No último dia de outubro, a recém-empossada premier japonesa, Sanae Takaichi, se encontrou com o presidente da China, Xi Jinping, às margens de uma cúpula de líderes em Gyeongju, na Coreia do Sul. Na ocasião, ambos defenderam uma “relação estratégica e mutuamente benéfica”, além da expansão de “laços construtivos e estáveis”. Com palavras tão amenas, poucos poderiam esperar que, uma semana depois, Pequim e Tóquio estariam em meio a uma séria crise diplomática, com potenciais impactos econômicos, políticos e de segurança regional.
Na sexta-feira retrasada, Takaichi foi questionada por um parlamentar da oposição sobre o que seria uma “situação de ameaça à sobrevivência” do país, termo presente na polêmica legislação de segurança de 2015, e que permite o emprego das Forças de Autodefesa no exterior. Em resposta, disse que poderia autorizar o emprego de seus militares se a China resolvesse invadir Taiwan, mesmo se o Japão não fosse diretamente atacado, e que apoiaria as forças dos EUA para romper qualquer tipo de bloqueio naval.
— A situação em relação a Taiwan tornou-se grave. Devemos considerar o pior cenário possível — disse Takaichi, cujo mentor político, Shinzo Abe (morto em 2022), era um dos maiores defensores de uma reforma na Constituição pacifista japonesa.
A reação de Pequim foi imediata e, inicialmente, pouco diplomática. Na rede social X, o cônsul chinês em Osaka, Xue Jian, afirmou que “o pescoço sujo que se intromete deve ser cortado”, uma publicação que levou a protestos oficiais em Tóquio e que foi apagada.
— Para um padrão histórico das relações asiáticas, a declaração de Takaichi foi muito forte. Mesmo que você possa pensar que o Japão talvez tenha que se envolver em uma guerra, dizer isso abertamente, principalmente em um país que tem um histórico que o Japão tem, que ainda é marcante para a Coreia, para a China, acaba sendo um pouco forte — explicou ao GLOBO Paulo Brites, professor da Escola de Relações Internacionais da FGV, se referindo às ocupações japonesas na região, especialmente no pré-Segunda Guerra Mundial.
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Nos dias que se seguiram, a China convocou o embaixador japonês para fazer um “forte protesto”, e um porta-voz do Ministério da Defesa, além de chamar as palavras da premier de “irresponsáveis”, disse que o Japão enfrentaria uma “derrota militar devastadora” se agisse em Taiwan. No fim de semana, navios chineses passaram perto de ilhas controladas por Tóquio mas reivindicadas por Pequim, e jatos foram acionados após um drone supostamente chinês ser avistado perto de uma ilha.
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O golpe mais duro veio pelo lado econômico: na sexta-feira, o governo chinês disse que declarações “flagrantemente provocativas sobre Taiwan (…) prejudicaram ainda mais o ambiente para o intercâmbio entre os povos”, e recomendou que “cidadãos chineses que evitem visitar o Japão por enquanto”. O governo japonês, por sua vez, pediu que seus cidadãos na China e em Taiwan redobrem as precauções. Na quarta-feira, Pequim anunciou a suspensão da importação de frutos do mar vindos do Japão.
— Pare de ultrapassar os limites e de brincar com fogo, retire as declarações e ações errôneas e honre seus compromissos com a China com ações concretas — afirmou, na segunda-feira, Mao Ning, porta-voz da Chancelaria chinesa, mais uma vez exigindo que Takaichi pedisse desculpas.
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Na pauta diplomática chinesa, Taiwan é uma das principais linhas vermelhas, se não a maior delas. O arquipélago é considerado uma província rebelde, e mesmo potências como os EUA adotam uma política de ambiguidade estratégica, sem estabelecer laços formais com os taiwaneses, mas despejando bilhões de dólares em armamentos e parcerias econômicas. No caso do Japão, em 1972 o país firmou um acordo reconhecendo o governo em Pequim como o único e legítimo da China — como parte do princípio de “Uma Só China” —, e que “entendia e respeitava” as posições sobre Taiwan.
— Na medida em que o Japão fala abertamente que estaria disposto a se engajar em uma campanha militar contra a China, caso a China tome qualquer atitude frente a Taiwan, isso soa como uma lembrança dos tempos colonialistas japoneses, quando o Japão se colocava como o policial da região e capaz de regular as relações regionais — afirmou Brites. — E mais do que isso, toca em um tema de segurança chinesa, é como se o Japão tivesse rompendo com a política de “Uma Só China”.
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O tom das declarações pró-Taiwan de Takaichi podem ter causado espanto e surpresa por se tratar da palavra de uma primeira-ministra, mas ela jamais escondeu o que realmente pensa sobre o tema.
No ano passado, em um debate parlamentar, disse, com palavras similares às do começo do mês, que o Japão deveria intervir em caso de ataque contra Taiwan, e ecoou os pensamentos militaristas de Abe sobre reformas na política de defesa, voltadas a reduzir as restrições sobre o uso da força e sobre cooperação militar com o exterior, afrouxando as amarras previstas na Constituição.
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Em sua mais recente visita a Taipé, em abril, defendeu uma parceria para enfrentar “desafios de defesa”, uma fala que irritou Pequim. Na cúpula de Gyeongju, ela se encontrou com o representante taiwanês na Apec, a Cooperação Econômica Ásia-Pacífico — em resposta, a Chancelaria chinesa afirmou que isso mandava um “sinal errado” às forças pró-independência.
— Os grupos independentistas têm ganhado força em Taiwan. Então, quando eles ouvem declarações desse tipo, a demanda deles por mais autonomia ganha força, no momento em que Taiwan se vê cada vez mais isolada globalmente — opina Brites.
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Essa não foi a primeira crise diplomática entre os dois países no passado recente. Em 2012, o governo japonês comprou parte das Ilhas Senkaku (Diaoyu para os chineses), cuja soberania é disputada por Japão, China e Taiwan. Em resposta, Pequim enviou navios de patrulha à região, protestos foram registrados em várias cidades e teve início uma campanha de boicote a produtos japoneses, com impactos bilionários. O número de visitantes chineses ao Japão caiu 25% durante a crise.
A solução para o impasse veio através da diplomacia e da pouca disposição dos dois lados de manter as animosidades, como parece ser o caso agora. Na segunda-feira, o Japão enviou um representante a Pequim para explicar que não houve mudanças na política de segurança de seu país, e pedir que os chineses não tomem decisões que possam prejudicar os laços bilaterais.
— O Japão vem tentando dar uma pisada no freio e não ser tão direto em relação às questões de Taiwan. Então talvez isso contribua para que não vejamos essas tensões escalando como em 2012 — explicou Brites. — Se o Japão seguir nesse ritmo, tentando botar mais panos quentes, me parece que a China dará uma resposta proporcional.

