O Cordão do Boitatá escreveu sua história levando para as ruas do Centro do Rio um caleidoscópio de gêneros musicais durante o carnaval. São quase 30 anos mergulhados na vastidão do cancioneiro nacional, que credenciam a banda para ciceronear uma seleção de convidados ilustres no Baile da Música Brasileira, um evento inédito, a partir desta quarta-feira, na Brava Arena Jockey, na Gávea. Com entrada gratuita, a série de shows esquenta a temporada de fim de ano no Rio.
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Serão oito quartas-feiras de festa. O voo começa com a paraibana Elba Ramalho e os pernambucanos Geraldo Azevedo e Lia de Itamaracá dando banho de forró, baião e ciranda no povo. O line-up segue com artistas como a potiguar Juliana Linhares, o também pernambucano Spok, os paraenses Gaby Amarantos e Felipe Cordeiro e os baianos Armandinho e Lazzo Matumbi. Sem falar no bonde dos cariocas, formado por Teresa Cristina, Marina Íris e Marcos Sacramento, entre muitos outros.
Até a última noite, em 17 de dezembro, o público do evento vai dançar samba, forró, choro, maracatu, frevo e muito mais.
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Não é um baile de carnaval, mas um desavisado pode sair da passarela subterrânea que leva a gente da entrada do Hipódromo até a Arena achando que desembarcou em fevereiro. O Cordão do Boitatá baixa na Zona Sul pela primeira vez sem os seus músicos usando fantasias, mas todos querendo jogo. Um dos fundadores do coletivo, o maestro Kiko Horta, sanfoneiro de mão cheia, diz que ninguém está considerando pegar leve só porque ainda faltam 108 dias (e contando) para o carnaval.
— Esse baile é a realização de um sonho — enfatiza o músico. — Sempre buscamos abraçar a música brasileira de forma ampla e com atenção aos detalhes. No carnaval, essa riqueza de arranjos se dilui um pouco no meio da festa, na rua. Agora, vamos levar isso para um palco com ótima estrutura e recebendo artistas que são referência, de graça. Tem tudo pra ser mágico. Vamos com tudo.
Hoje considerado Patrimônio Cultural Imaterial do Rio, o Cordão do Boitatá foi criado em 1996. No ano seguinte, a banda se jogou na folia carioca, mas, enquanto a maioria dos blocos desfilava na Zona Sul, tocando sambas de enredo com bateria e carro de som, o grupo cismou de resgatar os carnavais de antigamente, tocando marchinhas em formato acústico nas ruas do Centro.
O movimento inspirou gerações de blocos e, a partir de então, o Boitatá chafurdou no mangue da música nacional. Tanto o cortejo anual, no domingo de pré-carnaval, quanto o Baile Multicultural da Praça XV, no domingo de carnaval, têm repertórios riquíssimos, longa e cuidadosamente forjados com releituras de mestres como Baden Powell, Gilberto Gil e Moacir Santos.
— Está na essência do Boitatá o passeio por um universo amplo da música com instrumentistas do mais alto nível — exalta o produtor cultural Pedro Seiler, um dos idealizadores do baile, ao lado de Felipe Continentino. — Vai ser uma chance de assistir a essa banda incrível tocando com grandes nomes da música em um contexto diferente.
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Um show como esse custa caro para produzir. Mas, financiado via lei federal de incentivo à cultura e com patrocínios privados, o baile será um caso raro de evento com entrada franca no Jockey Club. Para a cantora Marina Íris, expoente da nova geração de sambistas cariocas, parceira de longa data do Boitatá que vai se apresentar como convidada na quarta noite, a gratuidade pode promover uma bem-vinda democratização.
— O Jockey é um espaço pouco ocupado por moradores de áreas mais distantes. A entrada gratuita incentiva o deslocamento de pessoas de outros bairros — diz a artista. — Essa democratização tem tudo a ver com o Boitatá, que tem uma história de compromisso com a cidade, com o espaço público.
De acordo com Kiko Horta, o Baile da Música Brasileira faz parte da celebração de 30 anos do cordão. Foram décadas de alegria, mas também de trabalho árduo para colocar o carnaval na rua, reunindo milhares de pessoas e movimentando a economia do Centro sem apoio financeiro do poder público, que, muitas vezes, oferece mais obstáculos do que ajuda. Os integrantes da banda entendem a própria existência do Boitatá como fruto de uma militância que ocupa a rua com cultura.
– É como diz a ialorixá Wanda d’Omolú (responsável pelos cuidados espirituais do cordão), nós somos de festa, não somos de luta. – explica o maestro. – A dinâmica do terreiro é casa aberta, respeito, fartura e acolhimento. Vamos terreirizar o Jockey.

