Para tristeza dos seus moradores, Jacarepaguá e o Itanhangá têm sido citados com frequência no noticiário policial nos últimos meses. O ápice foi em 28 de outubro, quando a polícia deflagrou a megaoperação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão e anunciou que outras viriam para impedir o avanço do Comando Vermelho na Zona Sudoeste. Na última segunda-feira (10), de fato, houve operações no Itanhangá e em outras sete comunidades da região: Beco do 48, Coroado, Muzema, Morro do Banco, Tijuquinha, Fontela e Cesar Maia. Para quem vive na zona conflagrada, a sensação é a de que tanto faz se os criminosos ao redor são traficantes ou milicianos. O desejo é voltar a viver em paz, sob o comando do Estado.
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Na terça-feira passada (11), durante uma reunião do 18º Conselho Comunitário de Segurança (CCS), em Jacarepaguá, na qual estavam presentes autoridades como o major Leandro Dias, subcomandante do 18º BPM (Jacarepaguá), e delegados da área, um morador observou que já se falava em perder a região para o poder paralelo há 15 anos, lamentando a ineficácia das autoridades para agir desde então. Yuri Leal, presidente da Associação de Moradores e Amigos da Freguesia (Amaf), bairro nobre, faz declaração parecida e resume a preocupação dos vizinhos:
— Nosso bairro é cercado por comunidades. O maior medo é que se torne um território sem lei e intransitável. Temos ainda uma memória de paz e tranquilidade de 15 anos atrás. Na Freguesia, antigamente, se escutava som de passarinho de manhã. Hoje, ouvimos tiros.
Por determinação do STF, em abril, no âmbito da chamada ADPF das Favelas, o estado do Rio deve apresentar um plano de retomada de territórios dominados por bandidos. Em relatório entregue 13 dias antes da megaoperação ao Conselho Nacional do Ministério Público, o Governo do Estado afirma que essa retomada deve começar pela Zona Sudoeste, alvo da cobiça de traficantes e milicianos.
O secretário de Segurança Pública, Victor dos Santos, diz que as operações são fundamentais para que haja reocupação dos territórios. Ele lembra que, de cerca de cinco anos para cá, o tráfico adotou estratégias semelhantes às da milícia, praticando diferentes formas de extorsão. Em conversas com moradores de Jacarepaguá, a equipe do GLOBO-Barra ouviu relatos de ações do gênero mesmo fora das favelas, como exigência de que se use um provedor de internet operado pelo crime e cobranças de taxas variadas. Construções irregulares inclusive em áreas de proteção ambiental são outra forma de lucrar. Santos diz que a Zona Sudoeste interessa a todos porque representa uma série de oportunidades.
— É uma área que ainda pode se expandir muito. Tem ativos imobiliários onde hoje não há qualquer construção; toda a região lagunar, que a prefeitura quer explorar com transporte e hoje é explorada por parte da milícia. A Floresta da Tijuca e o Parque da Pedra Branca, que podem ser ocupados. São áreas em que há mais possibilidade de aumentar o número de favelas. E a favela sempre foi o ambiente favorável para essas organizações criminosas— exemplifica Santos. — E se 600 mil pessoas, metade da população desta região (Grande Jacarepaguá), pagarem um plano de internet de R$ 100 ao tráfico, são R$ 60 milhões por mês. Quanta droga é preciso vender para faturar isso? E com droga o risco é maior. Precisamos fazer com que esse tipo de crime não seja atrativo economicamente.
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Santos diz que a reocupação de territórios vai acontecer, por força de determinação judicial, e que um grupo de trabalho formado por representantes das esferas municipal, estadual e federal deverá definir como fazê-lo. A Secretaria de Segurança Pública pediu informações a 30 outras pastas, além do Gabinete de Segurança Institucional, da Controladoria e da Procuradoria-Geral do Estado, sobre equipamentos públicos e projetos existentes na Gardênia Azul, em Rio das Pedras e na Muzema, prioridades na retomada. Ele prevê que até 20 de dezembro o plano de reocupação seja entregue ao STF e diz que só após sua aprovação será possível planejar o início da ação. Mas afirma que uma das premissas é ouvir as comunidades, o que está sendo feito via instituições que atuam nelas, como Cufa e Data Favela, e com base em dados do IBGE.
Para a professora de sociologia Monique Batista Carvalho, do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp/Uerj), especialista em segurança pública e que estuda conflitos armados na região, para ter chance de sucesso, a retomada deve ser feita com ações em diferentes frentes. E, como diz Santos, mirar nas finanças do tráfico.
— As ações de outras secretarias, como as de Educação e Assistência Social, que estão atuando em favelas, têm mais retorno do que as da polícia sozinhas. Enfrentamento nas favelas não dá o resultado que se espera. O caminho seria garantir a inteligência da polícia atuando na parte econômica do tráfico ou de grupos de milícia — avalia.
A infiltração do crime na política é outra preocupação da especialista.
— Até tempos atrás, só a milícia tinha relações com parlamentares. Hoje, já sabemos que o Comando Vermelho também busca isso — diz, observando uma mistura cada vez maior entre os dois tipos de criminosos. — Os moradores já não conseguem distinguir o que é milícia e o que é tráfico. Não tem placa ou crachá. E ainda tem a corrupção policial.
Victor dos Santos diz que há a preocupação de que a retomada leve serviços públicos às comunidades abaladas pela violência. Do ponto de vista tático, o secretário já estabeleceu como pretende fazer a reocupação:
— Temos o corredor do Itanhangá até Jacarepaguá, Barra e Recreio. A ideia é começar com uma região menor e seguir: Itanhangá, Rio das Pedras, Muzema, Gardênia Azul e ir irradiando.
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Delegado da 32ª Delegacia de Polícia (Taquara) e um dos três que foram à reunião do 18º CCS, na semana passada, Marcos Buss avalia que é essencial evitar que um só grupo forme um grande cinturão na região e entende que uma possível tomada de Rio das Pedras pelo Comando Vermelho dificultaria o trabalho da Polícia Civil:
— Se eles unificassem, seria terrível para a segurança pública local, porque iriam exercer o domínio local do território. Quanto mais grupos menores espalhados houver, melhor para a gente combater, porque agimos pontualmente. E Rio das Pedras é um local importante estrategicamente, até por conta da passagem para outras regiões. Esse é o foco, hoje, do Comando Vermelho em Jacarepaguá.
Um morador da Praça Seca não vê a hora de a retomada alcançar o bairro.
— Acho que teríamos que ter uma prioridade. Há 15 ou 20 anos, só tinha uma favela aqui. Hoje estamos cercados. Só tem água e gás dos bandidos. Houve um tempo em que as operadoras de TV e internet tinham os fios arrancados. Agora operam com dificuldade, disputando o cliente com eles. Quando pedimos carros de aplicativo, só os motoristas que conhecem a região vêm — conta.
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Descrente, uma residente da Taquara — bairro em que os moradores desistiram da ideia de formar uma associação por medo da reação da milícia — afirma que “o governo do estado encontrou nestas operações uma forte ação de promoção”, às vésperas das eleições de 2026, e duvida que a retomada vá adiante.
Já o presidente do 18º CCS, Christian Mattos, é mais otimista, embora preveja tempos difíceis até que os tiroteios frequentes ouvidos em diferentes bairros de Jacarepaguá se tornem passado.
— Sabemos que estas retaliações de criminosos em dias de operação são uma realidade. Mas também sei que a polícia teve um trabalho bastante eficaz em desobstruir as vias. É uma guerra que às vezes piora, para depois melhorar — acredita.

