenou que os três médicos fossem imediatamente presos, assim que ele deu a sentença sobre o caso do Paulinho.

Bela Megale: Para o juiz, aqueles médicos representavam um perigo iminente para a sociedade, mesmo sendo presos 14 anos depois do acidente.

Bela Megale: Eu sou Bela Megale.

André Borges: E eu sou o André Borges. E esse é o “Caso zero”, a história que mudou o rumo do transplante de órgãos no Brasil. O podcast do jornal O GLOBO. Quarto episódio: Os médicos.

André Borges: No episódio anterior, a gente contou que os processos contra os médicos acusados pela morte do Paulinho foram separados em dois grupos. Os quatro médicos que atenderam o garoto no primeiro hospital, o Pedro Sanches, foram acusados de homicídio — por isso eles iam a um júri popular. A situação era outra para os outros três médicos que fizeram a cirurgia de retirada dos órgãos do Paulinho, o que aconteceu no segundo hospital, a Santa Casa. Eles foram acusados de retirar os órgãos e, por isso, levaram o menino à morte, infringindo a lei de transplantes. Então foram condenados diretamente pelo próprio juiz, o Narciso Alvarenga.

Bela Megale: Esse segundo grupo de médicos, formado pelo Celso Scafi, Cláudio Fernandes e Sérgio Poli, também foi dragado pelo caso. Durante anos, eles preferiram ficar em silêncio, por medo e desconfiança da mídia e da Justiça. Todos eles continuam morando em Poços de Caldas, e na nossa viagem para a cidade a gente procurou pelos três. Pela primeira vez, eles deram entrevistas para contar a sua versão da história.

Sonora Bela Megale: Meu nome é Bela, ele é o André. A gente tem horário com o doutor Celso Scafi agora.

Bela Megale: Celso Scafi é urologista e cirurgião. Você já escutou uma parte da nossa conversa com ele aqui no podcast. No primeiro episódio, ele contou sobre o dia da cirurgia, da retirada de órgãos do Paulinho. Tudo tinha corrido bem, e os órgãos retirados foram transplantados. Mas 12 anos depois, essa mesma cirurgia levaria Scafi para o banco dos réus.

Celso Scafi: Quando ele faz isso, então ele cria outro processo. E como não era processo por homicídio, e sim pela lei de transplantes, a gente não iria a júri popular. Ficaria a cargo de ele nos julgar de maneira singular. E aí então começa.

André Borges: E aí então começa! O que o Scafi chama de “outro processo” é o aditamento da denúncia pelo Ministério Público de Minas, que aconteceu em 2012. Com essa alteração — feita dez anos depois da primeira denúncia, apresentada pelo procurador federal Adailton Ramos — os três médicos da Santa Casa se tornaram réus, não por homicídio, mas por infringir a Lei de Transplantes. Eles teriam causado a morte do Paulinho quando retiraram os órgãos dele.

Cláudio Fernandes: E eu, que até então não me interessava muito por essa parte, vamos dizer assim, de legislação e tal… eu fiquei doido. Comecei a olhar tudo e comecei a coletar dados. E não só para agora, como para o futuro. Mas, se eu não tivesse coletado isso aqui, a gente não teria nada hoje aqui pra mostrar pra vocês. Então fui coletando, e também fui entregando muita coisa pros colegas. “Olha, tá acontecendo isso, isso, isso, é isso.” Mas a maioria das pessoas achava que era assim mesmo… O negócio era tão absurdo, tão absurdo, que ninguém, na verdade, achava que fosse acontecer alguma coisa da magnitude que aconteceu.

Bela Megale: E como prever que alguma coisa dessa magnitude aconteceria? Esse foi o Dr. Cláudio Fernandes que escutamos na abertura. Ele e os colegas até tinham sido indiciados pela Polícia Federal, mas não foram incluídos na primeira denúncia do Ministério Público, aquela de 2002. Isso porque os procuradores não viram crimes na conduta deles. A gente falou disso no episódio anterior. O Cláudio Fernandes nunca poderia imaginar que ia se tornar réu 12 anos depois daquela cirurgia.

André Borges: Desde que ele teve o nome envolvido no caso, o Dr. Cláudio passou madrugadas adentro debruçado em todo tipo de registro que envolvesse as acusações contra ele e seus colegas — laudos médicos, notas de jornal, conteúdos de internet e muitos documentos. Tudo foi catalogado numa espécie de biblioteca que o Cláudio montou sobre o caso, com caixas e mais caixas de material. Ele acabou se tornando um tipo de conselheiro dos outros envolvidos.

