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“Sou pai solo, e meu filho mora com os avós. Como lidar com a criação dada por estes avós, que têm ideologias arcaicas, e ressignificar isso com meu filho quando estou com ele?”
“Sou avó de crianças de 4 a 12 anos. Muitas vezes, tenho uma visão diferente de como minhas filhas educam seus filhos. Como fazer para ‘aceitar’ certos comportamentos que me incomodam?”
Selecionamos duas perguntas que chegaram esta semana. Uma veio de um pai que falava sobre os avós do seu filho; a outra, de uma avó comentando as escolhas das mães de suas netas.
Duas famílias que sequer se conhecem, mas que, ainda assim, tocam em um ponto muito parecido: como lidar quando adultos que criam a mesma criança não pensam do mesmo jeito?
Fomos atrás das respostas pedindo aos especialistas que falassem não só sobre esses casos, mas também sobre o que fazer quando, dentro da própria casa, dois cuidadores esbarram em diferenças reais de valores, referências e experiências.
Não é um contra o outro; é só vida acontecendo, com pessoas que aprenderam coisas diferentes ao longo do caminho.
- Daniel Becker: desentendimentos são normais entre casais, mas é importante garantir que crianças sejam protegidas
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Quando há diferenças na criação, o ponto de partida é sempre o mesmo: responsabilidade e diálogo. É difícil impor regras rígidas a quem está oferecendo um suporte do qual você depende. E muitos avós interpretam qualquer proposta de mudança como uma crítica direta. Isso costuma gerar defensividade e pouca abertura.
Por isso, a primeira tentativa deve ser sempre uma conversa não violenta: reconhecer que, na época deles, certos comportamentos faziam sentido, mas que hoje temos novas informações sobre desenvolvimento e saúde mental.
Nem sempre haverá espaço para acordo. Quando não há um terreno comum, talvez a melhor estratégia seja apoiar a criança diretamente, explicando que diferentes casas funcionam de diferentes formas e que a visão dos avós não é uma verdade absoluta. É um trabalho longo, mas possível: ajudar a criança a entender que o mundo é feito de contextos variados.
Do lado dos avós, olhar para dentro é fundamental. Quando suas filhas criam os netos de forma diferente, isso pode tocar feridas profundas, como se estivessem dizendo “você fez tudo errado”. Investigar esse sentimento ajuda a diminuir a reatividade e abrir espaço para ouvir o que essa nova geração sabe, com base em evidências e orientações atualizadas.
️ Às vezes, o que pode estar acontecendo é uma “hipercompensação”: pais que sofreram com uma criação rígida podem ser extremamente permissivos ou vice-versa. Em vez de julgamento, aproximar-se de modo colaborativo ajuda a construir um caminho do meio.
É muito importante diferenciar o que são opiniões legítimas (horários, pequenas permissões, graus de rigidez) de práticas que colocam a criança em risco e não dependem de opinião, como violência física ou psicológica. Nem todo desacordo é uma diferença de estilo. Algumas coisas são consenso científico e precisam ser tratadas como tal.
Isso vale especialmente para casais. O que vejo com frequência é uma desigualdade no envolvimento. Geralmente uma das pessoas pesquisa, estuda, segue profissionais, lê evidências; enquanto a outra se baseia em opiniões pessoais ou lembranças da própria infância. Um lado está ancorado em ciência, o outro em percepções individuais. Aqui, também, o essencial é separar o que é preferência do que é orientação baseada em evidências. Discordar sobre nuances é normal; discordar sobre práticas que oferecem risco não é uma escolha neutra.
O caminho comum é sempre o mesmo: conversar com menos ataque e mais curiosidade, explicar de onde vêm as escolhas, entender o que está por trás do incômodo de cada um e tentar construir, juntos, uma base comum.
️ Não é sobre provar quem está certo, mas sobre garantir o que é melhor e mais seguro para as crianças.
- Contexto: Encarar limites e aceitar frustrações têm que fazer parte da educação das crianças
Renato Caminha Terapeuta e educador parental, autor de “Mitos da parentalidade: Livrando os pais da culpa infundada” (Artmed) e “Um labirinto chamado família” (L&PM)
Quando falamos de diferenças na criação, seja entre pais e avós, seja entre parceiros, estamos falando, na prática, de sistemas diferentes atuando sobre a mesma criança.
