O governo dos Estados Unidos começa a retomar a normalidade nesta quinta-feira, após o presidente Donald Trump sancionar na noite de quarta-feira o projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados, que encerrou a paralisação governamental mais longa da História do país, após 43 dias. À medida que se espera que os programas interrompidos pela falta de financiamento voltem a funcionar de forma gradual, o Legislativo se prepara para retomar as atividades regulares, com o presidente da Câmara, Mike Johnson, afirmando que colocará em votação na próxima semana um projeto de lei sobre a divulgação dos arquivos relacionados a Jeffrey Epstein — em um momento em que a divulgação de e-mails enviados pelo magnata na década passada sugeriram que Trump tinha conhecimento sobre suas atividades envolvendo exploração sexual de menores de idade.
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A Câmara dos EUA aprovou na quarta-feira, pelo placar de 222 a 209, uma medida para retomar o financiamento do governo. O caminho para encerrar o shutdown já havia sido aberto na semana passada, quando senadores democratas romperam com o bloqueio do partido, e aceitaram votar favoravelmente à proposta republicana. Horas após a aprovação, Trump reuniu líderes do partido e executivos na Casa Branca, para assinar a medida.
— Com a minha assinatura, o governo federal retomará suas operações normais — disse Trump, que também criticou o bloqueio democrata ao orçamento. — Hoje enviamos uma mensagem clara de que nunca nos submeteremos a uma extorsão.
A normalização das áreas afetadas pelo shutdown deve acontecer de maneira gradual. Contudo, é possível que leve algum tempo para que os programas e as pessoas afetadas pela paralisação se recuperem integralmente. Funcionários federais que estavam em licença não remunerada terão que voltar ao trabalho, incluindo aqueles responsáveis pelo processamento de pagamentos para programas que dependem de verbas governamentais.
Setores como o de aviação e o de hotelaria, que sentiram o impacto da suspensão dos gastos do governo, podem precisar de ainda mais tempo para se reerguer — bem como o restante da economia, que sentiu o efeito dominó da paralisação, pode sentir o impacto por algum tempo.
Uma porta-voz do escritório de orçamento da Casa Branca insistiu nesta semana que os beneficiários do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP, na sigla em inglês) — principal programa de combate à fome nos EUA, com 42 milhões de beneficiários — voltariam a receber os valores horas após a retomada. Entre as medidas que devem demorar mais de uma semana para um retorno estão programas de educação infantil e a normalização da malha aérea.
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O Partido Democrata manteve o bloqueio no financiamento do governo em uma tentativa de forçar os republicanos a se comprometerem com a extensão da Lei de Acesso à Saúde (Affordable Care Act), que serão cortados, caso não haja uma votação.
O deputado Hakeem Jeffries, líder democrata na Cãmara, afirmou que ele e outros líderes do partido apresentariam uma petição de desobstrução — uma manobra processual para contornar a liderança e forçar a votação de um projeto de lei — para estender os subsídios por três anos. É improvável que tal medida receba muito apoio republicano.
— Há apenas duas maneiras de essa luta terminar — disse Jeffries no plenário da Câmara. — Ou os republicanos finalmente decidem estender os créditos fiscais da Lei de Acesso à Saúde (Affordable Care Act) este ano, ou o povo americano expulsará os republicanos de seus cargos no ano que vem e acabará de vez com a Presidência de Donald Trump na Câmara dos Representantes.
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Enquanto o projeto de lei era votado na Câmara — que ficou paralisada por duas semanas, em meio ao impasse e as negociações para um acordo político que destravasse o governo —, Johnson afirmou na quarta-feira que colocaria em votação na semana que vem uma proposta para divulgação dos arquivos do caso Epsteisn — magnata que se suicidou em 2019 na cadeia, enquanto aguardava julgamento por denúncias que incluíam tráfico humano, e cujo envolvimento com a elite americana e britânica tem alimentado teorias sobre a participação de políticos no esquema criminoso.
— Vamos levar isso à votação na próxima semana, assim que retornarmos — disse Johnson aos repórteres.
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O caminho para o encaminhamento do projeto para votação sobre os arquivos foi desenhado após a posse da deputada democrata do Arizona, Adelita Grijalva, nesta quarta. Ela venceu uma eleição especial no final de setembro, para suceder seu falecido pai. Ela se tornou a 218ª assinatura em uma petição de desobstrução, que automaticamente inicia uma votação na Câmara sobre a legislação que exige que o Departamento de Justiça libere os arquivos.
As regras que regem os pedidos de desobstrução indicam que Johnson não seria obrigado a exigir uma votação até o início de dezembro. O aceno a uma antecipação, porém, ocorre em um momento em que Trump vê novamente sua relação pessoal com Epstein implicá-lo em polêmicas, após os deputados democratas vazarem e-mails enviados pelo magnata na última década, mencionando o presidente americana, afirmando que ele saberia sobre “as meninas”.
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Em uma das mensagens, de abril 2011, Epstein escreveu Ghislaine Maxwell, sua então sócia, que foi condenada a 20 anos de prisão por envolvimento no esquema: “Quero que você perceba que aquele cachorro que não latiu é o Trump”, citando o nome de uma das mulheres apontadas como vítima. “[Vítima] passou horas na minha casa com ele [Trump], e ele nunca foi mencionado uma vez sequer”, acrescentou, uma referência às investigações das quais já era alvo. Maxwell responde, pouco depois, que “estava pensando sobre isso”.
Em mensagem de 2019, ao autor Michael Wolff, Epstein mencionou as declarações de Trump de que o teria obrigado a renunciar como membro do clube de Mar-a-Lago, propriedade do presidente na Flórida.
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“Trump disse que me pediu para renunciar, nunca fui membro. É claro que ele sabia sobre as meninas, já que pediu para Ghislaine parar”, escreveu Epstein.
Em meio à crise provocada pelas mensagens, a Casa Branca acusou o Partido Democrata de vazar seletivamente e-mails de Epstein para “fabricar uma narrativa falsa”.
Mesmo que o projeto de lei sobre a divulgação integral dos arquivos seja aprovado pela Câmara, ele ainda precisa passar pelo Senado e ser assinado por Trump. Os líderes do Senado não deram nenhuma indicação de que o colocarão em votação, e o presidente criticou a iniciativa como uma “farsa democrata”. (Com NYT)