Cláudio Fernandes: E aí, em abril de 2013, eu recebi uma citação. Veio aqui um oficial de Justiça e me entregou o negócio sobre um aditamento sobre este caso, que pra mim foi um choque surpresa também. Eu não entendi nada. E, quando eu li a acusação, fiquei mais surpreso ainda, porque a acusação dizia que a gente tinha feito um transplante numa pessoa viva, causando a morte, entendeu? E aí eu falei: isso só pode ser uma coisa surrealista, não é possível. Se eles têm a arteriografia lá, têm todos… Se o próprio Ministério Público viu e concluiu que a criança já estava morta antes da retirada dos órgãos. Como é que era possível isso?

Cláudio Fernandes: E me veio à cabeça — eu até comentei isso com o meu advogado, José Arthur — eu liguei pra ele e falei: Olha, eu acho que aconteceu seguinte, sumiram com a arteriografia. Eu comentei isso com ele.

Bela Megale: A segunda arteriografia era uma prova incontestável de que o Paulinho já estava morto quando chegou na sala de cirurgia. Era a prova de que os médicos da Santa Casa não tinham cometido crime algum. Mas, como a gente já contou, esse exame desapareceu depois que foi apreendido pela Polícia Federal.

André Borges: Acontece que, para o juiz Narciso Alvarenga, era impossível esse exame ter desaparecido. Isso por uma razão muito simples: ele tem a convicção de que essa arteriografia, na verdade, nunca chegou a ser feita. Para o juiz, todos que alegaram ter visto ou participado desse exame mentiram. Na melhor das hipóteses, essas pessoas teriam se enganado. Narciso inclui nesse grupo até o procurador do Ministério Público, Adailton Ramos do Nascimento. Pra gente lembrar aqui: foi o Adailton que decidiu não denunciar os médicos da Santa Casa, justamente por alegar que teve acesso a essa segunda arteriografia.

Adailton Ramos: Me recordo que estávamos no prédio da Santa Casa quando apareceu, e me parece que o delegado da época… me esqueci o nome.

Bela Megale: Célio Jacinto.

Adailton Ramos: Isso, ele pega e faz a apreensão do documento.

André Borges: O senhor estava nesse momento?

Adailton Ramos: Estava nesse momento.

André Borges: Era a arteriografia da Santa Casa?

Adailton Ramos: Era a arteriografia, era a segunda arteriografia da Casa. Inclusive, não sei se foi lá, mas foi submetida a exame médico e tudo, e foi constatado essa segunda arteriografia… Ela foi apresentada ou obtida, se não me falha a memória, quando estávamos fazendo a busca e apreensão na Santa Casa. Lá dentro da Santa Casa, eu e a Polícia Federal.

Bela Megale: O Adailton garante que não apenas viu, como também pegou em suas mãos a segunda arteriografia para levar para análise de um médico independente. O objetivo era saber se aquele exame poderia ter sido fraudado.

Adailton Ramos: Nós apreendemos. Nós tivemos uma segunda arteriografia. Ela esteve no processo. Ela foi submetida a perícia ou a exame de médicos, e depois, posteriormente, quando o processo já estava concluído… eu levei essa arteriografia para um médico da UFMG. Liguei para o consultório e marquei com ele…

Sérgio Poli Gaspar: Eu só queria saber quem sumiu com a arteriografia e por que a Justiça finge que ela não existe. Quem está por trás disso tudo?

André Borges: Esse que escutamos agora foi o anestesista Sérgio Poli, o terceiro médico acusado e que ainda não tínhamos ouvido aqui no podcast. Ele nos recebeu em sua casa, em Poços de Caldas.

Sérgio Poli Gaspar: Então, assim, eu fico muito triste. Eu achava que, quando a gente envelhecesse, teria uma vida mais tranquila. Muito pelo contrário. Eu estou com 63 anos, estou morrendo de medo de ir pra cadeia injustamente por causa de uma mentira.

Bela Megale: Por muito tempo, Sérgio Poli foi alvo de acusações de Paulo Pavesi, mas por anos seu papel no caso foi apenas de testemunha. Só que em 2012, mais de 12 anos depois do acidente, ele também teve o nome incluído entre os denunciados pelo Ministério Público de MG pela morte do garoto. E essa denúncia foi acolhida pelo juiz Narciso. Em 2014, o Sergio Poli foi condenado por participar da remoção irregular dos órgãos do Paulinho. Ele é outro garante que conferiu a segunda arteriografia atestando a morte cerebral do menino assim que entrou na sala de cirurgia.

Sérgio Poli Gaspar: Troquei de roupa, peguei o carro, fui para a Santa Casa, pus a roupa do centro cirúrgico, entrei, todo mundo arrumando as salas. Aí envolve muita gente preparando mesa, instrumental. Preparei a máquina de anestesia, preparando o cadáver — vou chamar de cadáver porque toda vez que uma pessoa tem o diagnóstico de morte encefálica, ela é cadáver, faz-se o atestado de óbito naquele momento. Então, não é uma criança viva que chegou ali. Por quê que eu falo? Porque as arteriografias feitas na Santa Casa, que constavam a morte da criança, estavam no centro cirúrgico.