As crianças formam sua base de valores a partir das referências afetivas mais presentes no cotidiano. Quando os avós são a base diária, como no caso de um pai solo cujo filho mora com eles, a tendência é que a criança se molde ao estilo parental desse ambiente. A discrepância entre o que a criança vive com os avós e o que vive com o pai pode ser tratada explicando, desde cedo, que há regras diferentes em cada lugar.
Assim como as crianças entendem que certas coisas podem ser feitas na escola e outras não, também podem compreender que “na casa do papai é diferente”. Isso pode ser dito desde cedo: crianças pequenas já conseguem reconhecer regras distintas conforme o ambiente.
Esse mesmo princípio vale quando o conflito acontece entre parceiros que criam juntos uma criança. Educar deveria resultar de um grande acordo sobre o que é negociável e o que não é. Quando um adulto é mais permissivo e o outro mais rígido, a criança logo percebe a fissura e tenta explorá-la. Quando isso acontece, qualquer tentativa do mais permissivo de colocar limites perde força.
Por isso, diante de desacordos importantes, é essencial evitar conflito aberto na frente da criança: o ideal é apresentar-se como unidade e discutir depois, a portas fechadas. “Morram abraçados” ali, como costumamos falar. Não existe convivência sem divergências; parceiros precisam discordar, discutir e ajustar rotas, sempre com respeito. Mas a discordância explícita dentro de casa tende a gerar desrespeito às figuras parentais. Parentalidade é ajuste constante, sem enfraquecer o papel um do outro.
No caso de pais separados ou de arranjos familiares em que a criança vive parte do tempo com avós, é natural que haja estilos diferentes. O caminho, novamente, é explicar com clareza que ali, naquele ambiente, as regras são outras, sem desautorizar o outro adulto.
E há também o outro lado: a avó que discorda da educação dada pelos pais. Ela pode impor limites dentro da própria casa, agindo sempre através dos pais e não contra eles. Relações familiares saudáveis precisam tolerar frustração e saber estabelecer limites, inclusive entre adultos.
O importante é que cada adulto responsável pela criança consiga, dentro do seu ambiente, sustentar seus valores sem transformar a criança em mediadora de disputas.
Em resumo o que dizem os especialistas:
- Diálogo e responsabilidade: Conflitos entre cuidadores devem começar com conversa não violenta, explicando escolhas com base em evidências e buscando um “terreno possível”.
- Regras diferentes em cada casa: Quando não há acordo, vale esclarecer à criança que contextos têm normas distintas, sem desautorizar o outro adulto.
- Evitar conflitos na frente da criança: Parceiros ou cuidadores devem se apresentar como unidade; divergências são discutidas depois, em privado.
- ️ Diferenciar opinião de risco: Pequenas diferenças de estilo são normais; práticas que oferecem risco (físico ou psicológico) não são negociáveis.
- Autocrítica e colaboração: Avós e cuidadores precisam reconhecer feridas e inseguranças e buscar cooperação, não julgamento.
No radar: reflexões importantes
A terapeuta de família Ana Rosenblatt sugere perguntas que nos fazem pensar sobre como lidamos com as diferenças, algo que tem sido especialmente desafiador nestes tempos.
Seguem abaixo algumas reflexões que podem trazer pistas sobre esse tipo de desafio, assumindo que não estamos falando de maus-tratos ou negligência. Olhar para a conversa sobre valores, para além de comportamentos específicos, pode ser um caminho útil.
- Quais são seus principais valores na criação da criança?
- ️ Do que você mais quer cuidar?
- Como esses valores se construíram na sua história?
- Quais imagina que sejam os valores do outro cuidador? Pode imaginar como se construíram?
- O que você quer ensinar à sua criança sobre como lidar com a diferença?
- E sobre o respeito a diferentes formas de estar no mundo?
- Como isso se reflete na sua relação com cuidadores que educam de forma diferente da sua?
- Como lidamos com o fato de que o mundo da criança é composto de muitas relações?
- ️ É possível ter nossa própria forma de educar respeitando outras formas diferentes?

