Um estudo lançado neste mês de novembro reforça o quanto a população negra é mais afetada pela crise climática. A partir de dados do Censo 2022 e da plataforma UrbVerde, relativos a 2024, o Instituto Pólis analisou a correlação entre questões ambientais e raciais em quatro capitais brasileiras: Porto Alegre, São Paulo, Recife e Belém, onde o tema pauta parte dos debates da COP30. Nesta sexta-fei,a por exemplo, no Dia da Consciência Negra, a conferência realiza um evento de “diálogos de intercâmbio” focado em “soluções climáticas sensíveis a raça, equidade étnico-racial e suas interseccionalidades”.
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A pesquisa do instituto aponta que a população negra, pobre e periférica é “sistematicamente a mais atingida por inundações, deslizamentos e doenças relacionadas a eventos extremos causados pelas mudanças climáticas”. Enquanto bairros de alta renda e predominância branca nessas quatro capitais têm até 99% da cobertura de esgoto e ruas bem arborizadas, favelas e áreas de risco concentram os piores índices de saneamento e infraestrutura, o que as tornam mais vulneráveis.
Foram analisados indicadores como coleta de esgoto e lixo, renda, cobertura vegetal, permeabilidade do solo e infraestrutura de drenagem. Em Belém, uma pessoa negra tem 30 vezes mais chance de ser hospitalizada por uma doença transmitida pela água contaminada. No ano passado, a cada cem mil pessoas negras, 70,1 foram internadas em decorrência deste tipo de enfermidade, enquanto houve 2,3 internações para cada cem mil pessoas brancas.
Ainda na capital do Pará, pessoas negras responderam por 94,1% das internações ocorridas por viroses transmitidas por mosquitos em 2024, apesar desse grupo demográfico corresponder a 75,2% da população total. A taxa de incidência da doença no ano passado foi de 38,6 internações a cada cem mil cidadãos negros, índice sete vezes maior do que a média de casos entre brancos (5,5).
“O abandono tem pelo menos duas faces: na porção continental da capital paraense, os índices de saneamento são melhores onde a população branca mais se concentra; nas ilhas, comunidades ribeirinhas são invisibilizadas pelo poder público, sofrendo com a falta de políticas adaptadas ao seu modo de vida”, dizem os pesquisadores.
O impacto do chamado racismo ambiental é um dos temas em discussão na COP30 e vem sendo denunciado por aqueles que, por todo o mundo, sentem na pele as consequências da vulnerabilidade social frente às mudanças climáticas. É o caso do queniano Michael Lemayian Narikae, de 28 anos, que vive em Narok, uma área rural, criando bois e camelos. Ele está em sua primeira conferência climática, por intermédio de uma ONG ambiental. Vestido com a tradicional roupa queniana, chamada de Shuka e Shanga, Narikae vende artesanato de artesãs mulheres de sua comunidade na Zona Verde, o que vai lhe ajudar a custear a viagem.
Junto a um grupo de 15 quenianos, Narikae está hospedado em uma comunidade indígena a três horas de distância do Parque da Cidade. Mesmo assim, veio a todos os dias na primeira semana da COP.
— Somos a população menos favorecida globalmente, e isso impacta também na desigualdade climática. Viemos aqui mostrar nossas vozes, por nós — frisa Narikae.
Já Mfundo Langwenya, de 39 anos, é um dos 20 representantes de Essuatíni, pequena nação encravada no território sul-africano. Funcionário da agência governamental ambiental de seu país, ele também não dispensa as roupas típicas na Zona Azul. Em sua segunda COP, diz esperar melhorias nas propostas de financiamento climático — verba dos países mais ricos para ajudar a conter os efeitos da crise naqueles em desenvolvimento.
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— A expectativa é por compromissos mais eficientes e mais ações de implementação — pediu. — É minha primeira vez no Brasil, é muito bom estar aqui. Lembro de ver sobre a floresta amazônica desde pequeno, na TV e em livros.