Bela Megale: Você chegou a…

Sérgio Poli Gaspar: Sim, eu vi, e vi junto o teste clínico que foi feito junto com o laudo do neurocirurgião. Presença de STOP, parada de subida, de progressão, de contraste. Isso é padrão mundial de morte encefálica — padrão ouro que existe. Uma vez eu vi a arteriografia, vi o diagnóstico clínico e o laudo do neurocirurgião: cadáver, morte encefálica.

Bela Megale: Era isso. O que os três médicos da Santa Casa relatam é que não tinha mais sangue chegando no cérebro do Paulinho naquele momento. Tanto o exame clínico como a segunda arteriografia confirmavam: aquela criança, no centro cirúrgico, tinha sofrido morte encefálica. Com esse diagnóstico, o quadro era irreversível. O paciente estava morto.

Sérgio Poli Gaspar: Mas chegou entubada. Me entregaram. A gente passou para a mesa, conectei no respirador porque era um respiro sozinho para os centros superiores da respiração. Estão todos mortos. Fiz uma droga que se chama Pavulon.

André Borges: Esse é um ponto muito importante, porque a presença do Sérgio Poli na sala de cirurgia e o uso do remédio Pavulon sempre foram temas questionados, tanto pelo pai quanto pela Justiça. Até na CPI que aconteceu lá em 2004, essa foi uma das perguntas feitas insistentemente pelos deputados: afinal, se o menino estava mesmo morto, por que era necessário um anestesista na cirurgia? É o próprio Sérgio Poli que responde.

Sérgio Poli Gaspar: O Pavulon é um relaxante muscular. Ele é coadjuvante. Ninguém faz anestesia com Pavulon, ele não faz dormir, Pavulon não tira a dor e não é um hipnótico. Ninguém dorme. Ele simplesmente curariza, ele simplesmente… a musculatura toda fica relaxada. Qual é o objetivo de usar isso? Para facilitar a entrada do cirurgião dentro do abdome e traumatizar o menos possível o órgão, para ser mais fácil, para não esgarçar, pra não traumatizar tudo — pra esse órgão não sair isquêmico, sair lesado de dentro da pessoa. Não adianta tirar um órgão lesado, tudo… você vai por numa pessoa e pelo tempo não funciona. Então isso aqui é usado pra relaxar a musculatura, pra facilitar o acesso cirúrgico dentro, em qualquer situação.

André Borges: Mas vamos insistir aqui. Se o menino já estava morto, por que era preciso relaxar a sua musculatura?

Sérgio Poli Gaspar: Morte encefálica são os centros nervosos superiores. A medula espinhal não faz parte do diagnóstico de morte encefálica, em nenhum lugar do mundo. Só que é um tecido nervoso, e é um tecido nervoso que tem reflexos. Então a pessoa está com diagnóstico de morte encefálica… Quando se incisa a parede… eu não uso o Pavulon, ou posso usar outras coisas, uma criança pode mexer, pode mexer um braço, pode mexer uma perna, pode arrepiar.

André Borges: Sérgio Poli diz que, se o doador se mexer durante a cirurgia, ele pode acabar comprometendo a retirada de um órgão.

Sérgio Poli Gaspar: Isso se chama reflexo de Lázaro.

André Borges: Reflexo de…?

Sérgio Poli Gaspar: Lázaro. Isso é descrito como reflexo de Lázaro. Ela pode encolher os ombros, pode mexer membros. Então, isso aí são reflexos de medula. Não são reflexos dos centros superiores.

Bela Megale: O que o anestesista diz é que toda medicação que ele usou tinha um único objetivo: fazer com que os órgãos do Paulinho fossem retirados nas melhores condições possíveis para serem doados.

André Borges: Depois que a cirurgia foi concluída, Sergio Poli voltou para casa. Seu envolvimento com a história parecia ter acabado ali. Sua participação nunca tinha sido questionada, nem mesmo quando a morte do Paulinho se transformou em um caso de polícia. Ele nunca foi suspeito. Ele não tinha sido sequer indiciado pela Polícia Federal, nem denunciado pelo Ministério Público. E foi assim por mais de dez anos.

Sonora Imprensa: No jornal Mantiqueira, de circulação diária em Poços de Caldas, a sentença com a condenação dos médicos foi publicada na íntegra, em oito páginas, por determinação judicial. Na sentença da última quinta-feira, os três médicos foram condenados por remoção ilegal de órgãos do menino Paulo Pavesi, que tinha, na época, 10 anos. Foi no ano 2000. Dois dos três médicos estão no presídio de Poços de Caldas. Cláudio Rogério Carneiro Fernandes foi condenado a 17 anos de prisão. Celso Roberto Frasson Scafi, a 18 anos. E Sérgio Poli Gaspar, que está foragido, a 14 anos de prisão.

