Ao encomendar canções para um álbum comemorativo dos 90 anos de Claudette Soares — que se completam hoje e serão celebrados com um show, às 21h, na Casa Bona de Música, em São Paulo —, o produtor Marcus Preto fez uma exigência aos compositores: estava proibido o uso da palavra “saudade”. A cantora aprovou a ideia e avisa que ainda não pensa em se aposentar.
— Canto desde os 10. Não parece que foi tudo isso. Tem gente que vive do passado: “ah, quando eu fiz sucesso!” É uma perda de tempo. Tenho orgulho do que vivi, mas não vivo do que já passou — afirma.
A vitalidade é intensa ao telefone, com a fala rápida e animada que é característica. Mas ela não pretende morrer no palco.
— Vou saber a hora de parar. Mas ainda tenho voz, saúde e salto alto — diverte-se ela, firme em seus 1,50m, “com sapato”, como ressalta. — Jô Soares dizia que eu nasci com sapato.
O álbum de dez faixas inéditas sairá em 2026. O título é uma frase que Claudette gosta de repetir: “O mundo é bom para quem sabe esperar”. Uma faixa está nas plataformas: “O prazer de viver para mim é você”, de Guilherme Arantes e com ele ao piano.
Entre os outros autores estão Marcos Valle (em duas músicas), Arnaldo Antunes, Tim Bernardes, Nando Reis, Zé Renato, João Donato (numa parceria revelada por Joyce Moreno), Zé Manoel, Ronaldo Bastos e um encontro entre Roberto Menescal, de 88 anos, e Joaquim, de 23.
Zé Manoel e Joaquim deverão participar do show de hoje. Nome certo é o da grande amiga Alaíde Costa, que completará 90 anos em dezembro. As duas são cariocas que se radicaram em São Paulo. Marcus Preto produziu dois álbuns de Alaíde nos últimos anos, o que o levou a fazer o mesmo — com Thiago Big Rabello — para Claudette.
— As duas levam a vida, vão a restaurantes, têm amigos, bebem, vão a shows. A Claudette não é uma coitada que fica em casa triste — destaca o produtor.
Ela tinha 10 anos quando estreou no programa “A raia miúda”, de Renato Murce, na Rádio Nacional. Aos 19, começou a gravar discos. Por causa de algumas faixas e do que cantava no rádio, ganhou o apelido de “princesinha do baião”.
— Eu cantava acompanhada do Sivuca e cheguei a fazer baião com quarteto de cordas. Luiz Gonzaga me dizia: “Você é metidinha a besta.” — recorda.
Depois ela se firmou na bossa nova, tendo participado, por exemplo, do histórico show “A noite do amor, do sorriso e da flor”, em 1960.
— Graças a Deus, a bossa nova não pertenceu só ao Brasil, ficou internacional. Aqui ia ser considerada velha — acredita.
O compositor e jornalista Ronaldo Bôscoli a estimulou a se mudar para São Paulo, pois no Rio já havia Sylvia Telles e Nara Leão. Na nova cidade, conheceu o pianista Cesar Camargo Mariano, que fez arranjos de bossa nova mais puxados para o jazz, como ela assinala.
No fim da década de 1960 e no início da de 1970, gravou músicas com ainda mais balanço, de autores como Jorge Ben Jor e Marcos Valle.
— Ela coloca sensualidade a serviço da música. Quando chega ao limite da voz, quase fala, sussurra. Tem identidade, o que muita garota cheia de notas na garganta não tem. Como ela gosta de dizer, “quem não é a maior tem de ser a melhor” — diz Preto, lembrando o título de um disco de 1969.
Um ano antes, ela surpreendera com “Gil, Chico e Veloso por Claudette”, no qual gravou canções dos três astros da jovem MPB.
— Achavam que a Censura não ia deixar, porque eles eram visados. Mas os censores ouviram e pensaram: “Tadinha, ela não tem voz, sussurra.” Essa voz me valeu muita coisa — diverte-se.
Claudette lançou músicas que viraram grandes sucessos, como “Hoje”, de Taiguara, e “De tanto amor”, de Roberto e Erasmo Carlos. Mas não se espere dela gratidão para com as gravadoras.
— As gravadoras eram cruéis. Queriam que eu cantasse músicas horrorosas que não tinham a ver comigo — conta ela, adepta de boas frases: “Eu perdoo os inimigos, mas não esqueço os nomes” ou “Minha vingança é estar viva”. — As cantoras de hoje deviam agradecer de joelhos a produção independente que têm. Podem escolher o que gravar.
Nos últimos anos, Claudette tem podido realizar álbuns temáticos, quase sempre produzidos por Thiago Marques Luiz. Cantou, por exemplo, Silvio Cesar (2019), Maysa (2020) e Chico Buarque (2024). Outros poderão vir até a hora de parar.
— Nos anos 90, mamãe voltou para o Rio, porque queria morrer na sua cidade. Eu também quero terminar meus dias no Rio — revela.

