Não foi em frente às câmeras que Aline Patriarca aprendeu a lidar com o peso das estruturas. Antes de se tornar criadora de conteúdo, ela viveu outra rotina: a da Polícia Militar, ambiente onde entendeu, na prática, como a presença de mulheres — sobretudo mulheres negras — ainda esbarra em preconceitos velados, disputas por espaço e exigências que ultrapassam o uniforme. Neste 20 de novembro, data que marca o Dia da Consciência Negra, Aline retoma essa trajetória para discutir desigualdades, representatividade e o caminho que percorreu até transformar sua história em ferramenta de diálogo.
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Aline relembra o primeiro impacto dentro da corporação: “O maior desafio envolve questões históricas muito bem definidas. Em qualquer âmbito nós mulheres precisamos nos dedicar duas vezes mais para sermos de fato valorizadas”.
Ela recorda que, em 2019, a quantidade de vagas para mulheres no concurso era menor que para homens, o que ampliava a concorrência e refletia a inferioridade numérica dentro da instituição. Para ela, a mudança recente, com oferta igualitária de vagas, marca um avanço impulsionado por mobilizações femininas.
Sua vivência também revelou uma percepção recorrente: a de que mulheres precisam “provar mais”. Em uma ocorrência, seu comando só foi obedecido após ser repetido por um colega homem. “Há muitas situações em que a mulher é subestimada simplesmente por sua condição de ser mulher, idade, estatura ou aparência estética”, relata. Aline diz que as habilidades desenvolvidas ao longo da vida e aprimoradas na carreira policial foram determinantes em sua atuação.
Diante desse ambiente, a autoestima foi sendo construída como ferramenta de permanência. “Eu sempre fui uma mulher muito determinada, confiante e focada nos meus objetivos”, afirma. Aline explica que impor limites fez parte do processo, mas sempre encarou isso como aprendizado para qualquer contexto.
Hoje, já fora da corporação, ela transforma essas memórias em conteúdo. “Nós mulheres temos o dom da sensibilidade, ela sem dúvidas é fundamental para o gerenciamento de diversas situações”, diz, destacando a importância de usar sua posição para estimular outras mulheres a ocuparem espaços onde ainda são minoria.
No Mês da Consciência Negra, a influenciadora reforça a importância da presença feminina negra nos debates sobre equidade. “A mulher preta sempre esteve na linha de frente das lutas sociais, e isso não deve ser romantizado, mas reconhecido como fruto de resistência histórica”, afirma. Para ela, representatividade exige políticas, respeito e oportunidades reais.
A autoestima, hoje, é resultado do reconhecimento de sua própria trajetória. “A beleza está nos meus traços naturais e em quem de fato eu sou”, diz. Aline afirma que críticas e ataques virtuais não a afastam do propósito: “Tenho plena consciência de quem sou e da dificuldade que enfrentei para chegar onde estou”.
Ela reconhece que existe um desgaste em ser vista sempre como forte, mas reforça que vulnerabilidade também faz parte do percurso. “Ser forte não significa carregar tudo sozinha”, afirma.
Ao olhar para o futuro, Aline aponta desejo e intenção: “Hoje eu me sinto poderosa por reconhecer a minha história. Ainda tenho muitos sonhos e entre eles está o de alcançar mais mulheres, inspirar coragem e criar projetos que fortaleçam nossa autoestima e independência”.