Bela Megale: No dia 6 de fevereiro de 2014, o juiz Narciso condenou os três médicos que fizeram o transplante do Paulinho. Ao mesmo tempo, ele determinou que o jornal Mantiqueira, o principal da cidade de Poços de Caldas, publicasse na íntegra a sua sentença e com chamada de capa. Foram necessárias oito páginas de jornal para caber todo o conteúdo. O Rui Alves, que segue até hoje como diretor do jornal Mantiqueira, nos contou como isso aconteceu.

Rui Alves: Na verdade, é o seguinte: no dia em que saiu a sentença, nós recebemos uma intimação do juiz. A intimação dizia que era para publicar a sentença na íntegra. Como nós não somos um jornal oficial e nem publicamos editais e essas coisas — é um jornal particular — aí a gente, junto com a minha assessoria jurídica, fomos indagar quem iria custear, já que eram sete ou oito páginas de sentença. Aí nós fomos ao juiz e o juiz disse para a gente… Ele disse para o meu advogado colocar as custas do processo, colocar nos autos… Que o processo tinha custas, e que isso aí seria pago posteriormente.

Bela Megale: Depois de analisar a situação, o jornal decidiu que o melhor caminho era publicar a sentença.

Rui Alves: Aí nós acatamos a sugestão de publicar e colocar nos autos. Foi isso que foi feito. Mas, até ontem, por exemplo, isso aí não foi finalizado. Nós não recebemos. É um dinheiro para o jornal, que é um jornal pequeno, bastante significativo.

Bela Megale: Qual o valor estimado hoje?

Rui Alves: O valor estimado hoje para oito páginas é mais ou menos entre 120 e 150 mil reais nos valores de hoje.

André Borges: De um lado, a sentença ocupava as páginas dos jornais. De outro, os médicos da Santa Casa eram presos.

Celso Scafi: E até que chega no dia 6 de fevereiro de 2014: eu estava acabando de atender e fui pra Santa Casa, recebi um telefonema. Ó, a polícia está te esperando na frente da sua casa.

André Borges: O senhor estava trabalhando no hospital?

Celso Scafi: Eu tinha operado na Santa Casa. Aí fui lá e chegou uns quatro, cinco viaturas de polícia, parecia o Marcola. Aí o cara falou: Nós precisamos prender o senhor.

André Borges: Esse foi o Celso Scafi. Ele foi o primeiro médico preso após a ordem do juiz Narciso. Logo depois, o Cláudio Fernandes também chegou na delegacia. Foi com o depoimento dele que a gente começou esse episódio aqui. É o Dr. Cláudio continua contando.

Cláudio Fernandes: Já tarde da noite lá, fomos para o presídio. Uma coisa que eu nunca tinha nem entrado. E chegamos lá. E aí tinha que tirar a roupa, revista, as coisas que são procedimentos, não sei o quê — e inicialmente ficamos numa cela em separado, eu e o Celso. Na outra noite, aí foram lá, o assessor dele foi lá, explicou lá uma série de coisas que também já não tinham importância. E no outro dia a gente desceu para uma outra cela, que inicialmente não ficamos junto com a população toda, certo? Era um local, pelo menos inicial, e ficamos nessa cela. Aí passou lá, sei lá, uns três dias que a gente estava lá. Aí ele foi lá pra saber como é que a gente estava.

Bela Megale: O “ele” a que o Cláudio se refere é o juiz Narciso Alvarenga, que na época também era o corregedor do presídio de Poços de Caldas.

Cláudio Fernandes: E assim… tem a cela assim, era aberta. Era um quadrado pequeno, cabia ali umas cinco pessoas com a gente, inicialmente, e ficamos lá. E aí ficou aquela batalha do habeas corpus, aquela coisa de “espera, espera, espera”. A gente já não sabia mais se ia sair, não ia sair. E você fica muito sem informação também. Você não tem informação, não sabe o que está acontecendo, não tem ideia. E aí ficamos, ficamos, ficamos, até que quando deu mais ou menos um mês certinho, o oficial de Justiça foi lá pra liberar a gente. Mas liberou a gente com uma série de condições, de medidas cautelares. Aí eu não podia sair da cidade naquela época, não podia fazer não sei o quê, não podia isso, aquilo. Muito difícil a coisa. Mas aguentando firme, né? Fazer o quê, né?

Bela Megale: E sua família, Dr. Cláudio?

