Dez anos depois de sobreviver ao pior atentado jihadista em Paris, Eva considera essa tragédia como “parte” dela e, pela primeira vez, quebra o silêncio para relatar como tenta superar esse ataque que comoveu profundamente a sociedade francesa. Naquele final de tarde de sexta-feira, 13 de novembro de 2015, celebrava o aniversário de sua melhor amiga. Estava fumando no terraço com três amigos quando os jihadistas dispararam contra o restaurante e mataram 21 pessoas.
Naquela noite, comandos do grupo jihadista Estado Islâmico mataram 132 pessoas, incluindo dois sobreviventes que mais tarde cometeram suicídio, e feriram mais de 500 em ataques terroristas coordenados que transformaram a capital em um palco de sangue: tiroteios em terraços de cafés, explosões em um estádio, um massacre na casa de shows Bataclan. Os tiroteios e atentados suicidas foram os piores ataques da História da França no pós-Segunda Guerra Mundial e causaram danos duradouros ao país.
Eva, de 35 anos, ainda lembra do “silêncio aterrador” entre os disparos. Ela recebeu múltiplos impactos de bala no lado esquerdo do corpo, incluindo o pé. Os médicos tiveram que amputar sua perna abaixo do joelho e ficou com uma “enorme cicatriz” no braço.
— Já se passaram 10 anos, é parte de mim — afirma a mulher, que tem uma prótese na perna, assegurando que está “muito bem”. — Mas a vida não é fácil todos os dias.
Eva pensou em se submeter a uma cirurgia reconstrutiva, mas, segundo ela, “na pele negra é complicado”. E embora continue frequentando bares, “nunca mais” dará as costas para a rua.
Para marcar os 10 anos da tragédia que chocou o mundo, o presidente Emmanuel Macron, além da primeira-dama, Brigitte, visitou os locais dos ataques, antes de fazer um discurso para inaugurar um Jardim da Memória, ao lado da Prefeitura de Paris.
Partindo de Saint-Denis, Macron esteve em cada local dos ataques: os cafés Carillon e Petit Cambodge, depois La Bonne Bière, Le Comptoir Voltaire e La Belle Équipe, e finalmente o Bataclan, onde 90 pessoas foram mortas durante o cerco terrorista de três horas.
No X, o presidente afirmou que “a dor ainda está viva”. “Em fraternidade, pelas vidas interrompidas, pelos feridos, pelas famílias e pelos entes queridos, a França se lembra”, escreveu Macron.
Na Praça da República, parisienses se reuniram com velas, flores e bilhetes escritos à mão aos pés de Marianne, o símbolo nacional, como fizeram em 2015. Na noite de quarta-feira, a estátua e os edifícios circundantes foram iluminados em azul, branco e vermelho, enquanto dezenas de pessoas participavam de uma vigília em antecipação ao aniversário.
Para alguns sobreviventes e familiares das vítimas, o aniversário dos atentados só revive o temor.
— Ele nos persegue — disse Bilal Mokono, de 50 anos, que ficou cadeirante após ser ferido por um ataque suicida perto do Stade de France.
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De sua casa nos arredores de Paris, ele conta que desde então “dorme mal”. Após o ataque, perdeu o uso das pernas e o ouvido esquerdo. E seu braço direito continua “muito frágil”.
A única pessoa que morreu nesse ataque foi Manuel Dias, de 63 anos. Sua filha, Sophie Dias, teme que se perca a memória desse “pai único”.
— Sentimos sua ausência todos os dias (…) É importante comemorar o décimo aniversário — explica.
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Nem todos compartilham seu ponto de vista. Fabien Petit espera que as pessoas sigam em frente. Seu cunhado, Nicolas Degenhardt, morreu aos 37 anos no café Bonne Bière junto com outras quatro pessoas.
— Não podemos continuar revivendo o 13 de novembro repetidamente — aponta Petit, que afirma se sentir “melhor” após ser atormentado por um tempo por “pensamentos sombrios”.
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Ele ainda se emociona ao lembrar da tragédia, mas “o julgamento [lhe] ajudou”. O processo, que durou 10 meses entre 2021 e 2022, concluiu com a condenação à prisão perpétua do único membro sobrevivente do grupo de perpetradores, Salah Abdeslam.
Aurélie Silvestre, cujo parceiro, Matthieu Giroud, morreu na casa de shows Bataclan junto com outras 89 pessoas, relatou o caso em um livro.
— Sinto que escrever me permite recolher alguns dos pedaços e uni-los novamente — conta ela. Quando perdeu seu companheiro, Silvestre estava grávida. — Dadas as circunstâncias, estou bem, mas, é claro, não é fácil. Estou criando sozinha dois filhos cujo pai foi assassinado.
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Alguns sobreviveram aos atentados, mas não às suas consequências.
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O químico Guillaume Valette e o autor de romances em quadrinhos Fred Dewilde lutaram durante anos contra as feridas psicológicas antes de tirarem a própria vida.
— Nunca esquecerei o som dessas metralhadoras — havia confidenciado Valette a seus pais, Arlette e Alain Valette.
Os recursos para tratar o trauma psicológico na França melhoraram desde 2015, segundo o psiquiatra Thierry Baubet, mas ainda são limitados em algumas regiões.
— Há vítimas dos atentados de 13 de novembro que continuam sofrendo e não buscaram ajuda — afirmou o psiquiatra, apontando que um obstáculo comum é o “medo de não ser compreendido”. — Mas nunca é tarde demais.
Mais de 80% das pessoas recordam
Quando Lola, a filha de 17 anos do jornalista Eric Ouzounian, morreu no Bataclan, um terapeuta o advertiu que ele “nunca” iria “superar isso e sempre se sentirá sozinho”.
— Dez anos depois, isso continua sendo verdade. Você não se recupera da perda de um filho — contou o jornalista de 60 anos.
Em 2015, ele se recusou a participar da homenagem em Paris e escreveu um artigo no qual criticava o Estado pelas políticas internas que haviam criado “zonas de desespero”. Para ele, as condições de vida nesses bairros, de onde vieram alguns jihadistas, não melhoraram desde então e as autoridades continuam “desprezando” os moradores.
Segundo o historiador Denis Peschanski, com o passar dos anos, os franceses são cada vez menos capazes de enumerar os locais onde ocorreram os atentados. O Bataclan continua sendo o mais conhecido, mas houve muitos outros.
Desde o ataque, uma série de pesquisas revelou um declínio acentuado no número de pessoas que conhecem os três locais onde ocorreram os atentados. No ano passado, por exemplo, 31% não souberam identificá-los, em comparação com apenas 3% em 2016, quando a primeira pesquisa foi realizada. Já uma pesquisa realizada no ano passado revelou que mais de 80% das pessoas ainda se lembravam de onde estavam quando os ataques de 13 de novembro aconteceram.
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Roman, um sobrevivente do ataque ao restaurante La Belle Équipe, decidiu falar para que as pessoas não se lembrem apenas do massacre na casa de shows.
— Às vezes nos sentimos esquecidos — disse o homem de 34 anos, que também prefere não revelar seu sobrenome.
Alguns anos após o ataque, ele decidiu se tornar professor.
— Ensinar história e geografia era importante, não apenas para evitar que isso aconteça novamente, mas também para transmitir aos jovens o que nos aconteceu — concluiu.
(Com AFP e The New York Times)

