Há pouco mais de uma década, câmeras de segurança em um templo budista milenar nos arredores de Tóquio registraram um homem de capuz esfregando óleo nos pilares de madeira. Menos de uma hora depois e a 27 km dali, outro vídeo mostrou alguém com aparência semelhante untando uma caixa de oferendas em um santuário xintoísta fundado no século VII a.C. As autoridades japonesas classificaram os gestos como profanação de locais sagrados e, após rastrear o suspeito até Nova York, emitiram mandados de prisão por vandalismo. O homem é Masahide Kanayama, 63 anos, médico japonês radicado há quase três décadas nos Estados Unidos e especialista em endometriose. Solteiro e sem filhos, ele se tornou referência no tratamento de uma doença que causa dores crônicas em mulheres — e afirma que sua prática médica é guiada pela fé cristã que o inspira desde a juventude.
- Veja também: Acusado de abuso de menores, Epstein afirmou que Trump ‘sabia das meninas’ em e-mails divulgados pelo Congresso dos EUA
- Leia: Fala de premier japonesa sobre Taiwan retoma animosidade histórica entre China e Japão
— Acredito que o Espírito Santo atua através de mim, dando-me a capacidade de realizar minha técnica cirúrgica única — disse Kanayama. — Quando guiada pela fé, a medicina se torna uma forma de servir a Deus servindo aos outros. Meu objetivo é permitir que o amor de Deus se reflita através de minhas ações e serviços.
Agora, uma década depois que o homem encapuzado foi visto nos locais sagrados, esse trabalho pode em breve se tornar impossível. As autoridades japonesas afirmam ter encontrado vídeos no YouTube de 2012 nos quais Kanayama discutia a unção de santuários com óleo para fins religiosos. Elas estão tentando levá-lo de volta ao Japão para julgamento.
Os advogados de Kanayama afirmaram em comunicado que ele não danificou nenhum local e acrescentaram que “mesmo que fosse verdade, suas ações não causaram nenhum dano”. A defesa recorreu à Justiça Federal para impedir a extradição, argumentando que não há provas suficientes para acusá-lo. E também pediu ao Departamento de Estado, que tem a palavra final sobre as extradições, que não aprove essa.
O Departamento informou recentemente aos advogados de Kanayama que havia negado o pedido, mas as autoridades americanas concordaram em adiar qualquer remoção até que a contestação judicial de Kanayama fosse decidida.
Um tribunal federal de apelações ouviu os argumentos orais no mês passado e pode emitir uma decisão a qualquer momento. Se o tribunal decidir contra o médico, ele enfrentará a extradição para o Japão, sua terra natal, e será processado.
As acusações podem resultar em cinco anos de trabalhos forçados em uma prisão japonesa.
Em uma manhã de domingo, em meados de outubro, Kanayama entrou na Igreja Times Square, na West 51st Street, perto da Broadway. A igreja não denominacional, um antigo teatro, recebe milhares de fiéis pessoalmente e online para cultos que se baseiam na tradição pentecostal. Há uma banda ao vivo e cantos gospel, e os fiéis se aproximam do púlpito em busca de cura. Ele fechou os olhos enquanto orava, cantava e balançava ao som da música.
Kanayama, cuja herança étnica coreana já o torna um outsider na sociedade japonesa, encontrou sua fé aos 17 anos, quando sua mãe o levou a uma igreja missionária evangélica em Tóquio. Lá, o médico teve um despertar espiritual que, segundo ele, o levou a se tornar cristão e se mudar para os Estados Unidos.
— ‘Mostrarei meu poder de cura através de suas mãos’ — disse ele sobre o que teria escutado de Deus.
Ele frequentou a Creighton University, uma escola jesuíta em Omaha, Nebraska, onde, em 1985, se formou magna cum laude (”com grande honra”, em tradução livre) bacharel em química. Anos depois, em 1991, obteve seu diploma de doutor em medicina pela Faculdade de Medicina de Wisconsin, em Milwaukee. Em 1995, ele completou quatro anos como residente na faculdade de medicina da Mayo Clinic e depois se mudou para Nova York, onde trabalhou por vários anos como professor no departamento de obstetrícia, ginecologia e ciências reprodutivas da faculdade de medicina Mount Sinai. Ele também começou a exercer a medicina no Greenwich Hospital, em Connecticut, onde realiza cirurgias usando uma técnica de excisão que ele mesmo desenvolveu.
Kanayama, residente permanente legal nos Estados Unidos, agora dirige o New York Endometriosis Center em Manhattan, que, segundo ele, atrai pacientes de todo o mundo, incluindo do Japão. O consultório inclui uma sala de meditação revestida com papel de arroz e piso de bambu. Kanayama disse que queria proporcionar aos pacientes uma atmosfera de tranquilidade e calma.
— A cura não é apenas física, mas também mental, emocional e espiritual — disse ele.
Jessie Lambiase, 34, moradora do condado de Westchester e proprietária de duas academias de ginástica e uma joalheria, lutava há muito tempo contra a dor e a fadiga da endometriose. Médico após médico parecia desconsiderar seu problema. Um deles sugeriu um terapeuta. Ela disse que Kanayama reconheceu imediatamente sua condição e disse que não era tudo coisa da cabeça dela. Ela passou por duas cirurgias com ele, a mais recente neste ano.