Cláudio Fernandes: Nossa, aí terrível… Essa acho que foi a parte mais difícil, porque eu tinha uns filhos relativamente pequenos, só pensava nisso. Se acontecer um negócio comigo, como é que vai ser? Apesar de minha mulher trabalhar, a gente é uma sociedade, um casamento é uma sociedade. Eu dependo dela, ela depende de mim. Hoje não tem mais esse negócio, e nem a gente nunca pensou dessa maneira. Então o casal… Meus filhos eram relativamente pequenos. Eu fiquei com um pouco de medo, de escola, essas coisas, de ter algum tipo de discriminação. E eu tentei de todas as maneiras mantê-los assim, mais afastados possível. Desculpa aí, porque quando eu falo…

André Borges: Os médicos Celso Scafi e Cláudio Fernandes foram presos. O anestesista Sérgio Poli, quando soube da ordem de prisão, optou por não se entregar. Ele permaneceu foragido durante 30 dias. Decidiu se apresentar à Justiça só quando os outros dois médicos conseguiram um habeas corpus para deixar o presídio. Sérgio Poli passou uma noite encarcerado, depois também foi liberado.

Bela Megale: A gente pediu para ele comentar como recebeu a ordem de prisão. Se era inocente, a gente queria entender por que o Sérgio Poli decidiu não se entregar à Justiça.

Sérgio Poli Gaspar: Mas olha, eu segui a orientação do meu advogado. Eu tinha combinado com o Júlio Cardoso. Era uma quinta-feira ensolarada. Falei assim: Não estou de plantão hoje, vamos lá no Santa Rosa tomar um chope, porque eu tenho uma costela lá, isso fazia. Fomos lá, umas 18h. Estava sentado, tomando um chope, recebi uma ligação falando: “Onde você está?”. “Estou aqui, no Santa Rosa, por quê?”. “Porque o Cláudio acabou de ser preso, o Celso acabou de ser preso, e tem um terceiro nome que a gente não sabe quem é. Mas fica com o celular ligado”. Dali a pouco toca o meu telefone, aí foi meu advogado: “Sérgio, é você. Vaza. Some, que até quarta-feira que vem a gente consegue uma liminar e solta vocês.”

André Borges: Foi uma orientação, então, do seu advogado?

Sérgio Poli Gaspar: Foi, foi. Eu ia ser preso por quê? Qual o motivo de eu ser preso? Que perigo eu represento pra sociedade?

André Borges: O anestesista disse que não se apresentou à polícia porque entendia que a prisão preventiva era um exagero. Ele contou que ficou na casa de um colega.

Sérgio Poli Gaspar: É, “não se apresente, porque quarta-feira, semana que vem, a gente já deve ter um habeas corpus.” E eu fui em casa de amigo e fiquei lá. Só que aí passou muito tempo.

André Borges: O Sérgio Poli passou 30 dias foragido até decidir se entregar.

Sonora Imprensa: Os médicos, que já não podiam exercer nenhuma função pública e nem se ausentar do país, agora vão ter de cumprir outras duas medidas cautelares enquanto respondem ao processo em liberdade. Celso Roberto Frasson Scafi e Cláudio Rogério Carneiro Fernandes ficaram 31 dias presos. O alvará de soltura foi concedido pelo desembargador do Tribunal de Justiça Flávio Leite, na sexta-feira. Os médicos foram soltos por volta de 21h30. Os dois foram condenados por envolvimento na retirada ilegal de órgãos para transplantes em Poços de Caldas. Eles foram acusados junto com outro médico, Sérgio Poli Gaspar, como responsáveis pela morte do menino Paulo Pavesi, de 10 anos, no ano 2000, que teve os órgãos retirados.

Bela Megale: Cláudio Fernandes voltaria a ser preso no ano seguinte, dessa vez por outro caso, também julgado por Narciso Alvarenga. Cláudio seria condenado no que o magistrado chamou de “caso cinco”. Era outra acusação envolvendo retirada de órgãos. A denúncia era parecida com a do Paulinho. Em março de 2015, os condenados pelo “caso cinco” foram presos. O Cláudio voltou para o presídio de Poços, desta vez com outros dois médicos: João Brandão e Jeferson Skulski.

André Borges: O Jeferson Skulski já apareceu por aqui. Ele é o radiologista que fez a segunda arteriografia do Paulinho — aquele exame que seria a prova de inocência dos médicos que fizeram o transplante na Santa Casa, mas que desapareceu no processo. O Jeferson é um personagem fundamental do “Caso zero”. O depoimento dele foi colhido algumas vezes como testemunha da história. Mas, para o juiz Narciso Alvarenga, ele mentiu. O juiz garante que a segunda arteriografia nunca foi feita.

Bela Megale: O radiologista também é questionado sobre a data em que fez o laudo dessa arteriografia. O documento só foi elaborado meses depois da realização do exame. Nós questionamos o Skulski sobre esse ponto. O que ele disse é que a Santa Casa só solicitou o documento muito tempo depois.

André Borges: O Jeferson passou três meses preso — metade desse período na Penitenciária de Três Corações, que fica a 180 quilômetros de Poços de Caldas. É uma prisão que comporta mais detentos do que a cadeia de Poços e que também tem gente bem mais perigosa. Ele contou como foi a recepção na cadeia de Três Corações.

