O presidente Donald Trump isentou ontem da tarifa de 40% diversos produtos agrícolas brasileiros, entre eles carne bovina, tomate, café, banana e açaí. A lista tem mais de 60 itens e alcança até mesmo bambu, chás verde, preto e mate, castanha de caju, manga, mandioca e goiaba.
É o primeiro avanço significativo do esforço do governo brasileiro para derrubar o tarifaço sobre exportações brasileiras para os EUA, que chegam a 50%. Trump relacionou a decisão às negociações comerciais abertas entre EUA e Brasil após o encontro do republicano com o presidente Lula na Malásia em outubro.
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Em São Paulo, Lula comemorou dizendo-se feliz com a decisão do americano e afirmou que as coisas “vão acontecer”. O maior ganho será para os setores de carne e café, produtos dos quais o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores do mundo e que, na prática, passarão a entrar na maior economia do mundo com alíquota de importação zero. No entanto, outros produtos brasileiros seguem taxados em até 50%.
Na decisão de ontem, Trump retirou a sobretaxa de 40% que havia imposto em agosto a uma série de produtos brasileiros alegando motivos comerciais e políticos para alguns produtos do agronegócio brasileiro, mas não eliminou o tarifaço para todos os produtos.
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No último dia 14, o republicano já havia retirado a tarifa recíproca de 10% de produtos alimentícios não produzidos nos EUA, como café, carne e banana, vindos de qualquer país. Mas os brasileiros ainda estavam submetidos ao tarifaço de 40% específico para o Brasil. Por isso, sem a sobretaxa, esses itens ficarão isentos.
No entanto ainda há uma série de produtos que estão sujeitos às duas, somando um pedágio de 50% para entrar nos EUA, ou a uma das alíquotas. Veja alguns a seguir:
- Café solúvel
- Móveis
- Máquinas e equipamentos
- Calçados
- Têxteis e vestuário
- Aço
- Alumínio
Apesar de a medida não contemplar itens manufaturados, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, que liderou missão de empresários a Washington para tentar influenciar o governo Trump, disse que a entidade vê “com grande otimismo a ampliação das exceções”.
A Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados) também avaliou positivamente, mesmo que o setor não tenha sido contemplado. A entidade afirmou que a medida traz “esperança” de uma resolução do imbróglio que vem prejudicando as exportações de calçados desde agosto.
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Em um comunidado, o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, diz que o progresso das negociações é muito importante: “Os Estados Unidos são o principal destino do calçado brasileiro no exterior e o tarifaço de 50% vem prejudicando o setor desde que entrou em vigência, causando enormes prejuízos para empresas, principalmente do Rio Grande do Sul e de São Paulo, os principais exportadores de calçados para aquele país.”
No mês de outubro, as exportações destinadas aos Estados Unidos totalizaram 674,2 mil pares de calçados, 310 mil pares abaixo da média histórica para esse mês nos últimos dez anos”, conta o dirigente. “A partir da retirada de mais de 400 itens da lista (até agora pelas exceções dos EUA), estamos esperançosos que um avanço ocorra também para calçados até o final de 2025”, conclui Ferreira.
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Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior brasileiro e sócio da consultoria BMJ, diz que a decisão de Trump de desonerar produtos do agronegócio brasileiro é positiva, mas observa que a escolha dos itens parece relacionada com os preços em alta nos supermercados frequentados pelos americanos. O especialista avalia que o governo brasileiro precisará avançar nas negociações para contemplar outros setores na lista de exceções ou suspender todo o tarifaço sobre o Brasil.
— É uma sinalização positiva, mas os EUA retiraram a tarifa do que era importante para eles. Ainda há produtos relevantes para os exportadores brasileiros, principalmente industriais, que seguem taxados. As negociações têm de continuar — avaliou Barral, em conversa com O GLOBO. — O café solúvel, por exemplo, que equivale a 30% da exportação brasileira de café para os EUA, não entrou. Talvez porque a opção seja por importar o grão e processar dentro do país.
Itamaraty manterá pleito de suspensão total
Itamaraty promete perseguir a suspensão total do tarifaço na mesa de negociações. O Ministério das Relações Exteriores afirmou ter recebido “com satisfação” a medida, mas ressaltou que “o Brasil seguirá mantendo negociações com os EUA com vistas à retirada das tarifas adicionais sobre o restante da pauta de comércio bilateral.”
Um integrante do Ministério da Fazenda destacou que a medida beneficia produtos em que o Brasil é bastante competitivo, como café, carne bovina e suco de laranja. A expectativa é de retomada das exportações dos produtos beneficiados, que tiveram quedas entre agosto e outubro.
A Câmara de Comércio Americana (Amcham Brasil) avaliou como “muito positiva” a decisão da Casa Branca. “A medida representa um avanço importante rumo à normalização do comércio bilateral, com efeitos imediatos para a competitividade das empresas brasileiras envolvidas e sinaliza um resultado concreto do diálogo em alto nível entre os dois países”, diz um trecho da nota divulgada ontem.
Setores contemplados comemoram
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirmou que a reversão “reforça a estabilidade do comércio internacional e mantém condições equilibradas para todos os países envolvidos”. Também destacou a “efetividade do diálogo técnico e das negociações conduzidas pelo governo brasileiro”.
A Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) celebrou destacando que, na prática agora o produto garante taxa zero ao entrar nos EUA, inclusive nas modalidades torrado e moído. “Com esta nova ordem fica evidenciado que o café brasileiro é um produto essencial e estratégico para a economia americana, abrindo, inclusive, espaço para ampliação da presença dos cafés industrializados brasileiros no varejo norte-americano, com ganhos diretos para toda a cadeia produtiva, da indústria ao produtor”, diz um comunicado.
— Nosso trabalho agora é para que tenhamos o mesmo sucesso com o café solúvel — complementou o presidente do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Márcio Ferreira, que também celebrou a decisão.
Segundo ele, a entidade estima que, sem os cortes das tarifas, o país perderia cerca de US$ 3 bilhões no mercado americano, o maior do mundo.
Produtos agora isentos de tarifa adicional
Além do café e da carne bovina, uma lista de frutas, a exemplo do tomate e da manga, terão um regime especial, com isenção da tarifa adicional em períodos específicos ao longo do ano. Veja alguns dos produtos agropecuários listados na decisão de hoje pela Casa Branca:
- Café
- Carne bovina
- Açaí
- Banana
- Castanha de caju
- Laranja
- Suco de laranja (que já estava na lista de exceções em agosto)
Frutas frescas que têm isenção em períodos específicos do ano
A lista isenta de tarifa uma série de outros alimentos como cogumelos, alcaparras, broto de bambu, mandioca, inhame e gengibre.
As castanhas de caju e do Brasil, além de chás verde, preto e mate também foram excluídos. Assim como ervas e temperos a exemplo de cúrcuma, cominho e cardamomo. Há outros vegetais não comestíveis livres da taxação de 40%, como óleos essenciais e carvão.

