O Brasil segue fazendo história no Mundial de Taekwondo, em Wuxi, na China, ao conquistar o segundo ouro em um mesmo torneio pela primeira vez. Nesta segunda-feira, o fluminense Henrique Marques (-80kg), de 21 anos, se tornou o primeiro atleta masculino do país a subir ao lugar mais alto do pódio, após vencer o representante da casa, o chinês Ziang Qizhang por 2 rounds a 0, na final. Agora ele se junta à seleta lista de brasileiros campeões mundiais, que conta apenas com Maria Clara Pacheco (-57kg), que se sagrou vitoriosa na última sexta-feira e Natália Falavigna (-72kg), ouro em 2005. Mais do que isso, o jovem consegue dar a volta por cima após quase ter uma aposentadoria precoce do esporte por conta de uma arritmia cardíaca identificada pouco antes de uma competição, e que o fez deixar de treinar por meses.
— Estou muito feliz com a minha conquista. Quero agradecer demais à Confederação Brasileira (de Taekwondo) por todo suporte, todo apoio, que vem fazendo comigo e todos os atletas da seleção. Sem eles isso não seria possível — comemorou Henrique.
Mesmo com algumas lutas acirradas, o brasileiro conseguiu terminar o mundial cedendo apenas um round — para o Artem Mytarev (2 a 1), que representava os Atletas Neutro — em 11 disputados. Assim como a final, os outros três combates entre a noite de domingo e manhã de segunda-feira terminaram em 2 a 0.
— Vi que na final ele estava muito confiante — diz a ex- mentora e parceira de treinos, Iris Tang Sing, que foi atleta olímpica em 2016. — Ele tem muita força, explosão. Dá para ver que ele era mais forte que os adversários. Vi que era hoje (ontem) que a gente faria história.
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Já o seu treinador, Diego Ribeiro, ressaltou o crescimento de desempenho do atleta nas últimas competições, ao conquistar um ouro e um bronze nos últimos meses.
— Alinhamos a preparação física, mudamos algumas coisas no treinamento e, graças a Deus, surtiu bastante efeito. Ele foi bem no GP Challenge, na Coreia, mês passado, ficou em terceiro. Foi bem na competição Presidente’s Cup, no Peru, campeão, e coroamos essa preparação aqui, para o Mundial, com esse resultado tão positivo — diz Diego.
Natural de Porto das Caixas, região periférica na cidade de Itaboraí, Marques foi uma das dezenas de crianças que entraram no projeto social de Iris e Diego, iniciado em meados de 2011. Então no auge físico, a ex-atleta viu potencial no pequeno Henrique, que era seu vizinho, e o convidou para participar dos treinos. Ela chegou a ceder um espaço para o jovem morar com a família para que não desmotivasse enquanto a “grande oportunidade” no esporte ainda não chegava.
— Ele morava numa casa muito humilde. Então há cerca de dois anos atrás resolvi bater na porta dele e falei: “sai daí, vai morar na minha casa. Quando puder você paga aluguel”. Queria que ele saísse de onde estava. Era muito precário— diz Iris.
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Este empenho nos treinos para formar uma das suas principais características, a explosão, não foi algo que surgiu desde o início, como conta Diego, pois ele “levava na brincadeira demais”, mas a virada de chave para se tornar um profissional teria vindo, ironicamente, por conta de brinquedos. Após ser proibido de participar da festa do dia das crianças por faltar muitas aulas, ele passou a ser um dos mais assíduos.
— Ele era bem humilde, e ao ver as crianças voltando da festa cheias de presente, resolveu treinar para poder frequentar os eventos da academia, não era nem pensando em competição — diz o treinador.
A partir daquele momento, ele passou a colecionar pódios, desde competições juniores, ao Brasileiro de Equipes e os Jogos Sul-Americanos. Todos o conduzindo à ser uma figurinha carimbada na seleção brasileira. Na preparação para os Jogos Pan-americano de 2023, em Santiago, no entanto, ele quase viu sua carreira terminar precocemente quando, em um exame de rotina, foi constatada uma arritmia cardíaca. O coração batia desreguladamente e ele foi vetado de treinar qualquer esporte.
— Foi um momento muito tenso, porque ele estava disputando a vaga olímpica, e do nada, a gente teve essa bomba que foi a descoberta dessa ritmia, nos exames de rotina para participar dos Jogos Pan-Americanos. Foi um negócio muito sério, a gente ficou muito nervoso. Nem eu e nem os médicos sabíamos se ele ia poder voltar ao esporte. A gente ficou muito nervoso, muito desesperado, foram muitos exames e não sabia o que que era. Foi para São Paulo, vai para o Rio, faz exame. A Mas ele fez um procedimento cirúrgico, graças a Deus, foi tudo certo, e resolveu essa ritmia, e ele voltou a treinar.
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A volta aos treinos na virada do ano de 2023 para 2024 unida aos resultados positivos o conduziu à vaga na Olimpíada de Paris, mas o resultado no torneio não foi o esperado. Ele viu o companheiro de equipe Edival Pontos, o “Netinho” ganhar o bronze, mas não conseguiu passar das quartas de final. A constância em pódios neste ano, no entanto, aponta uma trajetória crescente para a carreira de Marques, segundo Iris.
— Com certeza (por estar voltando de cirurgia) o que ele não conseguiu fazer em 2024 está fazendo agora.
Se antes a criança de Itaboraí se inspirava em Iris para competir, agora poderá se tornar o exemplo das novas gerações.
— Agora virá um monte de criança que vai ter Henrique como referência e começar a treinar. É o legado que ele está fazendo.
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A partir da próxima madrugada, de terça para quarta (em Brasília), até a manhã da quinta-feira, outros cinco atletas brigarão por medalhas no campeonato.
São eles: Milena Titoneli (até 67kg), João Victor Diniz (até 68kg), Paulo Ricardo Melo (até 58kg), Celydiene Carneiro (até 62kg), Nívea Maria da Silva (até 53kg) e Edival Pontes (até 74 kg), que foi medalhista de bronze em Paris-2024.