Jeferson Skulski: Porque a gente chegou lá e os presos já sabiam que a gente estava chegando. Então, a gente estava entrando nas celas, e estava todo mundo batendo na grade, dizendo: “Vai morrer, vai morrer, vai morrer.”

Bela Megale: O Jeferson contou que ele e os outros médicos chegaram no presídio e foram diretamente para uma ala chamada “Seguro”. É nesse local que ficam os presos que cometeram os crimes mais hediondos, como assassinato de crianças e estupro, porque eles também correm maior risco de serem assassinados dentro da própria cadeia.

Jeferson Skulski: São horários do dia que a gente… que ser todo dia… passa, né? Eram 18h, quando fechavam as grades e faziam a contagem dos presos. Era a hora que logo ia acabar, desligava a luz, e você ia ficar mais um dia ali. E às 5h, quem conseguia dormir acordava com o som das sirenes das viaturas que chegavam no presídio pra levar os que iam ser transferidos no dia. Então o primeiro som que a gente escutava era o das sirenes das viaturas. E esses dois horários ficam pra sempre, pelo menos comigo: às 18h, entre 18h e 19h, todo dia bate aquela lembrança do desespero, do dia que acabou e você continua.

André Borges: Eles ficaram 102 dias presos até conseguirem um habeas corpus. Hoje, o caso cinco voltou ao início, depois de a sentença ser anulada. Só que o caso não acabou. Todos os investigados ainda serão julgados por um tribunal do júri. Dr. Cláudio ainda seria alvo de uma terceira prisão em fevereiro de 2016, também por uma suposta remoção ilegal de órgãos. Ele e o Celso Scafi chegaram a ficar mais uma semana na cadeia.

Bela Megale: Responsável por todas as sentenças que levaram os médicos da Santa Casa para a prisão, o juiz Narciso Alvarenga foi alvo de uma reclamação disciplinar no Conselho Nacional de Justiça, o CNJ. Isso foi no ano de 2015. O CNJ é o órgão responsável por investigar a conduta dos magistrados. Os médicos pediram que ele fosse considerado suspeito e afastado dos casos de Poços. Para isso, recorreram a um renomado jurista brasileiro: o Dr. Miguel Reale Júnior. Dr. Miguel Reale é professor de Direito Penal e ex-ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso. Ele nos recebeu no seu escritório, em São Paulo, para falar desse caso.

André Borges: Miguel Reale aponta vários questionamentos sobre a conduta do juiz Narciso Alvarenga na peça que ele envia para o CNJ. Para ele, a conduta do juiz a respeito do sumiço da segunda arteriografia seria o ponto mais grave.

Miguel Reale Júnior: Um envolvimento dessa natureza é tão grave porque envolveu a análise de uma prova fundamental, ou a declaração da inexistência de uma prova fundamental referida tantas vezes. Esse é o ponto que me parece o mais grave de todos. Ao invés de estabelecer um incidente para verificação do que ocorreu com a supressão da prova, declara solenemente que a prova não existiu.

André Borges: Além dessa reclamação disciplinar, outros questionamentos sobre a conduta de Narciso foram levados ao Conselho Nacional de Justiça e também à Corregedoria do Tribunal de Justiça de Minas. Todos foram arquivados.

Bela Megale: Depois de quatro anos de atuação em Poços de Caldas, Narciso Alvarenga decidiu deixar a cidade. Ele fez uma troca de posto com um juiz de Uberaba e se mudou pro Triângulo Mineiro, que fica a 330 quilômetros de Poços. Anos depois, Narciso Alvarenga voltou para Belo Horizonte. No início de 2025, como a gente já comentou aqui, ele foi promovido a desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

André Borges: Um tema que sempre foi mal explorado nesse caso foi o destino dos órgãos retirados. Afinal, se existia uma máfia, alguém tinha que ter comprado os rins e as córneas do menino. Se havia uma máfia de um lado, tinha que ter dinheiro do outro. Se não, essa conta não fecha. Nós buscamos informações sobre esse assunto nos documentos do processo. Um relatório feito lá em 2000, no ano do acidente, trouxe as primeiras informações importantes sobre esse assunto.

Bela Megale: Esse documento foi feito por uma pessoa que você já ouviu nesse podcast, no segundo episódio. A médica Rosana Nothen era a coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes, uma divisão do Ministério da Saúde. Ela era a autoridade máxima no tema quando o acidente aconteceu. Naquele ano, a Rosana foi até Poços de Caldas para apurar o caso de perto. Ela nunca tinha pisado na cidade, nem conhecia nenhum dos médicos envolvidos no caso. Essa visita resultou num relatório que foi enviado para o ministro José Serra. Nesse documento, ela foi taxativa ao falar sobre quem bancou os custos do transplante de rins e córneas realizado na Santa Casa. Aqui, eu vou abrir aspas: “Todo procedimento na Santa Casa foi financiado pelo SUS.” Fecha aspas.