— Ele foi o único médico que conseguiu me ajudar. Pensar em um futuro em que ainda tenho essa doença e ele não está aqui, e realmente não há outro cirurgião que faça o que ele faz — isso é assustador — revelou.
A agenda de Kanayama, segundo seus advogados, está lotada com meses de antecedência, com pacientes de todo o mundo. Ele contou a poucos pacientes sobre sua situação jurídica e disse que encontra refúgio na igreja, um descanso das longas cirurgias que realiza durante a semana e do estresse de seu caso.
Durante grande parte do culto de duas horas naquele dia na Igreja da Times Square, Kanayama ficou em pé nas fileiras lotadas, com a mão esquerda segurando uma Bíblia em japonês e o braço direito levantado no ar.
Ele costuma carregar essa Bíblia, com suas páginas marcadas e versículos sublinhados. “Eu sublinho tudo”, diz. E também adora frequentar outras igrejas. Anos atrás, ele criou uma organização sem fins lucrativos chamada International Marketplace Ministry e viajou para a Europa, Coreia do Sul, Japão e pelos Estados Unidos. Ele falou para grupos religiosos e empresários sobre viver uma vida espiritual, não apenas na igreja, mas também no local de trabalho.
— Sou apenas um médico. Mas conheço o Senhor. Conheço Deus. Sei como me comunicar, então apenas compartilho minha experiência e encorajo as pessoas.
A “unção” aparece em toda a Bíblia como uma prática sagrada. O óleo, espalhado, esfregado ou derramado, é um símbolo de que Deus escolheu uma pessoa ou objeto para um propósito sagrado. É usado para santificar espaços físicos: no livro do Êxodo, Deus diz a Moisés: “Você tomará o óleo da unção e ungirá o tabernáculo e tudo o que nele há, e o santificará, bem como todos os seus utensílios; e ele será santo.”
No antigo Templo Naritasan Shinsho-ji, na cidade de Narita, as autoridades japonesas disseram que Kanayama havia deixado óleo nos pilares que faziam parte do portão principal usado para entrar no santuário. O portão foi construído em estilo arquitetônico tradicional japonês e é, por si só, um objeto de culto, afirmou um funcionário do local em uma declaração apresentada ao tribunal. O óleo deixou manchas escuras, escreveu.
No Santuário Katori Jingu, na vizinha Katori, um líquido oleoso foi deixado em postes de madeira em ambos os lados da escadaria da frente, na própria escadaria e na caixa onde os fiéis podem fazer doações, afirmou um funcionário do santuário em outra declaração. O óleo deixou manchas, embora com o tempo elas tenham se tornado quase invisíveis, a menos que observadas de perto, contou o trabalhador.
As autoridades japonesas concluíram que era possível que uma única pessoa tivesse cometido os dois crimes nos 51 minutos que se passaram entre eles. Elas também determinaram que a figura vista nas imagens de segurança dos dois locais se assemelhava ao motorista de um Toyota Prius cinza que foi flagrado pela câmera de um pedágio da rodovia expressa na mesma hora.
A placa do Prius levou os investigadores a uma agência de aluguel de carros em um aeroporto próximo, onde o nome de Kanayama foi encontrado nos registros de aluguel. Os registros de voo mostraram que ele havia viajado de Nova York para o Japão alguns dias antes.
Kanayama disse que foi alvo porque era cristão em um país onde os membros dessa religião sofreram repressão por centenas de anos e hoje representam apenas cerca de 1% da população.
— Isso é perseguição religiosa — disse o seu advogado, Jeffrey Lichtman. — Por que mais eles estariam tão entusiasmados em destruir não apenas a vida desse homem, mas também acabar com sua capacidade de ajudar milhares de mulheres que sofrem de uma doença médica muito grave?
O Consulado do Japão em Nova York não fez nenhum comentário imediato sobre o caso.
Em 6 de dezembro de 2022, Kanayama sentou-se com seus advogados em um tribunal federal no sul de Manhattan enquanto um promotor americano argumentava que o pedido de extradição do Japão deveria ser atendido. Se o juiz concordasse, a questão de entregá-lo ao Japão ficaria a cargo do secretário de Estado dos EUA.
A promotora, Tara La Morte, disse que os critérios para enviar Kanayama de volta ao Japão foram atendidos. Por um lado, conforme exigido pelo tratado de extradição mútua, havia um crime em Nova York — vandalismo criminoso — equivalente à ofensa que Kanayama enfrentava no Japão. E as provas mostravam que havia causa provável para acreditar que ele havia danificado os locais.
Ela apontou para os vídeos do YouTube de 2012 de um homem que as autoridades japonesas diziam ser Kanayama falando sobre derramar óleo em santuários.
— Essa é a prova, meritíssimo, da intenção e da motivação — disse La Morte.
Os advogados de Kanayama contestam se ele aparece claramente nos vídeos e dizem que seus comentários sobre derramar óleo nos santuários foram traduzidos incorretamente. No tribunal, Lichtman não admitiu que seu cliente estivesse presente nos locais ou tivesse deixado óleo neles. Mas, se tivesse, disse Lichtman, o objetivo não teria sido vandalismo.
— Nunca houve qualquer intenção da parte dele de danificar nada — disse Lichtman. — Ele estava lá para purificar.
Em janeiro de 2023, o juiz Edgardo Ramos decidiu que Kanayama poderia ser extraditado; um segundo juiz, a quem foi solicitado que revisasse o caso, concordou. O recurso de Kanayama está pendente.