André Borges: Ao dizer que os órgãos foram distribuídos pela MG Transplantes — a central que era comandada pelo Dr. Álvaro Ianhez — a Rosana Nothen afirma no documento que o critério usado para escolher os receptores foi o de tempo em lista de espera. Na entrevista que fizemos com ela no Rio Grande do Sul, em 2024, perguntamos se ela identificou, afinal, a existência de uma máfia de venda de órgãos em Poços.

Rosana Nothen: Isso é um absurdo. Isso é um total absurdo. Não se conecta com a realidade em nenhum momento. Não foi a percepção que tivemos lá, na visita técnica que foi feita. Não foi a impressão que os próprios auditores do SUS tiveram depois. O que a gente tem é uma extrema negligência na qualidade dos registros.

André Borges: Quer dizer, as auditorias feitas pelo Ministério da Saúde nunca comprovaram que havia um conluio entre os médicos para poder matar o paciente e retirar órgãos?

Rosana Nothen: De forma nenhuma. De forma nenhuma se suspeitou disso em qualquer momento.

Bela Megale: No documento que apresentou pro ministério, a Rosana traz as iniciais do nome de cada receptor e o valor que cada procedimento teve para o SUS. Ao todo, quatro pessoas foram receptoras dos rins e córneas do Paulinho. Um dos rins foi para Ciro Donizete Russo, um homem que vivia numa casa simples no município mineiro de Areado, que fica a cerca de duas horas de Poços de Caldas. O Ciro prestou depoimento para a Polícia Federal em meados de 2001, quase um ano depois do acidente.

André Borges: Ao falar sobre a recepção do rim, o Ciro contou que foi acionado na noite anterior à cirurgia. Ele disse que não acompanhava sua posição na lista de receptores de órgãos e que, naquela mesma hora, ele foi para Poços. No depoimento, ele disse “que todas as despesas do tratamento anterior, durante e posterior ao transplante foram custeadas pelo SUS; que alguns dias após o transplante ficou sabendo que o rim proveio de um menino que caiu de um prédio onde morava; que afirma que não foi abordado pelo Dr. Álvaro para fornecimento de dinheiro e obtenção do órgão e também realização do transplante.”

Bela Megale: O outro rim do Paulinho foi implantado em Ângela Maria dos Santos Lima. Ela não resistiu por muito tempo e morreu cinco meses depois por causa de complicações de saúde. As córneas do Paulinho foram levadas de Poços para o Instituto Penido Burnier, em Campinas, que fica a cerca de duas horas e meia de Poços. O Dr. Álvaro diz, em um depoimento, que chegou a fazer contato com a Central de Transplantes em Belo Horizonte, mas teve dificuldade naquela ocasião por ser um feriado prolongado. Para não perder as córneas, que eram conservadas no líquido, ele conta que fez contato com o Instituto Penido Burnier, especializado nesse tipo de transplante. As córneas foram implantadas em duas crianças. Nós tivemos acesso aos depoimentos que as mães dessas crianças deram para a Polícia Federal em 2001. Uma delas é Sirlene Bonin, que morava em Campinas, e na época tinha um filho de 7 anos.

André Borges: Sirlene conta que seu filho tinha um problema hereditário de visão e que já se tratava no Instituto Penido Burnier. Ela colocou o menino na fila de espera das córneas em 1998. Os órgãos iriam aparecer dois anos depois. A mãe contou que não conhecia nenhum dos médicos de Poços de Caldas e que nunca teve nenhum contato com eles antes ou depois da cirurgia.

Bela Megale: O depoimento da Sirlene, que a gente teve acesso, diz o seguinte: “Ninguém exigiu qualquer vantagem financeira da declarante. Porém, o Instituto Penido Burnier pediu à declarante uma doação para a Fundação Penido Burnier, para ajudar no custo da anestesia, sendo que a declarante espontaneamente fez uma contribuição de 600 reais. A declarante não teve nenhum custo para o transplante.”

André Borges: A segunda mãe que prestou depoimento foi Carmelita Sampaio, que na época morava em Cuiabá, no Mato Grosso. Ela contou que o transplante de córneas para seu filho foi realizado cinco meses depois de entrar na fila de espera pelo órgão.

Bela Megale: A Carmelita também disse que não conhecia nenhum médico de Poços ou da região. Sobre o repasse de dinheiro para o Instituto Penido Burnier, a Carmelita disse à Polícia Federal “que pagou em cheque pré-datado a quantia de 500 reais para uma fundação cujo nome não se recorda; que afirma que os funcionários da Fundação Nacional de Saúde de Cuiabá fizeram uma cota para custear as despesas com transplantes, vez que não tinha condições de arcar com as referidas despesas.”

André Borges: Nós procuramos o Instituto Penido Burnier e perguntamos se essas doações eram obrigatórias. A gente também questionou a instituição, que foi fundada há mais de 100 anos, em 1920, se ela chegou a ser acusada de alguma irregularidade e qual foi o desfecho desse caso. O Instituto Penido Burnier disse que nunca foi investigado e negou qualquer tipo de irregularidade em sua conduta. Ele declarou que sempre seguiu os preceitos éticos da medicina e que se orientou pelos órgãos de controle e fiscalização, como o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e os conselhos profissionais. A instituição afirmou ainda que agiu em conformidade com o ordenamento jurídico e com seu compromisso de defesa da vida, da ética, da dignidade humana e dos princípios e padrões que regem as ciências da saúde.

Bela Megale: Para o Pavesi, as doações feitas pelas mães seriam a prova de que os órgãos foram vendidos. Ele também diz que as cirurgias foram ilegais e não respeitaram a fila de espera porque foram feitas fora do estado de Minas Gerais, numa cidade do interior de São Paulo.

André Borges: Além disso, Pavesi alegou que a Central de Transplantes de Poços de Caldas era clandestina, ou seja, funcionava sem o aval do Ministério da Saúde e do governo de Minas Gerais. Alguns documentos obtidos pelo podcast mostram que a MG Sul Transplantes e sua equipe médica eram registradas junto ao governo estadual e federal. Um desses documentos, inclusive, chegou a ser lido na tribuna da Câmara pelo deputado Carlos Mosconi, que mostramos no segundo episódio. Mas, para entender melhor qual era a realidade das centrais regionais de transplantes no ano 2000, nós fomos atrás de mais uma autoridade no assunto.

Bela Megale: Naquela época, o Dr. Agenor Spallini Ferraz fazia parte do grupo técnico que assessorava a coordenação do Sistema Nacional de Transplantes. Ele já tinha sido um dos responsáveis por criar o sistema de transplantes do Estado de São Paulo, que foi pioneiro nessa área em todo o Brasil. O Agenor também foi consultor do Ministério da Saúde e colaborou com a criação da Lei dos Transplantes de 1997, que está em vigor até hoje. Ele nos recebeu na casa dele, no bairro de Higienópolis, em São Paulo, e falou sobre qual era a realidade das centrais de transplantes lá no ano 2000, quando o Paulinho sofreu um acidente.

Agenor Spallini Ferraz: Incipiente em relação a transplante na maioria deles, tirando esses que eu citei, estavam engatinhando: Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais… tinha um grupinho lá em Belo Horizonte. E o resto não tinha nada. Nordeste, nada. Norte, nada.

André Borges: Na prática, o que o Dr. Agenor está dizendo é que, três anos depois da Lei dos Transplantes em vigor, lá no ano 2000, as centrais regionais ainda estavam se estruturando. Em boa parte do Brasil, elas sequer existiam — e permaneceriam assim ainda por um bom tempo.

Agenor Spallini Ferraz: No Nordeste todo, com exceção do Ceará, que estava começando a implantar alguma coisa, não tinha mais nada em lugar nenhum. No Norte, então, nem se fala. Aqui, centro-sul, Minas Gerais estava começando a implantar, começando a implantar. Rio de Janeiro, começando a implantar. Eu fui chamado no Rio de Janeiro para orientar a criação da Central do Rio de Janeiro. Eu estava aqui, ainda estava saindo daqui, e fui pra lá, em 2003, 2004. Entendeu? Não tinha.

André Borges: A precariedade e a informalidade que ainda dominavam o Sistema Nacional de Transplantes nos anos 2000, como detalhou um dos próprios criadores desse sistema, não foram levadas em conta no julgamento dos médicos. Mais gente ainda iria para a prisão.

Sonora: Jamais acharam que ia ser preso. Eu fui comunicado na sexta-feira e fui preso na terça. Isso aí precisa ter muita força, muita paz com Deus e muita resiliência familiar.

Bela Megale: No próximo episódio de “Caso zero”.

André Borges: “Caso zero”, a história que mudou o rumo do transplante de órgãos no Brasil, é uma série original do jornal O GLOBO. A reportagem, pesquisa e narração foram feitas por Bela Megale e André Borges. O roteiro é de Ives Rosenfeld, com colaboração de Bela Megale e André Borges.

Bela Megale: A edição e sonorização são do João Guilherme Lacerda, com trilha original de Gabriel Falcão e mixagem de Vinícius Lis.

André Borges: O desenvolvimento e a coordenação da produção são do Alexandre Maron, da Ampère Media. A produção executiva é de Allan Grip e André Miranda.

Bela Megale: A pesquisa adicional foi feita por Elisa Soupim, buscando material da TV Record, TV Globo, EPTV, G1, TV Câmara e nos jornais O Estado de Minas, Mantiqueira e O Tempo.

André Borges: Os áudios também incluem material da Câmara dos Deputados e do YouTube. O podcast foi gravado no Estúdio Madruga, em Brasília.

a transcrição do quarto episódio

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